Milhões com nariz de palhaço*

Escrevi em algum texto, no início desta passagem de Zico pelo clube, que o verdadeiro problema do Flamengo está longe de ser ter alguém que saiba escolher jogador e técnico pra contratar. É claro, isso faz parte, é parte importante do trabalho. Mas não é a falta de alguém assim que trava o Flamengo. Parece que muita gente não entendeu bem o que poderia ter significado esta chegada de Zico e é possível que nem vejam tanto dano agora nesta sua saída (a não ser pelo “momento impróprio”). Afinal, Zico como dirigente agora era “um desastre”, certo? Um desastre de apenas quatro meses.

Resultados esporádicos em campo vêm e vão, ainda mais num prazo tão curto. O mesmo Kléber Leite que colocou o Flamengo em duas Libertadores (endividando e muito o clube) também colocou o time à beira do rebaixamento anos antes, como presidente (igualmente, endividando e muito o clube). Marcos Bráz foi campeão brasileiro ano passado e este ano fracassou retumbantemente no Estadual e na primeira fase da Libertadores, em que o time fez campanha horrorosa. Zico, em seus primeiros quatro meses, errou em escolhas técnicas e o desempenho atual do time em campo aponta isso - como outros tantos, no Flamengo e em muito clube por aí, erraram. Mas quem foca apenas nisso realmente não coloca as coisas em sua real perspectiva.

O Flamengo tem um problema enorme não só de caixa, mas também (e talvez até mais) de credibilidade. É difícil atrair gente boa para o clube, tanto pra entrar em campo quanto pra trabalhar fora dele. É preciso muita grana e muito trabalho de convencimento pra fazer alguém que esteja bem no mercado encarar a possibilidade de ficar sem receber num lugar sem estrutura e cheio de pressões injustificadas de todos os lados. São inúmeras as histórias de jogadores e treinadores que recusaram convites do Flamengo por conta disso; também são muitos os casos dos que vieram, mas recebebendo muito mais do que receberiam em qualquer outro clube – e que, nas condições de trabalho que o Flamengo oferece, não deram certo e foram depois se dar bem em outro lugar. Não seria um trabalho de poucos meses que resolveria isso; é preciso investimento em estrutura e um longo período honrando seus compromissos e mantendo a tranqüilidade no trabalho para que a imagem fosse definitivamente revertida.

É isso o que Zico poderia ter representado: com sua credibilidade, com seu prestígio, ele poderia ser a figura capaz de fazer o Flamengo mudar de prioridades, parar de pensar apenas no hoje e plantar o seu amanhã.

É pena que boa parte da torcida não entendeu isso e ajudou a criar o clima que agora deu no que deu.


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Escrevi que parte da torcida não entendeu o que Zico poderia representar. Mas quem tava lá dentro entendeu muito bem. No que Zico assumiu, muitos perceberam: “se isso der certo, a gente não vai ter espaço nunca mais”. E se tantos imaginavam que Zico poderia trazer união em torno do Flamengo, o que se viu foi um efeito contrário: um incrível movimento de boicote, juntando muita, muita gente (não achem que é só Capitão Léo e mais dois ou três não!) de diversos setores da política rubro-negra – e que colocou pra funcionar suas ligações também na imprensa. E ao mesmo tempo em que se batia bem acima do normal nas decisões relativas ao time (afinal, se os resultados fossem bons, qualquer pressão contrária perderia força), abria-se espaço pra todo tipo de acusação sem documentos, sem fundamentos, com argumentações esquisitaças de gente mais esquisitaça ainda, mirando inclusive onde sabiam que atingiriam Zico de jeito: a sua família, que já não queria mesmo que ele procurasse dor de cabeça aceitando voltar. Infelizmente aquela parte da torcida que não tava entendendo bem qual era a da parada embarcou em muita pilha errada e ajudou no trabalho.

Patrícia Amorim errou. Desde o início de seu mandato, ficou claro que ela não tinha um plano definido do que fazer com o futebol do clube. Quando tudo parecia mais incerto, ela tirou um fenomenal coelho da cartola, mas não preparou o terreno em volta de onde ele deveria agir. Zico assumiu, mas sem que os planos para aproveitá-lo da melhor forma tivessem sido feitos. Poderia ter dado certo mesmo assim, mas isso, claro, facilitou o trabalho de quem queria que desse errado.

E, por conta disso, vai ser grande a tentação de jogar toda a culpa na presidenta, que não “o blindou”. Mas ela não errou mais nessa aí do que Márcio Braga já tinha errado antes com Júnior. Braga foi ainda pior e chegou a permitir uma situação em que um vice-presidente amador anunciou uma contratação de centro-avante contra a vontade do diretor contratado. E depois da queda de Júnior, nunca mais – até Zico – foi tentado novamente qualquer tipo de “profissionalização” do futebol rubro-negro, algo que também era bandeira de Márcio Braga quando assumiu a presidência.

