Adriano e o pacote contratado*

* Texto para a coluna semanal no FlamengoNet.

O Flamengo finalmente perdeu um jogo, depois de tentar bastante. E, por conta do resultado, várias opiniões mais críticas sobre determinados aspectos do time começam a aparecer por aí - na imprensa, em blogs, no Twitter. Me chamou a atenção especificamente a quantidade de comentários reclamando de Adriano. "Pesadão", "sem ritmo", "tem que treinar mais" e por aí vai.

Vejam bem: se as faltas a treinos, as regalias e os problemas extra-campo fazem parte do pacote contratado para ter Adriano no time (e todos já concordam com isso, e repetem várias vezes que "se não fosse assim, ele estaria na Itália"), eu já estou chegando à conclusão que também esta sua forma meia-bomba faz parte do acordo - até porque ela é consequência exatamente de outros pontos negociados no contrato. Pode ser que, em eventuais momentos de maior empolgação do Imperador, ele dê um upgrade ocasional. Mas, de modo geral, é isso aí mesmo que dá pra esperar; é o que ele mostrou na maior parte do tempo em que esteve por aqui.

Muitos vão dizer que não é bem assim, que o Flamengo foi Hexa graças a ele, jogando bem mais do que agora. E é verdade; quando Adriano entrou em forma, foi fundamental para a arrancada do time rumo ao título. Porém, como já escrevi aqui algumas vezes, isso aconteceu em uma fase específica do campeonato, quando ele voltou realmente bem fisicamente da primeira convocação para a Seleção. Diria que aquele Adriano, o verdadeiro Imperador, entrou em campo entre os jogos contra o Sport, na 24a. rodada, e o contra o Botafogo, na 31a. Um intervalo, portanto, de oito rodadas apenas - sendo que ele esteve ausente nos jogos contra Vitória e São Paulo, por estar na Seleção.

Já mencionei aqui que, até aquela convocação, Adriano andava fazendo gols, era importante, mas não fazia do Flamengo um time vencedor. Lembrei que ele esteve em campo, impotente, nas goleadas sofridas para Sport, Coritiba, Avaí e Grêmio, na fase ruim do time. Mas vou fazer diferente agora e relembrar alguns relatos do ano passado, pra vocês verem que isso não é só revisionismo meu.

Primeiro, para ilustrar a visão que eu tinha do Adriano pré-Seleção:

Devo dizer que me impressiona o estágio atual da forma física de Adriano, tanto tempo depois de sua volta ao futebol, sem contusões no meio do caminho. Ele diz que está próximo do ideal, mas realmente não acho que quem o vê em campo concorde. O cara é melhor que os outros tecnicamente, está claro, e até em termos de inteligência em campo se diferencia. Mas ainda está muito mais lento do que o seu normal, e até agora nada da bomba de esquerda dar as caras.
(...)
De novo: ele é importante em campo, como não - não vou discutir. E, como lembram muito, o artilheiro do time, inclusive.
Mas, pra colocar as coisas em perspectiva, quero lembrar que Obina fez, até agora, apenas um gol a menos que Adriano no campeonato.

Este texto foi exatamente antes da ida de Adriano para a Seleção, quando o Flamengo estava longe de ser considerado candidato ao título. Ele voltaria a jogar apenas contra o Sport, no Maracanã, de volta de seu spa comandado por Dunga. E esta já foi uma bela atuação, a sua melhor no Flamengo até então, em que a diferença de seu físico já chamava a atenção:

(...) a produção do time na frente poderia ter sido ainda melhor - mas, ao menos pro nível do adversário, a bela atuação de Adriano compensou com tranquilidade. Hoje o Imperador pareceu mais leve, se movimentou bem e, fora os dois gols, fez várias outras belas jogadas.
A impressão se confirmou na rodada seguinte, contra o Coritiba - mais uma grande atuação de Adriano, em que  ficou claro para todos que a sua forma física era outra:

Mas quem pode não se empolgar com um gol como este que os dois nos apresentaram hoje? A movimentação, o lançamento, o toque por cobertura - tudo perfeito. E Adriano ainda fez questão de tirar a camisa na comemoração, pra levar o cartãozinho besta, mas mostrar como anda seu físico.
O time seguiu bem nas rodadas seguintes, foi se aproximando da liderança. Na 31a. rodada, Adriano decidiu contra o Botafogo, ganhando no físico dos zagueiros adversários para fazer o gol da vitória - "embolou-se com a bola na maior parte de seus lances, mas decidiu o jogo em uma só jogada". Na rodada seguinte, contra o Barueri, sem Petkovic, não esteve bem e o time teve uma noite péssima. Contra o Santos, o time voltou a vencer, com gol de cabeça de Adriano. Mas Bruno teve que pegar dois pênaltis, o time passou perrengue no Maracanã e a forma do Imperador já não era a mesma, algo que quem via os jogos no estádio podia notar com clareza:

O time, na verdade, sofreu com o cansaço de suas principais peças ofensivas a partir de um determinado momento (...).
Adriano - que já não está mais naquela forma exuberante em que foi devolvido pela Seleção há um tempo atrás - até partia para algumas arrancadas em contra-ataques, mas acabava concluindo mal os lances pela falta de pernas. Numa delas, deu um pique realmente incrível para ganhar na velocidade de um adversário - e, depois de ter ficado com a bola, simplesmente passou a bola para um jogador do Santos. A vista do cara deve ter embaçado.
E fica aqui um parêntese: faltam só cinco rodadas. É hora de conscientizar todo mundo do momento de decisão que a equipe vive. As férias vão chegar logo logo, todos vão poder descansar o quanto puderem. É hora de todo mundo - todo mundo! - treinar, todo dia, dando seu máximo, para estar no melhor de sua forma. Quem acha que merece as regalias que ganha poderia deixá-las um pouquinho de lado numa hora dessas.

