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Meu personagem da semana: Rogério Lourenço*

* Texto da coluna da semana para o FlamengoRJ

Hoje foram publicadas as primeiras declarações de Andrade após sua saída do Flamengo. E ele admitiu apenas um grande erro em seu trabalho neste ano: não ter priorizado a Libertadores.

Bem, este erro Rogério Lourenço, que viu cair em seu colo a oportunidade de dirigir o Flamengo num inédito confronto de mata-mata internacional entre as duas maiores torcidas do país, não poderá repetir. Afinal, é bastante possível que só dirija o Flamengo em partidas da Libertadores. Mas Andrade cometeu outros erros, além deste que reconheceu. E estes outros, o novo treinador rubro-negro poderia tentar não repetir.

Não vou nem entrar na administração dos problemas extra-campo de seus jogadores, que Andrade considerou - com razão - que eram mais de responsabilidade da diretoria. Mas sim nas questões de jogo mesmo: Andrade, este ano, não soube ler bem o elenco que tinha à disposição, nem administrá-lo para chegar aos momentos decisivos do semestre com o time montado e seus melhores jogadores nas melhores condições possíveis. Por exemplo: por muito tempo, ele pareceu acreditar que Vinícius Pacheco poderia ser a solução para a criação no meio-campo. Era óbvio que, quando os jogos fossem realmente à vera, isso não ia funcionar. E nenhuma das outras tentativas que ele passou a fazer, quando isso ficou claro também para ele, foram muito animadoras.

E isto inclui a formação que, dizem, Rogério mandará a campo amanhã. Assim como Andrade tentou seguidas vezes, ele pode colocar três volantes em campo, imaginando que Willians possa fazer também o papel de um meia mais avançado - algo que funcionou pouco até mesmo no ano passado, e agora fica ainda pior sem Petkovic em campo. Ainda tirou da cartola Rômulo, que não joga de titular desde 2007, provavelmente com a intenção de aumentar a altura de sua defesa (embora as notícias deem conta de que ele não irá jogar como zagueiro para liberar os alas, e sim como volante mesmo). Me parece uma opção ao menos melhor que Toró, mas não é exatamente animador.

Reparem: o único meia ofensivo escalado é Michael. Torçamos para que ele me surpreenda incrivelmente, mas o cara não é armador, nem mostrou em lugar nenhum futebol do tamanho desta responsabilidade. Longe disso. Até posso esperar algo dele enquanto jogar aberto, tentando dribles pelas pontas - nunca como um verdadeiro meia.

E aí eu fico me perguntando: o que acontece na Gávea para que, jogo após jogo, eu olhe a escalação do meio-campo reserva do Flamengo e o ache melhor que o titular? Se a escalação divulgada ontem se confirmar, o Flamengo terá Maldonado, Rômulo, Willians e Michael em campo, enquanto Lenon, Kléberson, Fierro e Petkovic ficarão de fora. Olha: era capaz de eu escalar este meio-campo reserva quase inteiro, só trocando Lenon por Maldonado.

A esta altura, Rogério (um zagueiro que se destacava não só pelo chute forte, mas também pela personalidade que o levou a assumir a braçadeira de capitão do time, que lhe caía bem melhor do que no seu atual dono) já tem em sua cabeça o que irá fazer amanhã. Eu só posso torcer de fora para que meu personagem da semana seja esperto o bastante para ter aprendido algo com os erros de seu antecessor.



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Inacreditável a repercussão do "empate" entre as torcidas de Corinthians e Flamengo, segundo pesquisa recente do DataFolha. Pessoas, ignorem as manchetes sensacionalistas: houve uma movimentação dentro da margem de erro, como sempre aconteceu nos últimos 20 anos nas pesquisas deste mesmo instituto. Qualquer análise dos números além disso é presepada pura.

Meu personagem da semana: Patrícia Amorim*

* Texto da coluna semanal no FlamengoRJ

É óbvio que o personagem rubro-negro que mais chamou a atenção no Flamengo na última semana foi Adriano. Mas deste todos já falaram, e muito - inclusive eu. Então, parti neste texto para uma escolha alternativa.

Embora ainda convivesse com todos os problemas financeiros vindos do passado, o Flamengo que Patrícia Amorim assumiu parecia pronto para decolar. Campeão brasileiro, um elenco com jogadores de nível de Seleção, um técnico bem sucedido no trabalho e identificado com o clube, contrato milionário com a Olympikus, várias empresas interessadas em patrocinar o time por muito mais dinheiro do que o contrato anterior, a torcida empolgada, Libertadores pela frente.

Porém, todos nós sabemos que dirigir o Flamengo é coisa pra gente grande. E, neste momento, começam a aparecer testes mais complicados para este seu início de administração.

