Há coisas que não mudam

O livro a que me dedico no momento é O berro impresso das manchetes, uma reunião de todas as crônicas futebolísticas escritas por Nelson Rodrigues para a revista Manchete Esportiva, entre 1955 e 1959. É um livro que você lê como se estivesse chupando um Chicabom - textos rápidos, cheios das sacadas, o tipo de coisa que faria sucesso em blog hoje em dia.

Os mais interessantes, 50 anos depois, são aqueles que não se prendiam a comentários sobre jogos específicos da época - como o que ele começa comentando sobre a necessidade dos canalhas num jogo de futebol e acaba contando a história do sujeito que, numa excursão, se esconde no alto de uma árvore pra observar as mulheres do grupo tomando banho; ou o outro invejando a corajosa covardia do juiz que fugiu correndo de um jogador que tentava lhe agredir. Mas mesmo os relatos de partida não deixam de ser interessantes (e é até engraçado ler o cara fazendo grandes análises sobre jogos que ele mesmo afirma só ter ouvido pelo rádio).

E, apesar de Nelson Rodrigues ser dos tricolores mais famosos de todos os tempos, o livro é especialmente interessante pros rubro-negros. O primeiro texto é justamente Flamengo sessentão, aquele em que ele fala do poder da camisa rubreo-negra, que um dia dispensará jogadores e sozinha se tornará uma bastilha inexpugnável para seus adversários. Essa passagem é bem manjada, mas a crônica inteira é muito boa, desde o início em que ele comenta saudoso sobre os quadris das mulheres pré-I Guerra - "Uma menina de catorze anos para atravessar uma porta tinha que se pôr de perfil. Con venhamos: — grande época! grande época!"

Mesmo depois deste texto, são inúmeras as passagens em que Nélson fala do poder da camisa do Flamengo. Mas o que eu queria citar por aqui mesmo é o texto Presidente Hilton Santos, publicado em 23/3/1957, sobre o resultado da eleição para presidente do Flamengo. Reparem só:

"Por exemplo: dizem que as finanças do clube deixam a desejar. E daí? A ordem administrativa seria uma virtude medíocre, que faz falta aos outros e ao Flamengo, não. Vou além: a popularidade do Rubro-negro decorre de suas afinidades conosco. Uma dessas afinidades, um desses vínculos, é a referida desordem administrativa, que também funciona na nossa vida pessoal e coletiva. Quando ouço falar nas 'dívidas do Flamengo', confesso: quero-o mais por causa disso. As nossas dívidas traduzem um élan vital que não se contém dentro de limites petrificados. E o sujeito, ou o clube, que não deve nada, que está mesquinhamente em dia é, na verdade, um soturno pobre-diabo, indigno de nossa simpatia. Os desafetos rosnam que o Flamengo deve aos dentistas, aos médicos dos seus jogadores e mais: que deve os seus próximos jogadores. Ótimo, ótimo. Assim ele se parece mais com todos nós e cada um de nós. (...) Para que o clube conserve o seu panache, a sua generosa euforia, o seu apetite vital é preciso que tenha uma certa irresponsabilidade administrativa."

1957! É mole?

2 comentários:

vôo do urubu disse...

Há coisas q não saem de moda nunca, como a inteligência, p. ex. Ou a desorganização administrativa no Flamengo.
Leandro

Saudações rubronegras!

Mansur disse...

Andre,

Eu queria saber onde e que vc comprou esse livro ai (se tiver alguma informacao, meu email eh mansur.rahal@gmail.com). Moro no Canada e vou ver se alguem ai do Brasil consegue ele pra mim. Feliz 2009 p vc e pro nosso Flamengo.

Abraco