Um balanço do primeiro ano de Patrícia Amorim no Flamengo

2010, é fato, não foi um bom ano para o futebol do Flamengo. A nova diretoria, que assumiu o clube num momento de grande euforia da torcida, foi uma grande decepção na maneira de lidar com o carro-chefe do clube. Ao fim de doze meses, o balanço que se pode fazer é: quem assumiu o clube não tinha nenhum plano concreto de como dirigir o departamento de futebol.


Em janeiro, a decisão de manter Marcos Braz no comando do futebol vinha com a explicação de que “não se podia mexer no time que está vencendo”. Pouco tempo depois, Braz foi demitido e ficou claro que ele não estava ali apenas por impossibilidade de mudar a equipe campeã; afinal, após sua saída, a diretoria simplesmente não soube o que fazer para substituí-lo e deixou o departamento acéfalo por um tempo considerável, em um momento decisivo da temporada.

Em seguida, veio Zico. Mas ficou mais uma vez claro que não havia ideia clara do que fazer com o futebol; conseguiu-se convencer Zico a assumir, o que foi um feito, mas não se fez nada além de entregar a pasta na mão dele, pra trabalhar exatamente na mesma estrutura que sempre houve por lá. Não se pensou em momento nenhum em um novo organograma que realmente profissionalizasse a administração do futebol do clube, com gente competente e remunerada para trabalhar com o diretor executivo nas diversas áreas do departamento – financeira, jurídica, logística, técnica. E Zico, que teve suas falhas e tem seus defeitos, fez suas reclamações sobre isso.

Como todos sabemos, a presidente acabou sucumbindo às pressões de quem pedia a cabeça do diretor executivo. E percebe-se que coincidiu com sua saída uma grande transformação na relação da presidência com gente que antes ia à imprensa fazer denúncias ininterruptamente.

Enfim: as bandeiras de campanha, sobre o profissionalismo na gestão não só do futebol, mas de todo o clube, não foram colocadas em prática em 2010. E a presidente, a maior parte do tempo, parece preocupada demais em estar sempre de bem com todo mundo lá dentro, sem enxergar a real transformação que o Flamengo precisa. Neste momento, o futebol encontra-se nas mãos de um ex-presidente que fracassou terrivelmente em seu mandato eleito e agora volta como profissional remunerado; e de Vanderlei Luxemburgo, com uma carta branca que não me anima nem um pouco.

Sinceramente, não estou nada otimista quanto aos resultados do Flamengo dentro de campo em 2011. Tomara que esteja enganado.


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Mas tenho sim esperança de que o Flamengo caminhe em 2011 para uma grande conquista: uma estrutura física aceitável para os profissionais do futebol do clube trabalharem. O processo em torno da construção do CT não anda tão bem quanto prometido, mas ao menos o assunto hoje está em pauta de maneira objetiva. Ao longo dos últimos dez anos, só o que se viu foram maquetes e projetos ambiciosos que dependiam de parcerias mirabolantes e fontes de receita milagrosas que nunca surgiram. Hoje, as ideias parecem estar mais perto de serem postas realmente em prática.

E se Patrícia Amorim conseguir entregar mesmo o CT completo ao fim de seu mandato, terá realmente deixado um enorme legado para o futuro do clube, algo que as direções anteriores não conseguiram.

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Na verdade, não vejo tanta diferença assim entre o que Patrícia Amorim andou fazendo e o que Márcio Braga fez ao longo dos seis anos anteriores.
É claro que ele assumiu o clube em condição delicada. Mas foram seis anos em que não se andou um centímetro para mudar o modelo de gestão do clube, ampliar o quadro de sócios, melhorar a estrutura física, aprimorar processos, tratar melhor o torcedor na venda de ingressos... O marketing andou bem menos do que deveria e o futebol passou boa parte do tempo entregue nas mãos de Kléber Leite, que conseguiu alguns resultados de sucesso, mas ao mesmo tempo prejudicou a recuperação financeira do clube e abandonou totalmente as categorias de base. E mesmo a maneira com que Zico foi tratado no clube teve um precedente parecido em muitos aspectos com Júnior e o fracasso do “Fla-Futebol” – devemos lembrar que Zico teve que enfrentar Capitão Léo, que ocupa um cargo eletivo, enquanto Júnior tinha como opositor e sabotador declarado o próprio Vice-Presidente de Futebol, que havia sido nomeado e jamais foi realmente censurado pelo presidente.