Não é preciso mencionar todas as questões em torno de Adriano - e Patrícia já andou dizendo que a solução vai começar por uma boa conversa com Adriano, mas pode acabar até mesmo em um doloroso rompimento. Mas não é só o centro-avante que causa dores de cabeça: há o meia que é ídolo histórico mas anda por baixo, insatisfeito e com problemas de relacionamento com o grupo; há o vice-presidente que foi bem na campanha vitoriosa do ano passado, mas que este ano tem dificuldades em lidar com diversas situações a anda falando um tanto mais do que deveria. No meio disso, as decisões a serem tomadas sobre renovação de contratos que se encerram no fim do ano, entre eles dois justamente dos personagens principais do Hexa em 2009 e das confusões de 2010. E, além de tudo isso, podem crer que Patrícia ainda enfrentará - junto com todo o difícil trabalho de administração do clube - o falatório de um monte de pitaqueiros aliados de plantão, loucos para fazerem suas opiniões valerem de alguma coisa na briga de egos que é a política da Gávea.

Patrícia é política, acostumada a acomodar interesses - habilidade que lhe vai ser bastante útil no Flamengo. Mas, pra ter um tantinho mais de tranquilidade pra trabalhar, bem que o pessoal por lá poderia seguir suas palavras: "as pessoas devem se preocupar em fazer bom trabalho e falar menos". Às vezes penso que boa parte das "polêmicas" que surgem na Gávea seriam resolvidas se Patrícia contratasse um porta-voz que substituísse todo mundo - cartolas e jogadores - na hora de dar declarações. Como nego por lá gosta de falar besteira fora de hora.

Meu personagem da semana: Petkovic*

* Texto da coluna semanal para o FlamengoRJ
Diz o noticiário que hoje será definida a participação ou não de Álvaro e Petkovic no joguinho do Flamengo de amanhã, contra o Madureira. Em princípio, apenas problemas físicos poderiam deixar os dois de fora da partida. No entanto, se Álvaro é titular absoluto, hoje já não é este o caso de Petkovic - que até bem pouco tempo atrás era considerado imprescindível por todos. Hoje, dizem que está "sem clima" com o elenco, com a diretoria, com o treinador.

Caio Barbosa, jornalista que cobre o dia-a-dia do Flamengo para o jornal Extra, escreveu em seu twitter que "só a torcida rubro-negra pode forçar a renovação de contrato do Pet. É um peixe fora d´água no clube, sem ambiente algum". De fato, o carinho que os torcedores têm pelo herói de dois títulos históricos pode fazer a diferença. Mas a permanência ou não de Petkovic depende, antes de tudo, do próprio Pet.

Vamos lembrar que, até chegar ao Flamengo no meio do ano passado, Petkovic já era dado como ex-jogador em atividade. Entrou no clube pela porta dos fundos, sem que quase ninguém por lá tomasse conhecimento. Mas o gringo sabia que estava por baixo e resolveu trabalhar; treinou, se preparou. Como não havia no elenco ninguém para ocupar a posição de meia de criação e ele mostrava serviço nos treinos, teve sua chance. Entrou com humildade e, na bola, ganhou seu lugar.

O problema todo é que, com o sucesso, seu ego foi inflado. Já no fim do ano passado, suas atuações foram caindo de nível. Em boa parte, claro, por problemas físicos; Pet já não é nenhum garoto e sofreu uma contusão muscular que o prejudicou. Mas muito também porque, além de ter resolvido capitalizar a popularidade em mil eventos extracampo, passou a jogar no gramado de maneira bem menos modesta - não só correndo menos, mas tentando decidir a partida a cada lance, sempre partindo para lançamentos improváveis ou penetrações impossíveis toda vez que pegava na bola. No entanto, isso foi no fim do campeonato, ele já havia deixado sua marca na campanha (e, pra mim, foi mesmo o grande diferencial técnico no time que arrancou para o título) e a conquista fez sumir todos os erros que pudessem ter sido cometidos, por ele e por todos os outros que lá estavam.

A questão é que, este ano, Pet voltou mostrando a mesma falta de humildade, dentro e fora de campo. E, no momento, está regredindo à mesma situação em que chegou à Gávea: relegado a segundo plano por todos, sem espaço no time. O tal peixe fora d´água. Eu mesmo tinha sérias dúvidas, desde antes da temporada começar, se ele seria capaz de continuar jogando em alto nível em 2010 - e elas vão ficando cada vez maiores agora, não só para mim.

Se Petkovic quer sair por cima desta sua passagem pelo Flamengo, é o momento de perceber que, se a situação é parecida, a solução é exatamente a mesma do ano passado: trabalho e humildade. Até porque a situação do time também tem algo em comum com a de 2009: não há outro meia de criação no elenco pronto para pegar o lugar de camisa 10 (Adriano usa o número nas costas, mas vocês entenderam do que estou falando). Hoje, o time de Andrade joga praticamente com três volantes - Toró (guardando vaga para Maldonado), Willians e Kléberson - e três atacantes - Adriano, Love e Vinícius Pacheco. Este último anda sendo muito exaltado, e tem mesmo se mostrado surpreendentemente útil; mas não é um armador, daqueles de aparecer no meio e fazer a bola correr, e sim alguém que gosta de correr com a bola e que precisa de espaço para isso para aparecer realmente bem. Pacheco pode ser um substituto para o que Zé Roberto fazia ano passado, e não para Petkovic. O time pode até ir vencendo sem ter este homem; afinal, são todos bons jogadores e podem ir se virando, encontrando soluções. Mas o Brasileiro do ano passado mostrou a diferença que faz ter um grande armador.