Enfim: Patrícia errou, não criou as melhores condições para que as coisas funcionassem da melhor forma – mas tentou, como Braga tentou antes, e teve seu mérito nisso. Não é a maior vilã nesta história. Ela que se prepare: quem mirou em Zico quer mesmo é acertar nela.

Sei não.


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Zico sai num momento complicado. Gostaria que ficasse, que se segurasse mais, que não abandonasse o time no meio da competição. Teria sido melhor para o Flamengo.

Mas se eu, que estou de fora, já sentia o que estava se armando por lá, imagine ele, que estava no olho do furacão? É muito fácil pra quem está seguindo confortavelmente sua vida julgar agora o quanto ele deveria suportar. Entrar nessa é seguir o mesmo discurso cínico de quem agora deve estar abrindo uma cidra Cereser pra comemorar.

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Será mesmo que eu deveria me importar tanto com este tipo de coisa?

Somos gente demais bancando os palhaços, enquanto gente lá dentro escrotiza de maneira mesquinha algo que é um símbolo nacional, uma paixão e até razão de viver de milhões, na maior cara de pau. E o que se pode fazer?

É de chorar.

* Texto da coluna semanal no FlamengoNet

13 comentários:

Murdock disse...

Bobear o time está mal até pra ajudar a complicar tudo. Imagina o que seria o Flamengo sendo rebaixado com o Zico.

Perdemos uma chance de mudança e acho difícil que haja outra.

Marcos Monnerat disse...

Sinceramente, não duvido que tenha jogador fazendo corpo mole por orientação de empresários não. E tenho a dizer que meu desânimo é muito grande e assim como o Zico declarou, meu amor pelo Flamengo está reduzindo drasticamente por conta dessa corja de filhos da puta que mama na teta do clube e não respeita nem o principal personagem da história dele...

Sidnei Costa disse...

Tomara que seja reibaxado mesmo, o Flamengo, time de bandido. O Zico é um baita mal carater isso sim, e de preferência nós do sul esperamos que ele não coloque os pés mais aqui, arrogante e antipático, deixou o Andrade de lado, palhaço, isso sr. Antunês´, lembro de quando era pequeno e fui pedir um altográfo para o sr que me tratou como lixo. Flamenguista nunca mais. Colorado Gaúcho sim

TriTon disse...

Sinceramente, é um dia muito triste. Ate o clima nublado do rio de janeiro ajuda ainda mais o clima.
Não me incomodo mais para as gozações do pessoal dos outros clubes, mas o que aconteceu hoje foi muito ruim para a historia do FLAMENGO.
Espero que a torcida se manifeste de uma forma CIVILIZADA e consiga TIRAR DO FLAMENGO TODOS OS FILHOS DA PUTA, que estão lá rindo de toda esta situação.
Moro em Bangu e estou no meu trabalho, mas a minha vontade é de LARGAR TUDO, e ir para a gavea para botar pressão nestes PALHAÇOS.
E não basta só este capitao leo deixar o cargo. Agora é hora de conseguirmos tirar TODOS OS MERCENARIOS de la, e fazer uma nova diretoria.

POR FAVOR, NAO DEIXEM O FLAMENGO ACABAR ASSIM.

SE MANIFESTEM e MOSTREM SEU DESCONTENTAMENTO.

é isso.

Alan disse...

Luto.

Señor Mullet disse...

Eu não tenho palavras. Desde ontem de madrugada, quando li a notícia sobre sua saída, estou em estado de choque. Zico era o último fio de esperança de um clube a muito tempo falido e a mercê de bandidos (infelizmente, ter ficha na polícia parece ser requisito para ser dirigente rubro-negro).

Mas o que mais me deixa espantado são as notícias que leio nos jornais e na internet. Filhos da puta, capitães, chefes de torcida, chefes de quadrilha, no Flamengo de hoje qualquer um vira dirigente, qualquer um dá declaração. Qualquer um manda e desmanda no clube e ainda leva um por fora (na verdade, está mais para milhões por fora).

Frase dita por um chefe de torcida hoje na Gávea: "Zico voltou para o museu. O laranja saiu."

Respeito pela instituição, pela camisa, pelos seus ídolos? Que se fodam todos, que se foda o Flamengo. Esses abutres querem mais é comer toda a carne e roer até o osso, antes que não haja mais Flamengo.

Palavras do Zico: "Morreu no meu coração esse Flamengo de hoje que está representado por essas pessoas, algumas delas que sequer conheço e atuam dentro do clube como se fossem os donos."