Não dá pra afirmar que Patrícia Amorim tenha feito o clube andar pra trás no marketing, na base, na estrutura física ou mesmo nas finanças. Em alguns pontos, houve até alguns avanços, mesmo que tímidos. Claro, poderiam ser muito, mas muito maiores, não só pelo potencial do clube, mas também pelo cenário atual do mercado do futebol no Brasil. Mas a verdade é que, pra mim, a administração do Flamengo em 2010 meio que foi mais do mesmo. Nem mesmo as trapalhadas na condução do futebol foram tão inéditas assim.

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Sobre o time dentro de campo, creio que houve um enorme erro de avaliação no início do ano sobre o time hexacampeão. Erro que foi da diretoria e também de boa parte dos torcedores e analistas. E que persiste até hoje, quando alguns avaliam que havia uma estrutura vencedora que foi desmontada.

A verdade é que o Flamengo foi campeão brasileiro em 2009 baseado em uma situação de equilíbrio delicadíssimo, muito difícil mesmo de ser mantida por mais tempo. Muitos fatores improváveis se juntaram para que as coisas dessem certo, sem que realmente tenha havido um planejamento para que elas acontecessem. Vejam o que escrevi antes do início da temporada: “No duro, vejo o desempenho do time este ano como uma incógnita: boa parte de nosso sucesso no Brasileiro passado baseou-se na dupla Adriano-Petkovic, e não sei bem como vão render em 2010 - principalmente o segundo.” E haviam ainda outros fatores de risco que precisavam se somar pra tudo continuar funcionando. Não adiantava querer manter o que estava dando certo – era preciso realmente se preparar para ter alternativas prontas para quando começasse a dar errado, o que era até previsível.

E eis um grande erro, que poucos citam agora como grande erro: o grande reforço do inicio do ano foi Vagner Love. A torcida gostou, sente falta dele até agora, mas era óbvio pra qualquer um que parasse pra pensar um pouquinho que ele sairia no meio do ano. Assim como sabia-se que Adriano também tinha contrato terminando no meio do ano e que não havia o que fazer para que ele permanecesse, se não quisesse – como não quis.

O resultado é que o Flamengo chegou ao meio do ano jogando mal, sem treinador, sem meio-campo e sem ataque – e tudo por fatores que não deveriam surpreender ninguém. Ia dar certo como?


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Ao menos esta vantagem o Flamengo tem pra 2011: ninguém está se enganando, achando que tudo está bem e só manter que vai dar tudo certo. Mas isso não adianta nada se não souberem enxergar onde é preciso trabalhar. E, do jeito que o Flamengo funciona, tudo depende mesmo sempre da cabeça de poucas pessoas, que agem sem muito apoio de métodos e processos definidos ou de uma equipe de trabalho bem montada. Hoje, estas poucas pessoas são Luxemburgo e Veloso. Vai saber se continuarão sendo durante todo o ano.

13 comentários:

Tiago Cordeiro disse...

Eu discordo de algumas comparações. Patrícia Amorim pegou o melhor momento do clube em 17 anos e o estragou miseravelmente. Só vou falar que ela fez igual ao Márcio Braga quando deixar o clube em um momento igual.

Tínhamos o maior patrocínio e tudo fracassou.

Sobre o time: no fim de 2009 era o melhor time do Brasil, arrancando e vencendo vários. Havia realmente a incógnita dessa dupla. Bastava então que preparassem para as opções caso ela não desse certo. Não se prepararam e o resultado foi esse. Não dá pra esquecer também as sucessivas trocas de comando e o desmonte da comissão técnica fixa, tendência nos melhor clubes do Brasil, e a vinda do Toninho que fodeu todo o preparo do elenco.

Enfim, é muita cagada junta. Não discordo da comparação Junior X Zico, mas o que rolou foi pior nos detalhes e atingiu o maior ídolo do clube. Não dá pra dizer que foi igual. E no fim das contas, ela trouxe o Zico apenas como escudo político. Usou.

Tiago Cordeiro disse...

Ah e concordo integralmente com a primeira parte do post.