Com todos os problemas, Andrade ainda tem dado oportunidades para Petkovic entrar em campo. Provavelmente teria iniciado a partida contra o Macaé, se estivesse liberado pelo departamento médico. Se estiver bem, deve jogar amanhã - se não de início, com certeza durante a partida. Ou seja: espaço para mostrar serviço ele ainda vai ter. Resta saber se saberá aproveitá-lo. Até porque andam dizendo por aí que a diretoria já anda pensando em um nome para ocupar o espaço que, por enquanto, ainda está ao alcance de suas atuações.

Meu personagem da semana: Andrade*


* Texto para a coluna semanal no FlamengoRJ

O assunto rubro-negro do momento é a permanência ou não de Andrade no comando do time no ano que vem. Até umas duas semanas atrás, acho que ninguém imaginaria o treinador deixando o clube; mas, ao que parece, há uma diferença grande entre o que ele pretende receber, valorizado que está pelo título nacional, e quanto a diretoria está oferecendo. E o bem informado jornalista José Ilan soltou uma linha pessimista em seu twitter hoje cedo: “Antes era impressão; agora é certeza: Andrade tá esticando muito a corda. Se bobear ela arrebenta. Seria ruim pra ele e pro Fla.”

Vamos relembrar agora como aconteceu a efetivação de Andrade, uns meses atrás, feita pelo mesmo Marcos Braz que seguirá com Vice de Futebol na nova administração. Se com Kléber Leite era certeza que ele não seria o treinador, com a entrada de Braz ele não passou imediatamente a ser a primeira opção. Antes de confirmar a sua permanência, o Flamengo foi atrás de outras opções – e foi noticiado que uma oferta de R$80 mil por mês foi considerada “medíocre” por Vagner Mancini. Andrade foi uma escolha que deveu-se à sua simpatia junto à torcida, à percepção de que teria competência para fazer um bom trabalho – mas, principalmente, à contenção de despesas necessária no clube. Na época, avaliou-se que simplesmente não havia dinheiro pra pagar o que treinadores mais experientes andavam pedindo.

Pois bem: será que a situação financeira do Flamengo melhorou muito daquela época pra cá? É claro que o título trouxe a perspectiva de aumento de receitas, mas a coisa não mudou da água pro vinho de uma hora pra outra. E Patrícia Amorim, a nova presidente, elegeu-se com a bandeira do respeito ao orçamento, do “gastaremos só o que podemos”. Pelas notícias que lemos por aí, Andrade ganhava 50 mil, recebeu uma proposta em torno de 120 mil – mas está insistindo em receber mais que o dobro disso. E aí, como é que ficamos? Lembrando: antes de fechar com Andrade, o que sabemos é que o clube estava disposto a pagar apenas 80 mil a um treinador já com certo nome no mercado.

É inegável que Andrade fez um bom trabalho. E tenho certeza de que seria muito, muito difícil substituí-lo neste momento. Fora os aspectos técnicos, ele conquistou a confiança da torcida e, principalmente, dos jogadores – o que é algo não tão fácil de se conseguir. Qualquer outro que chegar terá esta tarefa pela frente, que se tornará ainda mais difícil se for alguém “baratinho”, sem muito cartaz por aí.

Porém, não dá pra escapar da realidade: só dá pra pagar o que dá pra pagar. É uma conta que só quem está lá dentro pode fazer, já que não temos por aqui os orçamentos todos em mãos. Mas não dá pra fazer loucuras e assumir um pagamento já sabendo antes que não será possível honrá-lo todo mês. Se pra manter Andrade for necessário dar a ele um salário além do que se previa no orçamento, algum outro corte terá que ser feito. É bom que isso seja até explicado ao técnico: não adianta pedir um salário duas vezes maior que o oferecido e ainda esperar que a diretoria gaste mais em reforços de peso, como ele já sinalizou em entrevistas por aí. O cobertor pode ficar curto demais.

Qual a solução? É esta a conclusão a que devem chegar Marcos Braz e Patrícia Amorim, que já tem uma batata quente nas mãos antes mesmo do seu mandato começar. Imaginem que o clube perca seu treinador recém-campeão por contenção de despesas, contrate outro duvidoso e barato no lugar e, uma semana depois, anuncie-se que os salários do pessoal da ginástica foram postos em dia e iniciou-se as reformas das quadras de basquete na Gávea – ainda que ela consiga justificar algo do gênero com o orçamento em mãos, como será a reação daquele pessoal que sempre se opôs a Patrícia, com medo dela desviar a grana do futebol para o esporte amador?

A minha sugestão a Andrade e à diretoria: que se feche um contrato mais próximo do que o Flamengo se diz apto a pagar e, em contrapartida, premiações polpudas por resultados, vinculadas justamente às receitas extras que classificações e títulos podem gerar. Acredito que é uma linha de negociação que pode deixar todo mundo satisfeito. Isso, claro, se árabes malucos não atravessarem o caminho.

