A prestação de contas da campanha dos tijolinhos

As prometidas câmeras transmitindo as obras ainda não foram ligadas, mas este não é o maior problema de transparência na ação para levantar o Centro de Treinamento do Flamengo. Texto da coluna semanal no FlamengoNet.




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Vinícius Paiva publicou há um tempinho um levantamento interessante no FlamengoNet com as campanhas feitas desde 2005 pelo clube vendendo produtos para arrecadar recursos para fins específicos - normalmente a construção do Centro de Treinamento. Para o CT, antes da atual campanha dos tijolinhos, ele menciona que já haviam sido vendidas pulseirinhas de borracha e camisetas. Vinícius mostrou quantas foram vendidas, a margem de lucro de cada campanha e o total arrecadado: com estas duas iniciativas, chegaram pouco mais de 700 mil aos cofres rubro-negros, valor já ultrapassado em muito pela campanha atual.

Mas houve pelo menos outras duas oportunidades em que os torcedores contribuíram para as obras no Ninho do Urubu. Na época da venda das pulseirinhas, rubro-negros se juntaram no Orkut para fazer a campanha Conte Comigo Mengão, pedindo doações para uma conta-corrente que somaram R$14 mil.

Antes disso, na época em que Márcio Braga tentava profissionalizar o futebol do clube com o Fla-Futebol comandado por Júnior, João Henrique Areias desenvolveu a campanha Eu Amo o Fla, que envolvia carnês de ingressos para os jogos no Maracanã e em Volta Redonda (que venderam pouquíssimo) e a venda de camisas com uma arte feita por Ziraldo. Também os recursos arrecadados com esta camisa foram destinados ao Ninho do Urubu; não sei quanto deu mas, segundo Areias, os dois primeiros campos do CT foram construídos graças à campanha. Também foi colocada por lá uma placa com os nomes dos que participaram da campanha, agradecendo pela contribuição para a estrutura do clube. Sei de gente que colaborou e ficou se perguntando, quando do lançamento da campanha do tijolinho, o que seria feito agora desta placa.


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Como se vê, não é a primeira vez que o Flamengo aposta na boa vontade de seus torcedores para tirar do papel o projeto do CT de Vargem Grande. A diretoria atual - tirando eventuais nomes que tenham passado pelos mandatos anteriores, claro - não tem nada a ver com isso. Mas é principalmente por este histórico, pela quantidade de vezes em que já pediram esta ajuda sem que o projeto realmente deslanchasse, que há tanta necessidade de transparência na campanha atual. As pessoas precisam acreditar que, desta vez, a coisa vai ser pra valer.

Infelizmente, apesar de todas as promessas, o site da campanha Rubro-Negro Para Sempre ainda deixa bastante a desejar neste aspecto. Novamente anuncia-se atraso na transmissão online das obras, mas isso nem é o pior. A prestação de contas é apenas um pdf , com atualização de um mês atrás, onde são informados o número de tijolos vendidos, o total arrecadado, o total de descontos (sem discriminar quanto foi pela produção do tijolo/muro, quanto é de custos operacionais, quanto é de imposto) e o valor líquido que sobrou para o clube.

Mas, pra mim, talvez mais importante do que saber este total arrecadado é entender onde e como ele será gasto. Até já li em matérias algumas declarações de membros da diretoria sobre o valor do projeto, mas no hotsite não há em lugar nenhum esta informação. Não se informa quanto é o valor total, o que exatamente está sendo construído nesta primeira fase, quanto custa cada etapa - nada. Assim como não se informa quanto do dinheiro arrecadado com os torcedores já foi gasto e em quê. Na verdade, eu gostaria até de entender o que garante que este dinheiro está mesmo separado do buraco negro das contas normais do clube e não será encaminhado pra pagar alguma penhora por conta de dívidas antigas - algo que poderia acontecer idendendente da vontade sincera dos diretores de gastar apenas no Ninho do Urubu, caso a Justiça assim decidisse.

Os argumentos que estão lá para os rubro-negros menos crédulos decidam deixar de lado suas desconfianças e coçar o bolso não são dos melhores. E os comentários que surgem por aí sobre certificados não entregues também não ajudam.


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Acho que já escrevi aqui: esta campanha do tijolinho pode ser entendida como uma ação de crowdfunding, algo que está muito na moda na internet hoje em dia: é o apelo aos interessados em determinado projeto para que colaborem com dinheiro para viabilizá-lo, recebendo em troca alguma recompensa (no caso, o tijolinho no Centro de Treinamento). O site americano que deu grande impulso ao modelo é o Kickstarter e, no Brasil, já existem vários funcionando para projetos de diversos tipos. .

Todos funcionam com ferramentas bem parecidas, que você pode conferir no caso da Banda Mais Bonita da Cidade, que bombou loucamente no YouTube com um videoclipe há um tempinho e agora tenta viabilizar a a gravação de seu CD com um projeto no Catarse.me. Há atualização em tempo real sobre o total arrecadado, quantas pessoas colaboraram (e até os nomes de cada um deles, tirando os que preferirem ficar anônimos) e o valor do projeto, com a indicação da percentagem da meta que já foi alcançada. Você pode colaborar não apenas com cartão de crédito, mas também por débito em conta ou boleto bancário. E já estão lá as ferramentas para os apoiadores compartilharem a página da campanha no Twitter e no Facebook. Até mesmo o código para você embedar a campanha em seu blog ou site, como se faz com vídeos do YouTube com facilidade, está disponível por lá. Algo obviamente muito, muito melhor do que se oferece no hotsite montado pelo Flamengo para a campanha.

Não estou dizendo que o Flamengo deveria usar um site como estes, com seu modelo todo pronto e usado igualmente por todos os projetos - é possível sim que algo montado especificamente para o clube fosse melhor. Mas não parece ser o caso. E o custo até parece competitivo com o da ação rubro-negra, embora não seja fácil dizer quanto dos 24% de descontos que a arrecadação do Flamengo tem vão efetivamente para a construção do muro e o envio dos certificados. O padrão destes sites de crowdfunding é ficar com uma comissão entre 5% e 9%; a empresa responsável pelo sistema de cobrança fica também com uma comissão que varia de acordo com a forma de pagamento, mas que não deve ultrapassar uma média de 5%.


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Nada disso quer dizer que eu não acredite em quem está tocando as obras do CT. Pelo que já ouvi, o vice de patrimônio Alexandre Wrobel é um cada sério e que está comprometido no projeto. E acredito mesmo que a diretoria esteja se esforçando para ter esta conquista a apresentar no fim do mandato. Mas a campanha para pedir a ajuda dos torcedores poderia, e deveria, ser bem melhor.

Um comentário:

André disse...

Eu recebi o meu certificado no tempo prometido.

Espero que no final do ano possa ver o meu tijolo conforme prometido.