O jogo seguinte foi a épica vitória contra o Atlético-MG, no Mineirão. Adriano fez novamente um gol de cabeça (o terceiro do time), mas esteve apagado a maior parte do jogo. Quem foi ao Mineirão notou que ele já não se movimentava bem em campo - caso de meu amigo Max, que em nossas conversas nunca deixou de achar Adriano importantíssimo para o time e a compreensão sobre o tal "pacote contratado". Max viajou para ver o time de perto e registrou sua impressão sobre o Imperador em um e-mail da época: "E o Adriano nao treinou hoje de novo. Foda... Ele podia dar um gás ao menos nessa reta final. Tá gordo e quase não se mexe em campo".

Pois é: àquela altura, o Adriano que se via não era muito diferente do que se vê hoje - talvez estivesse até pior. O Flamengo acabou Hexa, vocês sabem, mas não sem sofrimento e com atuações bem abaixo daquelas do auge da arrancada. Todos se lembram do dramático jogo contra o Grêmio, em que Adriano jogou ainda com bolha no pé, esteve mal e perdeu várias oportunidades de marcar. Mas mesmo antes da tal queimadura numa lâmpada de jardim que o tirou da partida contra o Corinthians, na penúltima rodada, ele já havia decepcionado no empate contra o Goiás, no Maracanã, quando muitos sentiram o título escapando por entre os dedos:

(...) na boa: no fim do jogo o cara parecia não ter forças nem pra tocar a bola de lado - era até constrangedor.

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Tudo isso é pra dizer o seguinte: o Adriano decisivo, impressionante, Imperador, de que todos se lembram na campanha do Hexa, não durou muito. Uma meia dúzia de partidas, talvez. Na maior parte do tempo, tanto em 2009 quanto em 2010 (a atuação contra o Universidad não foi muito diferente do que se viu, por exemplo, contra o Vasco - mas houve um pênaltizinho que deu a Adriano a chance de "passar seu recado" e mudou um tanto o tom dos comentários sobre ele no dia seguinte), o Flamengo teve um atacante acima da média, que sabe usar seu porte físico e sua técnica superior para concluir bem as chances de gol que lhe aparecerem; mas que se mantém longe de sua melhor forma física, costuma cansar no segundo tempo e que não resolverá a parada com frequência quando o time como um todo não estiver funcionando bem. Um jogador de bom nível em relação à concorrência, capaz de fazer muitos gols e dar alegrias, mas não um excepcional, fora de série. Um belo centro-avante, mas não tão diferente assim de outros por aí que sabem deixar sua marca quando o time lhe servir bem. Melhor que Washington ou El Loco Abreu, mas não muito mais decisivo do que um Kléber ou um Fred, por exemplo.

É mais do que a maioria dos times por aí têm. Mas é menos do que muitos rubro-negros acham que podem contar. Pelo que eu já percebi, o pacote contratado é este. E talvez, se não fosse assim, ele estivesse na Itália.


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E, considerando tudo isso, faz pouco sentido vermos Adriano saindo tanto para buscar o jogo enquanto Vagner Love joga o tempo dentro da área. Não só é esquisito pelas características dos dois, como ainda não combina com o fôlego de Adriano. Não é de se estranhar que, no fim da partida em Santiago, suas arrancadas fossem neutralizadas com tanta facilidade pelos zagueiros chilenos.

6 comentários:

Max disse...

Pois é, André. Nos seus relatos você citou inúmeros gols de cabeça do Adriano (e esse é o seu maior diferencial, sem dúvidas), mas como esperar isso dele esse ano se, pelo menos metade do tempo, ele está fora da áerea no revezamento com Vagner Love. Estou com implicância exagerada, confesso, mas insisto que o artilheiro do amor atrapalha muito mais dos que os simples erros que comete em campo (que já não são poucos).

O Adriano me preocupa porque ele não parece estar muito gordo, ao menos visualmente, e mesmo assim está sem explosão. É diferente da reta final do brasileiro onde a forma redonda dele era visível. Tá precisando malhar as pernas, rs.

Freire disse...

A sorte do Adriano é que o Flamengo faturou o Hexa. Se o time perdesse o título na reta final, ele seria crucificado pela mesma galera do oba-oba que o endeusou - aliás, Pet também seria alvo de críticas, já que andou bastante ocupado com compromissos extra-campo na reta final.

Também já estou conformado: o Adriano que vemos em campo é o Adriano que podemos ter e ponto final. Foi importantíssimo pro Hexa, continua sendo importante, é ídolo da torcida, mas não vai ser o Imperador de verdade, aquele do auge da carreira.

E ainda estou aguardando as tais bombas com o pé esquerdo.

Anônimo disse...

E qual a dificuldade em deixa-lo fixo na área e o WL voltar um pouco?

Fernando disse...

Acho isso também.... E o Flamengo está de mãos atadas. Não possui ninguém no banco que chegue perto do nível dele....

Discordo do comentário que diz que WL atrapalha. Adriano não fica na área pq não quer. O WL busca muito mais a bola do que ele, além de correr o tempo todo.
Entretanto, com certeza no time do ano passado ele era muito mais procurado. Zé roberto não é atacante, ele tem a característica de vir de trás, assim a única referência no ataque era o Adriano.

Abraço a todos!!

Anônimo disse...

O Adriano meia-bomba do ano passado é diferente do de agora. Mesmo à meia-bomba, ele retinha a bola com rara solidez. Atualmente ele sequer consegue dominar direito, lembra muito o Obina nesse aspecto.

/marco

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