Meu personagem da semana: Petkovic*

* Texto para a coluna semanal no FlamengoRJ

Quem lê esta coluna deve lembrar que outro dia mesmo Petkovic foi escolhido como tema - e já como figurinha repetida. E eu dizia: "se a cada rodada ele decidir o jogo, a cada semana será ele o assunto - e eu, pelo menos, não ficarei muito chateado." Infelizmente, porém, desta vez não foi o caso.

Em um intervalo curto de tempo, Petkovic foi chamado pra conversar com Jô Soares, para colocar seu pé na Calçada da Fama do Maracanã, para receber condecoração da Assembleia Legislativa do Rio e para ser o convidado da vez no programa de Galvão Bueno na TV. No meio disso tudo, ainda arrumou tempo para ir gravar cenas de um documentário sobre ele mesmo na Bahia. Quer dizer: não sou eu que estou escolhendo Pet como personagem da semana; é o mundo inteiro.

Eu considero Petkovic o craque do campeonato, e dificilmente mudarei de opinião até o final. Porém, reparem: sua recuperação foi impressionante, ele teve grandes atuações, foi decisivo em muitos jogos - mas ainda não ganhou nada. E fiquei com uma certa impressão de que essa sequência de homenagens, num momento que sinceramente me parece bastante impróprio, acabou inflando um tanto o ego do gringo.

Essa desconfiança vem da sua atuação no último jogo. Independente de ter ido mal - o que pode acontecer com qualquer jogador -, a impressão que me dava no primeiro tempo é que ele era simplesmente incapaz de dar um toque mais simples; todas as vezes em que participava do jogo, tentava um passe daqueles mágicos, improváveis, pelo meio de três ou quatro defensores. E errava, e matava a jogada.

E vejam bem: estava muito quente no Maracanã, todo mundo sabe. Petkovic tem 37 anos, claro. Andou já se contundindo, todos lembram. Tudo isso deve ser levado em consideração. Mas a verdade é que ele caminhou em campo nos primeiros 45 minutos, inclusive dando as costas para diversos lances, com a intenção deliberada de não participar - num tipo de atitude sem a bola que a TV não pega, mas que quem esteve no Maracanã pôde notar. Li Bruno falando que Pet "correu o campo inteiro", li Renato Mauricio Prado escrever hoje em sua coluna que ele "lutou o tempo todo", mas não foi bem isso o que vi no estádio não. Petkovic parecia sem a menor condição física de estar em campo e com a intenção de se desgastar o menos possível, pra ir se mantendo em campo e, quem sabe, resolver numa bola parada ou num dos tais passes geniais que tentava em todos os momentos.

Ficou claro o quanto ele estava realmente se poupando pela atitude totalmente diferente no segundo tempo, quando resolveu correr e participar do jogo, sendo visto até cobrindo Juan na lateral esquerda. E ficou mais claro ainda como ele realmente não tinha condição física de jogar pelo pouco tempo que isso durou - em quinze ou vinte minutos, o cara já estava completamente morto e demorou demais a ser substituído.

E aí, volto ao meu argumento: aos 37 anos, em baixa, Pet teve a humildade de se dedicar aos treinos, se dedicar à dieta, baixar o percentual de gordura e se preparar o máximo possível para conseguir estar no melhor de sua forma e dar esta impressionante volta por cima. E tanto esforço deu resultado. Porém, neste momento, as notícias seguidas são de viagens e ausências em treinos pra filmar, pra dar entrevista, pra receber homenagens. Que sua capacidade técnica bem acima da média é suficiente para se destacar, todo mundo já percebeu; mas será que está claro em sua mente que, num momento decisivo como este, isso pode não bastar para levar seu time ao título?

Vejam bem: pode não ter nada a ver. Não sou preparador físico, não vivo na Gávea, não conheço Petkovic pessoalmente, nada disso. Posso estar completamente enganado quanto ao momento de um cara de quem sou fã e que, de novo, considero o craque do campeonato. Mas, se andei falando na mesma linha sobre Adriano, deixo aqui humildemente o meu conselho: Pet, tem hora pra tudo. O campeonato ainda não acabou. Deixe qualquer outra coisa pra daqui a duas semanas e coloque a cabeça só no trabalho que tem que ser feito nestas duas partidas que faltam. Se tudo der certo, qualquer homenagem que vier vai ter um sabor muito, muito melhor.

Meu personagem da semana: Adriano*

* Texto para a coluna semanal no FlamengoRJ


Domingo foi dia do Imperador chamar a responsabilidade e resolver a parada pro Flamengo. Uma coisa é simplesmente fazer os gols, o que ele conseguiu quase sempre ao longo do campeonato - como outros tantos por aí fazem, neste e em outros anos; outra é realmente jogar um nível acima, como Adriano fez contra o Náutico. Fora ter deixado lá seu golzinho, simplesmente por estar bem colocado, ele participou decisivamente do primeiro com uma matada linda e um passe de quem já sabe o que fazer antes dos outros e fez um punhado de outras belas jogadas. Correu, apareceu pro jogo, matou as bolas mais difíceis, deu bons passes, enfim - jogou o que se espera de um cara com o nome que ele tem.

