O Campeonato Carioca deste ano não é um " me engana que eu gosto"

Ao contrário de outras épocas, em 2012 o Rio de Janeiro tem times em condições de irem bem mesmo nas competições mais importantes da temporada.



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Está cada vez mais frequente ouvir torcedores dizendo que o Carioca não vale nada. Mas hoje os torcedores de Botafogo e Vasco se mobilizaram para este jogo e o Engenhão encheu. O campeonato tem times demais, jogos demais valendo pouco, precisa mudar o formato e ainda concorre de maneira complicada com a Libertadores pela atenção dos torcedores. Mas este ano, especificamente, quem ganhar o título estadual terá vencido um campeonato em que os principais clubes realmente têm bons times.

Nem vou citar o Flamengo, mas Fluminense, Botafogo e Vasco têm equipes que vão entrar no Brasileiro em condições de lutar, no mínimo, por vaga na Libertadores - como já fizeram no ano passado. Por muito tempo ouvimos dizer que o Carioca é um campeonato "me engana que eu gosto" mas, desta vez, fragilidade dos pequenos à parte, não é por aí.

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O Vasco, que perdeu as duas finais de turno, tem um time solidário, concentrado, capaz de criar problemas para qualquer adversário. Na defesa, tem um goleiro ao menos confiável, dois laterais bons no apoio e uma zaga que, quando Dedé está em campo, impõe respeito. Está também relativamente bem servido de volantes - Alan e Rômulo são jovens e bons - e tem em Éder Luís uma boa opção de atacante de velocidade.

Mas faltam um centroavante melhor que Alecsandro (Diego Souza tem jogado ali também, mas não é muito a dele, especialmente em termos de posicionamento) e mais poder de criação no meio. Juninho ainda é bom jogador, mas é muito mais de fazer a bola girar e ditar o ritmo do jogo do que de dar passes decisivos. Felipe, ao contrário, tem uma visão rara para este tipo de toque, mas é muito irregular e faz jogos apagados com frequência. Se ele não está bem, o time fica sem poder de penetração e, como aconteceu hoje no Engenhão, limita-se muito a bolas levantadas na área. Quem entrou bem hoje foi Carlos Alberto, mas não é uma opção em que alguém tenha segurança para apostar.

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O Botafogo é um clube com mais dificuldade que seus rivais para levantar grandes recursos. Vale olhar seu balanço patrimonial de 2011; a situação é muito complicada, apesar de sua administração ser muitas vezes vista como exemplo. No ano passado, o clube gastou quase 4 milhões de reais a mais do que arrecadou e, somando despesas financeiras, teve um resultado negativo em incríveis R$144 milhões. Sua dívida de curto prazo, a ser paga até o final do ano, é de R$225,5 milhões, quase quatro vezes maior que o total de suas receitas.

Ainda assim, conseguiu montar um grupo bom, dentro de suas possibilidades. Um grande goleiro, uma zaga ao menos segura (hoje foi muito bem no jogo aéreo, em que foi muito testada), a melhor dupla de volantes do Brasil e, dali pra frente, uma boa variedade de opções ofensivas. Não há nenhum craque, mas Elkeson, Andrezinho, Fellype Gabriel, Jobson, Herrera e Loco Abreu são jogadores de estilos variados, todos com suas qualidades. Hoje, Oswaldo de Oliveira, técnico que normalmente se sai bem melhor ao ajeitar seu ataque do que sua defesa, chegou a escalar Fellype Gabriel como volante, posição em que poucos imaginariam que ele pudesse se sair bem. Mas deu certo.

Faltam opções de banco em algumas posições e, entre os titulares, os laterais poderiam ser melhores. O time não brilhou na temporada até agora, mas fato é que está invicto, na final do Estadual e indo em frente na Copa do Brasil. É o tipo de onda que Vanderlei Luxemburgo tirava em 2011 no Flamengo mais ou menos a esta altura do ano.

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O Fluminense é o elenco mais caro, mais cheio de opções. No papel, do meio pra frente mesmo seu time reserva seria o suficiente para impor respeito. Ou não tem muito time de primeira divisão que gostaria de poder escalar entre os titulares Jean, Souza, Wagner e Lanzini; Rafael Sóbis e Rafael Moura? Além disso, tem jogadores acostumados a chamar para si a responsabilidade de decidir, o que é sempre importante em jogos como os que terá agora pela frente, e uma combinação que normalmente é capaz de, sozinha, tornar um time vencedor: um grande meia (Deco) e um grande centroavante (Fred).

Mas, na prática, o futebol não tem sido à altura do que poderia se esperar, apesar dos resultados até agora terem sido bons.. Porém, estes resultados não terão valido nada se agora, quando as partidas começam a realmente valer muito, o desempenho não for suficiente para fazer o time ganhar. E os jogos do Fluminense deveriam estar sendo melhores para passar segurança - foram muito poucas as atuações realmente boas do time de Abel em 2012.

Mas é isso: apesar de alguns não estarem jogando no nível da fama que tem (em especial Wagner, tremenda decepção até agora, e Thiago Neves), o Fluminense tem elenco pra ganhar de qualquer um e pode se encaixar no momento de decidir.

3 comentários:

Tiago Cordeiro disse...

ÓTIMO texto. Só discordo sobre a melhor dupla de volantes do Brasil. Pra mim, de longe, é a do Corinthians.

Mas gosto muito de Renato e Marcelo Mattos.

E pra não deixar de falar do Flamengo: acho complicado um time sem primeiro volante, deixar o Maldonado, mesmo em péssima fase, sair ao invés de esperar o fim do contrato.

André disse...

É uma boa reflexão e também acho a dupla de volantes do corinthians melhor. Possuem mais pegada e melhor chegada na frente.

Penso que o Maldonado já "virou o fio". Deve ser um salário relativamente alto e nunca joga. Além disso, das últimas vezes que jogou mostrou claramente o peso da idade.

Trata-se de um bom volante mas o tempo chega para todos.

Pergunto: Por que não terminam o contrato do R10 de uma vez? Fica essa picuinha pública e só piora o clima já ruim no clube.

Esse cara já fez (pouco) o que tinha que fazer. Chegou a hora de passear e o Flamengo seguir sua vida. Aposto que o time ficaria muito mais dinâmica sem ele.

Luis disse...

O Carioca foi um bom "esquenta" para o resto do ano, mas a média de público nos estádios, inclusive clássicos, mostra que é no máximo um torneio "pré-temporada" e dessa forma ser bem mais curto. Concordo que os outros 3 grandes são bem competitivos para Brasil e América do Sul. O Mengão chega lá, se mandar o Ronaldinho embora.