E se o Flamengo vendeu mesmo um percentual de toda a base para o BMG?

A informação não foi confirmada oficialmente. Mas, se for, isso não é necessariamente uma má notícia.




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Hoje é dia de jogo do "Flamengo B" - aquele recheado de garotos que, embora contra adversários fraquíssimos, é o que tem dado mais prazer de ver jogar aos torcedores. E eis que também hoje foi publicada em O Globo uma notícia que envolve estes garotos e deixou muita gente alarmada: segundo Ancelmo Góis, colunista do jornal, a engenharia financeira feita para levantar recursos para pagar a contratação de Vagner Love incluiu a venda para o BMG "um percentual de praticamente toda a base do clube campeã da Copa São Paulo de Juniores de 2011 - inclusive, promessas com Adryan e Luiz Antonio".

Antes de mais nada, é bom dizer que não se sabe se esta informação é verdadeira. Ancelmo Góis é um colunista de respeito, mas não citou a fonte e já errou outras antes sobre o Flamengo. De outros cantos, já surgiram informações de que a grana teria saído de uma linha de crédito conseguida pela diretoria junto ao Santander - outra informação sem confirmação oficial. Como esta diretoria, como basicamente todas as anteriores, não prima pela transparência no uso do dinheiro do Flamengo, pode não ser tão fácil saber onde está a verdade.

De qualquer forma, não é impossível que tenha sido por aí mesmo. Já tinha corrido por aí antes que a maneira que Patrícia Amorim e Michel Levy tinham encontrado para manter Thiago Neves, no desespero, havia sido exatamente esta. Teve jornal noticiando por aí reuniões com o BMG madrugada adentro sobre o assunto. Não sei se foi isso mesmo que aconteceu, acho que pode não ter sido, mas não é uma história inverossímil.

E, agora finalmente o ponto em que queria chegar: se aconteceu, não é necessariamente errado. Não dá pra ser dogmático nisso aí.

Quem acompanha este blog sabe que sou um cara preocupado com a situação financeira do Flamengo e tenho muitas críticas à maneira com que a diretoria atual lidou com ela até hoje. Mas o fato é que o Flamengo, como já repeti aqui várias vezes, não tem dinheiro sobrando, muito pelo contrário. Há uma dívida de curto prazo que, no fim de 2010, equivalia a 175% da receita anual do clube e um buraco de R$40 milhões no orçamento de 2012 que foi apresentado recentemente em reunião do Conselho Fiscal. O clube precisa se capitalizar para fechar este buraco e, além disso, ainda contratar os reforços de peso que todos (eu sou uma exceção) exigem - como Vagner Love, que "virou obrigação" e cuja contratação foi comemorada de forma quase unânime por aí. Mas será possível que quem soltou estes rojões não parou pra pensar que o dinheiro pra pagar os russos tinha que sair de algum lugar?

Pois bem: em minha modestíssima opinião, vender percentual de jogadores, inclusive da base, é uma maneira legítima de levantar este dinheiro que o Flamengo precisa. Mais: dependendo de como for feito, pode ser uma opção muito melhor do que ir ao mercado atrás de empréstimos garantidos por receitas futuras, obtidos com juros que pesarão feio nas contas dos anos seguintes.

Pra pegar um exemplo propositalmente simples: digamos que tenham vendido 10% do Adryan, reconhecido por aí como a maior joia vinda da base neste momento. Se estes 10% tivessem sido avaliados em 3 milhões de euros, seria um mau negócio? Em minha opinião, longe disso; o dinheiro estaria mais que de bom tamanho pelo que estaria sendo cedido e o Flamengo manteria o jogador, continuaria com o poder de decisão sobre uma futura venda e conseguiria um dinheiro importante para sobreviver neste momento, sem se comprometer a pagar juros em cima disso daqui a pouco. E estou falando apenas de uma hipotética venda de uma fatia de Adryan; mas, se falam em um percentual "de quase toda a base", isso fatalmente incluiria jogadores que nunca serão vendidos, que nunca darão em nada. Enfim: não dá pra dizer se uma transação deste tipo valeu ou não a pena sem ter mais dados.

Fora isso, é bom ver com reservas se aparecer gente ligada a diretorias anteriores criticando este tipo de movimento, simplesmente porque não é algo novo. Ou alguém se esqueceu da venda de Renato Augusto para a Alemanha? Apenas no momento em que ele deixou o clube é que ficou claro pra todo mundo que, na verdade, uma enorme parte de seus direitos já tinha sido vendida, em condições não muito boas, pra poder pagar compromissos imediatos. E volta-se assim a um ponto em que toquei de leve lá em cima: a costumeira falta de transparência dentro do Flamengo com estas coisas, algo que prejudica a avaliação da gestão pelos sócios, que têm todo o direito de saber o que está sendo feito em seu nome com os recursos do clube. Não é um problema de agora e é algo que deveria ser resolvido.