E, sendo sincero, ele não vinha fazendo isso nos últimos jogos. Faz seus gols, claro; é decisivo, óbvio; o melhor atacante do campeonato, é indiscutível. Mas não vinha jogando como o Imperador, como o fora de série que pode ser. E a impressão que dava, principalmente pra quem vê o jogo no estádio, é que ele estava simplesmente abaixo fisicamente do que já esteve neste campeonato, cansando cedo demais. Ficou claro pra quem estava no Maracanã contra o Santos e, pelo que me contou gente que esteve no Mineirão, aconteceu por lá também.

Não sei se vocês lembram, mas houve uma época do campeonato, quando o Flamengo não era este time embalado e rumo ao hexa de hoje, em que os atrasos e faltas de Adriano eram até notícia. Criavam estresse, faziam os dirigentes aparecerem com desculpas desencontradas, enfim, um constrangimento. Hoje, toda semana Adriano volta separado dos companheiros quando o time viaja e deixa de aparecer em pelo menos um treino por semana - e ninguém nem se dá mais ao trabalho de inventar uma historinha qualquer pra justificar isso. Parece claro pra todo mundo: faz parte do pacote, foi combinado antes, no início só estavam tentando salvar as aparências. Agora que o time está ganhando, estão todos simplesmente deixando pra lá.

E tá certo. Foi combinado, ele só está no Brasil e não na Itália exatamente por este tipo de coisa e, mesmo neste esquema, ele está sendo decisivo.

Porém - e sei que vou ser repetitivo agora, porque já andei falando disso antes -, quero lembrar a todos que faltam apenas TRÊS jogos, e o Flamengo está na beira de ser campeão brasileiro pela primeira vez desde 1992. Estou convencido de que, com três vitórias, o Flamengo chegará lá. Pode até ser que não chegue, que o São Paulo ganhe todas, paciência - mas se o título escapar por conta de um tropeço qualquer, vai ficar um gosto amargo na boca de todo mundo. Por isso, é hora de todos se conscientizarem do tamanho do momento. Ser campeão pelo Flamengo agora será algo que marcará a carreira e a história de todos - inclusive do Adriano.

Vale ou não vale um esforço extra? Por mim, com o time campeão, quem quiser ganhar folga no início do Estadual do ano que vem, tá liberado. E achei bem interessante ler na primeira página do Globo que a diretoria já planeja tirar o time do Rio de Janeiro antes da partida contra o Corinthians.

O Imperador é bem grandinho, sabe o que está fazendo - tomara que esteja percebendo qual é a situação. E faça o possível pra repetir, nos últimos três jogos, o que fez domingo passado. De qualquer forma, de novo: o cara não só arrebentou contra o Náutico como é o artilheiro e grande atacante do Brasileiro. E, por isso, é meu personagem da semana.

Meu personagem da semana: Petkovic*

* Texto para a coluna semanal no FlamengoRJ

Sei que outro dia mesmo o número 43 foi meu escolhido como assunto da coluna. Fazer o quê? Se a cada rodada ele decidir o jogo, a cada semana será ele o assunto - e eu, pelo menos, não ficarei muito chateado. A dificuldade será encontrar um jeito diferente de falar do mesmo sujeito a cada texto.

O Flamengo teve uma boa atuação no domingo. Marcou bem, foi organizado, teve frieza, determinação. Mas não dá pra tirar o peso decisivo daquele gol improvável que Petkovic achou, em um momento em que o Atlético tinha impressionantes (embora não tão produtivos) 70% da posse de bola. Assim como contra o Palmeiras - outra vitória em confronto direto, fora de casa -, Pet encaminhou os três pontos em um lance individual, num momento em que o adversário pressionava e tentava se impor em seu estádio.

A questão é que, neste momento, tão visível quanto a importância do meia pro time é o fato de que ele não está mais em suas melhores condições. Nos últimos dois jogos, Willians já passou a jogar mais preso à marcação, para que Pet pudesse ficar mais livre à frente - e, mesmo assim, não aguentou os 90 minutos. Até outro dia, todos estavam impressionados por vê-lo correndo o tempo todo, dando carrinhos na defesa aos 45 do segundo tempo; agora, isso já não parece que poderá ser visto novamente até o fim do campeonato.

Contra o Atlético, houve o melhor dos mundos para o Flamengo: Pet jogou, foi decisivo enquanto esteve em campo e, ao sair, deu seu lugar a outro jogador que também foi importante - Fierro, que fez várias jogadas pela direita e deu um gol a Adriano. Para a próxima partida, o chileno não estará disponível, e Andrade já deve estar imaginando o que poderá fazer se seu principal jogador voltar a não conseguir chegar ao fim da partida. A partir do jogo contra o Goiás, ao que parece Kléberson já estará disponível e poderá melhorar um pouco a situação do treinador.

Eis aí um ponto importante para que o Flamengo consiga chegar ao título: que Andrade consiga descobrir a melhor maneira de aproveitar o meu personagem da semana enquanto estiver em campo - e também a melhor maneira de agir quando isso não for possível.