Pois esse Flamengo morre hoje pra mim também. Esse Flamengo do Capitão Léo e seus comparsas não é o meu Flamengo. O capitão do meu time é Zico, Júnior, Dida, Leônidas, Zizinho, Rondinelli e tantos outros grandes que já passaram pelo clube. Guardarei na minha memória o outro Flamengo, aquele de tantas glórias, títulos e jogadores inesquecíveis. Torço para que um dia os abutres morram de indigestão e abandonem a Gávea. Mas o futuro hoje parece sombrio.

Flávio disse...

Parabéns André, texto excelente.

Se as palavras do MB são verdadeiras, de que o Capitão Leo trabalha no gabinete da Patrícia Amorim, então ela deve sair já.

Não posso acreditar nisso. Não pode ser verdade que a presidenta do Flamengo sacaneou a única coisa certa que ela fez nesses meses.

The Dog disse...

Estou em recesso indeterminado como torcedor do Flamengo, estou completgamente revoltado e enojado.... É um sentimento de desilução enorme ver o clube sucumbir a esses canalhas.

TriTon disse...

Acabou a entrevista dela, como se não houvesse nada para falar...
O que ela disse, eu sinceramente ja sabia... E me da uma impressao de impotencia perante a toda esta confusão.
Porque ela simplesmente nao abriu o verbo e meteu o malho em todos os carniceiros ? Porque ela fala que segue o estatuto e deixa isso assim ?
To muito puto mesmo...Sera que nao seria hora para um movimento REALMETE SERIO ?
FLAMENGUISTAS DE CORACAO, VAMOS FAZER ALGO, PELO AMOR DE DEUS.

Ricardo disse...

Prezado André, ontem o dia foi difícil pra todos nós que amamos nosso time e só consegui dar uma acalmada depois de ler seu post. Me espantou sua lucidez. Parabéns pelo trabalho, muito bom mesmo. E por quanto tempo teremos que ver nosso time sob as rédeas desse tipo de gente? Uma manifestação da torcida, bem maior do que a que aconteceu ontem não dá uma mexido nisso não? Com Zico, pelo Flamengo. Sempre.

Alan disse...

OK, um pouco mais calmo. Ainda triste pra caralho, mas um pouco mais calmo.
Infelizmente, temos que aceitar os fatos. Apesar do que pensamos, a torcida não manda nada no Flamengo. Só as porras das organizadas que têm alguma voz lá dentro (descontada a UBZ). Só vejo duas maneiras da torcida fazer algo realmente significativo nessas questões, ambas muito difíceis. São elas:
1 - A já tentada campanha de associação em massa. Deixarmos de ser torcedores, e nos tornamos efetivamente sócios. Assim, dentro de alguns anos, teríamos voz. Difícil arranjar gente suficiente, que pense parecido, pra mudar esse quadro.
2 - Uma campanha massiva de boicote a todo e qualquer patrocinador do clube, enquanto essa zona não acabar. Se conseguíssemos mobilizar a torcida pra fazer doer no bolso de quem paga as contas, duvido que não se mexessem rapidinho pra resolver essa merda. Mas, fazer uma mobilização desse tamanho é algo muuuito difícil, pra não dizer impossível. Eu sei que o clube passaria por sérios problemas durante algum período, mas seria o necessário pra resolver a longo prazo. Difícil é ver o torcedor médio do Flamengo pensar a longo prazo.
Alguém tem uma terceira ideia, ou uma maneira de viabilizar uma dessas duas?

Freire disse...

É impressionante como quase ninguém na imprensa esportiva consegue acertar o alvo como você. E olha que os caras ganham (alguns bastante) pra isso. Ótimo texto! Abraço.

Marcelo Constantino disse...

Quando eu li o Renato Maurício Prado -- principal porta-voz da turma anti-Zico na imprensa -- dando corda para essas recentes "denúcias" sobre a relação do Flamengo com o CFZ, vi que a carga contra o Galo era muito mais pesada que o imaginado mesmo.

Dias depois vejo o tal capitão leo se regojizando de ter provocado a saída do Zico. Ou seja, a turma contrariada pelo saneamento do Zico perdeu qualquer vergonha na cara mesmo.

Não havia dúvidas -- qq um previa isso -- de que o Galo mexeria num vespeiro sinistro que, por "alimentar" tanta gente, poderia inclusive resultar em ameaças à própria vida dele (se é que não resultou). Mas pelo visto a carga foi bem pior que o esperado.

Esse foi talvez o dia mais triste da história do Flamengo pra mim desde o dia em que li na capa do jornal que o Zico havia sido vendido.

Minha esperança final é que a saída dele tenha ao menos aberto uma porta na cabeça de cada rubro negro sobre o poder (e a desfaçatez) da rataria que reside no Flamengo, inclusive seus tentáculos na torcidas organizadas e na imprensa.