Arthur Muhlenberg disse...

Boa analise, monera. Meio amarga, mas o sabor do ano foi esse mesmo.

André Monnerat disse...

Tiago, pra mim não há nenhum indicativo de que o Márcio Braga faria muito melhor que a Patrícia nas mesmas condições, olhando tudo o que ele fez nos últimos seis anos. É o que eu acho.

Não acho que o que o MB fez com o Júnior tenha sido menos pior do que ela fez com o Zico também não. Zico é que é mais emblemático do que o Junior, mas as situações que os dois criaram são bem parecidas.

Quanto ao time, eu não discordo de você. Como falei, tinham que ter se preparado. A avaliação foi errada - só o que falei é que boa parte dos analistas e torcedores tinham a mesma avaliação errada da direção do futebol (que, aliás, era a mesma do ano anterior naquele momento de montagem do elenco pra 2010).

André Amaral disse...

O que eu lamento mesmo foi o momento que ela perdeu no começo do ano com o time campeão brasileiro.

Seja para conseguir reforços pro meio de campo, seja para fazer uma mudança política pelo estatuto, tudo parecia ser favorável, tudo parecia mais simples, mas ela não veio com algo preparado, estudado antes de assumir.

Sobre o time, não havia uma estrutura montada, como vc falou, foram vários fatores que no final deram certo, isso em momento algum tira o mérito do time hexacampeão brasileiro, mas não era algo sólido por muito tempo.

Isso em momento algum também tira a responsabilidade da Patrícia, que tinha tudo nas mãos para resolver o que era frágil, o que tinha prazo de validade.

Aquele vácuo no comando do futebol foi surreal, e quando Zico chegou, tinha que resolver todas as pendências e ainda conviver com frutricas, denúncias e a pressão por socorrer um problema que todo mundo sabia que iria estourar.

Como falava ontem com uns colegas, o Fla 5 x 3 Flu parecia o prenúncio de um bom ano pro Flamengo, mas ninguém poderia imaginar que naquele domingo as estruturas começaram a ruir.

Bosco Ferreira disse...

Como sempre uma lucidez incomparavel nas análises.

Essa elegância na hora de fazer as críticas e as comparações entre os diversos momentos do Fla é invejavel.

Faz tempo que não discordo do blogueiro.

Valente Filho disse...

Veja um exemplo de como o Flamengo poderia ser rentável e aberto se tiver a oportunidade (competencia e inteligência) de se capitalizar e expandir sua marca no Brasil. Não seria preciso sair ou conseguir parceiros internacionais, mas seria bom também.

http://www.futebolfinance.com/os-15-patrocinadores-do-manchester-united-em-2010

Um detalhe me chama atenção, a variedade o quadro e auto-explicativo.

Por enquanto apenas sonho.

Régis Marra disse...

Análise muito boa do Monnerat na minha opinião.
A minha maior decepção com a nova diretoria e a presidenta Patricia Amorim foi constatar, a medida que as crises surgiam, que eles não tinham nenhum planejamento para o futebol, mesmo sendo favoritos antes das eleições na Gávea.
Naquele momento tinha a opinião que era acertada a manutenção do Marcos Braz, por isso não posso criticar agora. Mas a sucessão de erros que vem acontecendo de lá para cá é lamentável. A chance desperdiçada com o sim dito pelo Galinho para dirigir o futebol para mim vai ser a marca do fracasso dessa gestão.
Ao contrário do Monerrat acho que dentro de campo podemos até ter alguma esperança nos próximos anos, mas fora de campo e a médio prazo sou bem pessimista.

neuroniosdechuteiras disse...