Meu personagem da semana: Bruno*


* Texto para minha coluna semanal no FlamengoRJ

A escolha do protagonista da coluna desta semana não poderia ser outra: entre os jogadores do Flamengo, Bruno foi o grande responsável pela entrada do rubro-negro no G4 pela primeira vez neste Brasileiro. Cabe aí o "entre os jogadores do Flamengo" - afinal, jogadores de outros times foram também muito importantes para que o Flamengo chegasse a esta colocação. São os casos, entre outros de Fred, do Fluminense; Juninho, do Botafogo; e, por que não, Paulo Henrique Ganso, do Santos.

Longe de mim negar os méritos de Bruno nas duas defesas de sábado, ou ousar dizer que o cara não é bom pegador de pênaltis. Ele fez o seu trabalho, com louvor, e mereceu todos os gritos e aplausos que recebeu no Maracanã. O Muhlemberg, do Urublog, já levantou a bola: é melhor os zagueiros pararem de fazer faltas fora da área e deixarem pra parar o lance mais perto do gol, porque o cara é melhor pegando pênalti do que falta. Mas é fato que, neste último jogo, contou com a inestimável ajuda do garoto do Santos, com duas cobranças de pênalti lamentáveis.

Ganso não só pegou mal na bola, nos dois pênaltis, como foi mais um a ignorar algo claro: Bruno escolhe o canto em que vai pular, e o avisa a todo mundo, com razoável antecedência. Na verdade, ele inclusive segue sempre o mesmo ritual, de que falou o Marcelo Damato em seu blog sábado, em todas as cobranças. Contra o Botafogo, eu mesmo comentei no SobreFlamengo após o jogo: ele escolheu o lado muito, muito antes de Lúcio Flávio chutar, e mesmo assim o botafoguense colocou a bola onde Bruno estaria. Creio eu que Paulo Henrique até notou isso no sábado, antes de perder o segundo pênalti, e por isso quis chutar no meio - mas a bola foi tão fraquinha, tão rasteirinha, que acabou não adiantando.

A questão é que quem usar as indefectíveis paradinhas, tão comuns hoje em dia, tende a se dar bem contra Bruno por conta dessa sua característica. Estarei torcendo bastante para que, independente de existirem ou não quaisquer erros do juiz no próximo domingo, o Flamengo não volte a ter que contar com Bruno para salvá-lo de sofrer gol de pênalti. Mas, em todo o caso, é bom o goleiro se precaver: Tardelli, o batedor oficial deles, marcou o gol da vitória do Atlético sobre o Goiás na última rodada exatamente desta forma. Bruno só vai ser pego de surpresa se não se ligar - e em Belo Horizonte, as defesas de Bruno, que chamaram tanta atenção, com certeza estão sendo bastante discutidas.

É o tipo de detalhe que pode fazer a diferença nesta final de domingo. Torçamos para que o meu personagem da semana, se for exigido, volte a fazer a diferença.

Meu personagem da semana: Petkovic*

* Texto para minha coluna semanal no FlamengoRJ



Quase unanimidade: Petkovic foi o grande nome do Flamengo x São Paulo de sábado e, provavelmente, de toda a rodada do Brasileiro. Depois de ter perdido um pênalti, conseguiu na segunda chance cobrar de um jeito que foi mais que uma simples volta por cima; e, no final, decidiu o jogo com a enfiada espetacular para Zé Roberto fazer o segundo gol.

Falar de como essa volta por cima do gringo surpreendeu a todo mundo, a esta altura, é chover no molhado. Fato é que este retorno de Petkovic faz todo mundo que o assiste jogar voltar no tempo. Não só à época em que o próprio sérvio, anos mais novo, estava no auge de sua forma – mas mais ainda: a um tempo que parecia não voltar mais na história do futebol.

Pet se movimenta, busca o jogo, corre, até carrinhos está dando, mas enche os olhos mesmoà base de lançamentos. São passes longos que descobrem seus companheiros livres, na cara do gol, longe do enquadramento das câmeras da TV – quando ele solta a bola, a gente não sabe onde a viagem pode terminar, até chegar aos pés de um Adriano ou Zé Roberto de frente pro goleiro. Ver seus passes no sábado, ou antes contra o Sport, por exemplo, dá uma sensação de nostalgia – me lembro de, garoto ainda, ver o técnico Ênio Andrade dizer que colocaria seu Inter para fazer marcação especial em Zico na final do Brasileiro de 87 a partir da intermediária do Flamengo. “Se ele pegar a bola dali pra trás e fizer os passes de 50 metros dele, o cara que receber ainda vai estar razoavelmente longe do nosso gol”. Dá pra se voltar mais ainda, a um tempo que eu nem vivi: imagino que foi com passes assim que um Didi ou um Gérson fizeram fama.

Pet, com sua idade, seus modos e seu futebol, nos lembra sempre que é de outro tempo, que formou seu futebol com referências de outras épocas – e está trazendo um pouco destes anos já longínquos para o dia de hoje.