Atenção: estes comentários são em cima de meras suposições. Ninguém sabe exatamente se houve negócio e como foi. Se aconteceu, pode ter sido muito ruim, pode ter sido muito bom. Quero apenas chamar a atenção para o fato de que não é pecado mortal vender percentagem de jogador da base; até o tão elogiado Santos faz isso e, se não fizesse, não teria conseguido manter Neymar e Ganso por lá até agora.

E aprendam: o dinheiro tem que sair de algum lugar. Não existe mágica.

4 comentários:

Luiz Filho disse...

Concordo plenamente, André!

Se por algum acaso o clube vendeu por R$ 50 MI 5% de toda a base é um bom negócio, logicamente isso não ocorreu, mas poderia, vide o que faz o presidente do Santos.

Ontem ele falou sobre o assunto é era exatamente sobre isso, no caso Ganso. O Santos tem 45% do passe do jogador e não se interessa por comprar mais 10% como gostaria o jogador, porque ele tem contrato até 2015 e uma multa rescisória, é só pagar ou negociar algo que seja vantajoso para o clube. Simples.

É uma bela opção de negocio e um modo de capitalizar o futebol sem pegar empréstimos que lesam ao clube como um todo.

saulo disse...

Eu achei essa história viagem do Ancelmo. A um tempo atrás, saiu uma nota no lance dizendo que o BMG não teria interesse em comprar o Thiago Neves com o Flamengo porque esse tipo de negócio não era o interesse deles (compra de percentual de jogador). Aí de repente eles iriam comprar nossa base inteira? Sabe-se também que o BMG tem um pedaço grande do passe do Montillo, e acho que a experiência deles não deve estar sendo muito boa, com o Cruzeiro negando cegamente ofertas absolutamente irrecusáveis por um jogador de 29. Será que eles arriscariam de novo? Ainda mais com dirigentes com a fama que o Flamengo tem?

Além disso, alguma outra mídia esportiva divulgou que o BMG está recuando seu "braço" do futebol e ficaria apenas em alguns clubes(o Santos seria um desses). Essa notícia poderia ser verificada pelo fato de que alguns clubes não terão seu acordo renovado (Flamengo e Vasco entre eles). Bom, se essas histórias procederem, e assim como foi dito e repetido na imprensa a grana que bancou o Vágner é a mesma que seria empregada no Thiago, já me parece que a BMG não foi o investidor da vinda do Vágner. Por outro lado, vem se especulando a aproximação do CRF com o Santander. o Gilmar Ferreira disse que esse dinheiro foi liberado por eles em troca da mudança das contas do Flamengo para lá, e aí fica a minha dúvida: vale esse tipo de investimento em troca das contas do clube, simplesmente? Então eu creio em duas possibilidades: Ou o Ancelmo errou de fofoca ou errou de banco.

André Monnerat disse...

Saulo, eu não sei se a informação do Ancelmo procede ou não.

Mas é bem diferente eles não quererem investir diretamente na compra do Thiago Neves ou comprar garotos da base. O Thiago Neves já é mais velho e já está num patamar de valorização difícil de ultrapassar, não é um investimento bom pra lucrar com venda futura - ao contrário de Thomás, Adryan, Muralha e outros. E o BMG tem não só parte dos direitos do Montillo, mas de muitos jogadores por aí, registrados pelo Coimbra Esporte Clube. Entre eles estão Dedé, Rever, Paulinho, Ralf, Herrera, Leandro Castán...

Parece que eles estão querendo reduzir o número de clubes que patrocinam, colocando marca em uniforme. Mas não ouvi falar de reduzirem investimento em jogadores não. Você pode ler sobre a atuação do BMG no futebol aqui: http://globoesporte.globo.com/platb/olharcronicoesportivo/2012/01/10/patrocinio-ou-balcao-de-negocios/

Ricardo Nagato disse...

André,

seria legal você comentar sobre o post do Erich Beting, feito na última sexta-feira: Para que serve o marketing de um clube?

O link é http://negociosdoesporte.blogosfera.uol.com.br/2012/01/27/para-que-serve-o-marketing-de-um-clube/.

Ele fala de uma iniciativa muito legal do Botafogo em relação a seus parceiros (http://www.maquinadoesporte.com.br/i/noticias/marketing/23/23690/Com-renovacoes-Botafogo-celebra-estrategia-de-2011/index.php).

Isso não é novo na Europa e já li que os grandes clubes fazem eventos para reunir seus patrocinadores. Isso promove até ações entre os parceiros e não somente com o clube.

SRN