André, como você sabe, sou admirador da sua eloqüência, semelhante à do Arthur (embora com estilos distintos...) e concordo com sua opinião na maior parte das vezes.
O MB ficou 6 anos, começou mal, mas em 2006 ganhamos a CB, em 2007, 2008 e 2009 ficamos entre os 5 melhores do Brasil, sendo o campeão em 2009, sem contar o tri estadual e as disputas de Libertadores. A comparação MB vs Patrícia tem que considerar essa evolução do Fla em seus resultados. Temos que considerar também a evolução em Patrocínio, em Licenciamento, as Embaixadas (que são uma tímida aproximação com a torcida, perto do seu potencial, mas representam uma significativa etapa), o GEASE... Em termos de evolução, acho que o MB fez muito mais do que a Patrícia, pois esta última tinha um potencial maior do que o primeiro.
O grande problema da atual gestão, realmente foi a falta de planejamento que, para mim, ficou claro logo no primeiro mês, quando a presida foi visitar pela 1a vez nosso CT e se disse indignada com a estrutura do local (não canso de repetir, quão absurdo e amador acho o presidente de um clube se candidatar sem nunca ter ido visitar o local onde o time treina).
Em relação a Junior e Zico concordo, com a ressalva de que o Zico tinha/tem um potencial de mudança significativamente maior (por tudo o que representou). Mas acho, sinceramente, que uma mudança profunda na gestão só será possível se prevista de forma clara no programa de governo do candidato eleito. Do contrário, aqueles que elegeram não necessariamente apoiarão a mudança... é a tal frase: o combinado não sai caro. E no programa da Pati, a ideia de profissionalização nada mais era do que uma ideia... nada mais, nada escrito, nada elaborado, nada planejado.
Outros exemplos de falta de planejamento e estrutura: o Alexander, do dpto de Mkt, pedindo pelo twitter apoio para a campanha "vem Ronaldinho", apenas para ganhar seguidores, ou este próprio, fazendo campanhas pessoais pelo twitter - não me parece postura de um dirigente profissional. Tem também o recente caso das Notas Oficiais como mencionou muito bem no post do Ninho da Nação o André Amaral...
Tinha muito mais para escrever, mas este comentário tá quase do tamanho do teu post... hehe. Termino por aqui desejando um ótimo 2011 para todos nós e lhe dando parabéns pelo blog!
Abraços e SRN,
RMMachado

Eduardo Varanda disse...

Monnerat, excelentes avaliações. Parabéns por não só enxergar os graves erros e falta de planejamento da gestão dessa diretoria, e não podemos focar apenas em PA, pois é inocência acreditar que o problema do flamengo reside apenas na presidência, vai muito além desta e dos nomes que sempre vemos ali, pois existe uma estrutura que permite que tudo isso aconteça.
Parabéns por enxergar também o que tem de positivo, e praticamente não vejo ninguém expor isso. Acho muito lúcida sua posição. E normalmente apenas bater é a posição que vemos nos grupos de oposição no clube, quando se está fora do poder, é só critica, e quando entra, nada faz de diferente. O primeiro caminho para realmente mudar é não só enxergar os erros, mas também ter a capacidade de enxergar o que está certo.
Sobre o time, concordo com sua avaliação. Vejamos o fluminense, que é o atual campeão, e está se reforçando, não tendo perdido nenhum jogador. Como falou, não tinhamos criação no meio-campo (dependendo de uma incógnita chamada petkovic) e um ataque com data de expiração... Chegamos ao cúmulo de, ao perder os dois, com o Bruno Mezenga já negociado, o treinador ter que pedir para este ficar a disposição mais duas partidas por falta de jogadores... Mais algo a declarar?

Tiago Cordeiro disse...

Bom, graças à Patrícia Amorim, pessoas da comissão técnico que estavam há anos no clube saíram para dar lugar à patota do nosso técnico.

O ano não havia acabado ainda. Taí mais um motivo pra ela ser mesmo pior. E na minha opinião foi mesmo. É pra chorar.

Luis disse...

O Clube está um lixo há um tempão. Piorou ainda mais neste ano que passou.

Flávio disse...

Eu não acredito em time fraco, barato. Time barato não recebe patrocínio, não vende camisa, não lota estádio. É a receita do fracasso!
A Patrícia não sabe disso! Mas quem está com ela deveria saber. O Zico se preocupou demais com as finanças e de menos com o futebol. É o oposto do Luxemburgo, que pensa apenas no futebol e deoxa as finanças para os economistas. Talvez por isso o Zico tenha sido um fracasso total. Total. É duro dizer isso, mas é a verdade.
O Santos é o clube a ser copiado. Vejam quantas gerações foram formadas na base do Santos nos últimos 10 anos.
Espero realmente que o Flamengo não perca para o Botafogo. É ridículo perder para esses times do Rio.
A Copa do Brasil é obrigação!