E agora me pergunto quem seria mais difícil para o Flamengo substituir hoje: Adriano, com cuja ausência o time conviveu nas últimas duas rodadas, ou Pet? Saindo ele, quem poderia fazer seu papel? Para os rubro-negros, o melhor é torcer para o meu personagem da semana conseguir chegar ao fim do Brasileiro sem desfalcar o time. Ao menos de Dunga ele está a salvo.

Meu personagem da semana: Dênis Marques*

* Texto escrito para minha coluna semanal no FlamengoRJ


Na vitória tranquila do Flamengo anteontem no Maracanã, só um personagem rubro-negro saiu insatisfeito de campo. Trata-se de Dênis Marques, que teve atuação ridícula, foi vaiado, sacado no intervalo e viu o time crescer, tornar-se melhor no ataque e vencer com a entrada de um volante em seu lugar.

Só que, com Adriano convocado por Dunga, a vaga no time titular para os próximo dois jogos continua no colo do bravo Dênis Marques. A única opção de centro-avante além dele no elenco seria Bruno Mezenga, e ninguém poderia acreditar muito que Andrade fosse lançá-lo de titular agora. O que quer dizer o seguinte: o Flamengo vai tentar vencer estes dois difíceis jogos substituindo o seu melhor pelo seu pior jogador na última partida. Pode dar certo?

Dênis Marques nos diz que sim. Segundo o próprio, ele vem sendo sacrificado jogando numa função que não é a sua e ficou magoado com a perseguição com vaias da torcida (algo que, de fato, não ajuda muito). Acredita que poderá aproveitar bem a ausência de Adriano para mostrar seu valor.

Eu  não sei não. Desde que chegou, mesmo quando jogou de centro-avante, Dênis Marques não conseguiu ter uma atuação realmente boa. Já há um bom tempo no Rio, ele continua lento - não só pra correr atrás da bola, mas até de reflexos. O tempo inteiro, o jogo parece estar numa frequência e ele em outra. Consigo lembrar aqui rapidamente de vários lances em que a bola caiu em seus pés em boas condições para marcar e ele não conseguiu sequer chutar a gol.

Depois de Pet - e agora, ao que parece, Zé Roberto -, devemos aprender a lição e ter certa cautela antes de dizer que fulano ou sicrano definitivamente não tem jeito. Se Andrade vem insistindo com o Oséias da nova geração, deve estar vendo algum potencial de evolução no cara durante os treinos - e ele tem mesmo mais subsídios para avaliar seus jogadores no dia-a-dia do que nós, que vemos tudo de fora. O cara é bem pago e dá pra entender uma certa insistência para torná-lo útil no elenco.

Mas devo lembrar que, antes de chegar ao Flamengo, Dênis Marques amargava a reserva em um time de meio de tabela da J-League. E o argumento de estar fora de posição me deixa um tanto intrigado, pois ele não está sendo escalado de volante ou lateral, mas como segundo atacante - e em sua melhor fase no Atlético-PR ele fazia dupla com Alex Mineiro, um centro-avante típico.

Vamos torcer, porém, para que ele esteja certo e seu futebol suba muito de produção ao ser colocado como homem de referência do ataque. Não precisar mais dar alguma ajuda na marcação pode mesmo ajudá-lo a chegar mais inteiro na hora de concluir na frente, já que se vê que ele não está em grande forma física. Se isto acontecer, ele terá provado que pode ser um bom reserva para Adriano. Pra ser titular ao lado do Imperador, ele precisa mostrar que pode exercer outras funções em campo, o que até agora não aconteceu.

Meu personagem da semana: Álvaro*


* Texto para minha coluna semanal no FlamengoRJ


Ele chegou olhado com certa desconfiança. Mas o fato é que, desde que estreou, a defesa rubro-negra simplesmente não levou mais nenhum gol. Vocês têm alguma lembrança do Flamengo passando cinco jogos consecutivos sem ter que buscar a bola em suas redes? Eu não.

Pois acontece que Álvaro estará fora do Fla-Flu. Uma das famas que o acompanhavam parece estar se confirmando: o cara é mesmo de fazer muitas faltas, várias inclusive próximas à sua área. Assim, o terceiro cartão amarelo veio no quinto jogo. E este domingo poderemos conferir um pouco o tamanho de sua importância para esta fase invicta da retaguarda do Flamengo.

A maioria divide os méritos desta melhora da defesa entre o zagueiro e o meio-campo Maldonado. De fato, o chileno entrou bem no time - mas devo lembrar que na estreia de Álvaro, contra o Santo André, Maldonado só entrou no finzinho do jogo e o time já passou a partida inteira sem ser ameaçado. Se Álvaro melhorou o rendimento do time sem Maldonado, vamos ver se o nível se mantem com Maldonado e sem Álvaro.

Quem joga pelada deve saber a diferença que faz para quem atua na defesa ter ao seu lado alguém ruim ou alguém bom para ajudar na marcação. O cara ruim deixa seu companheiro inseguro; você precisa se preocupar em marcar o seu e o dele, porque já sabe que ele vai dar mole daqui a pouco. Sua colocação fica prejudicada, sua segurança no mano-a-mano idem. Já o cara bom te deixa tranquilo para fazer seu trabalho. Se for bom de verdade, ele inclusive ajuda a orientar os outros - "sai nesse", "deixa que esse é meu", "fica por aqui", "pode avançar".

Este efeito do companheiro pode ser verificado em Ronaldo Angelim. Até a chegada de Fábio Luciano, quando era acompanhado de gente da estirpe de Moisés, Irineu e Thiago Gosling, Angelim nunca conseguiu se firmar. Com o antigo capitão ao seu lado, cresceu assustadoramente de produção e muitos até passaram a vê-lo como o melhor da dupla. Mas foi só ele ganhar a companhia de garotos como Wellington e Fabrício que o rendimento voltou a cair. Neste momento, com Álvaro, a segurança já está retornando. E é bom dizer que o novo zagueiro chegou do Sul também com a fama de líder, de bom de conversa.

Pois é: Álvaro - assim como Maldonado - ajudou a, desculpem-me o clichê -, "encorpar" o time. Mais rodado, experiente, cascudo, sua entrada parece ter servido para ajudar os outros a evoluírem à sua volta. E por ter cumprido este papel de liderança, ajudado a levar o Flamengo a esta série invicta em sua defesa e agora ter que ficar de fora num momento importante de consolidação, Álvaro é o meu personagem da semana.

Meu personagem da semana: Nélson Rodrigues*

* Texto escrito para minha primeira coluna semanal no FlamengoRJ. Quem passa por aqui há mais tempo deve perceber que já falei antes por aqui de Nélson, deste livro, enfim, de muito do que está no texto. Reciclagem é ecologicamente correto, vocês sabem.


Ao receber o convite para assumir uma coluna semanal por aqui, no FlamengoRJ, fiquei pensando: como ocupar este espaço? Queria chegar a um formato que me garantisse um tema por semana, sem simplesmente repetir o tipo de ideia que eu já utilizaria para meus textos no SobreFlamengo, blog que toco regularmente.

Daí lembrei de um livro que terminei no início do ano: O berro impresso das manchetes, que reúne todas as crônicas publicadas por Nélson Rodrigues na Manchete Esportiva, na segunda metade dos anos 50. Pega um período em que o Brasil saía decepcionado pela derrota na Copa de 54 e passa pela conquista do primeiro título mundial, em 1958 – está lá, por exemplo, o texto em que ele cria o famoso “complexo de vira-latas” brasileiro, aquele que Pelé e Garrincha liquidaram na Suécia.

A melhor parte do livro está em seu início. Nas suas primeiras crônicas para a publicação, Nélson não se prendia muito aos acontecimentos esportivos da semana; os jogos eram apenas desculpa para ele pegar algum detalhe e, a partir dele, desenvolver teorias definitivas sobre a condição humana ou pequenas narrativas que em boa parte das vezes nada tinham a ver com futebol. Nélson poderia escrever exatamente os mesmos textos em um blog hoje em dia e seria um sucesso estrondoso – é um material que continua fresco como há 50 anos.

O primeiro texto do livro é Flamengo sessentão, escrito em 1955 em homenagem ao aniversário do clube. É aquele da manjada passagem que fala que “Há de che gar talvez o dia em que o Flamengo não precisará de jogadores, nem de técnicos, nem de nada. Bastará a camisa, aberta no ar co.” Normalmente, reproduzem por aí só este parágrafo, mas o texto é inteiro delicioso – desde o início, em que ele começa comentando com saudade os quadris das mulheres do início do século passado: “ é impossível não ter uma funda nostalgia dos quadris anteriores à Primeira Grande Guerra. Uma menina de catorze anos para atravessar uma porta tinha que se pôr de perfil. Con¬venhamos: — grande época! grande época!” Nélson, todos sabem, é um histórico símbolo do Fluminense – mas nem por isso deixava de entender o que é o Flamengo. Por toda a sua obra, são inúmeras as passagens em que trata da mística do Manto Sagrado ou da diferença do torcedor rubro-negro para os demais.

Mas bem: como não tenho o talento do dramaturgo, na verdade não me inspirei para definir o que farei deste espaço nos primeiros e originais textos do livro, tampouco em seus épicos relatos e descrições da força da Natureza que é o Flamengo. E sim no formato que ele passou a adotar na Manchete Esportiva, a partir de um determinado momento, por sugestão de seu editor: o “Meu Personagem da Semana”. A cada rodada, ele escolhia uma figura para colocar em evidência, de acordo com o que tivesse realizado em campo – ou à beira dele. Os textos, sem dúvida, ficaram muito mais datados para quem os lê agora, já que se prendiam a acontecimentos ali daqueles dias; mas, na época, fizeram sucesso e ficaram neste formato ao longo dos anos em que escreveu na revista e, depois, em outros veículos.

Não apostaria que estes meus textos terão tanto sucesso ou longevidade – muito menos que venham a virar livro daqui a algumas décadas. Mas enfim, a ideia me pareceu boa. Por isso, por ter inspirado o formato desta modesta coluna semanal que hoje estreia, Nélson Rodrigues é meu personagem da semana.