O Flamengo é obrigado a ter um campo de futebol na Gávea. Pra quê?

Recebi hoje um spam do deputado federal Otávio Leite, que tenta sua reeleição. Não sei onde ele conseguiu meu e-mail, mas enviou uma mensagem endereçada “à Nação Rubro-Negra”, se colocando como “representante do Flamengo no Congresso Nacional”. E listou três de suas iniciativas que, segundo ele, foram benéficas para o clube.

Duas são especificamente voltadas para o esporte olímpico: uma emenda à Lei Pelé que destina parte das receitas de loterias para os clubes formadores de atletas, como o Flamengo; e a proposta de que os equipamentos adquiridos para as Olimpíadas sejam depois disponibilizados para estes mesmos clubes formadores. Ok, bacana.

Mas a iniciativa “benéfica” que mais me chamou a atenção foi outra: “A Lei Municipal 3.370/02, de minha autoria, preserva todos os campos de futebol oficiais na Cidade do Rio. A idéia é proteger os poucos campos existentes, celeiros de muitos craques cariocas, da especulação imobiliária. São mais de 40 campos protegidos e o do Flamengo é um deles!”

Isso quer dizer o seguinte: ao mesmo tempo em que criam obstáculos intransponíveis para o Flamengo construir um estádio na Gávea, por motivos diversos, também há uma lei proibindo que o clube decida dar outra função ao terreno! É algo que eu não sabia e que, sinceramente, me parece longe de ser benéfico ao clube.


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Como se sabe, o Flamengo x Santos de ontem foi o último jogo do Flamengo no Maracanã não apenas neste Brasileiro, mas até a metade de 2013.

Acho incrível que tantos falem de incompetência da diretoria por diversos motivos, alguns razoáveis e outros absurdos, e raros sejam os que citam o fato do Flamengo ainda não saber onde vai jogar daqui pra frente. O estádio onde mandará seus jogos é algo primordial para o modelo de negócio de qualquer clube de futebol. Já se sabia há muito, muito tempo que o Maracanã seria fechado. Encontrar uma alternativa é algo que deveria ter começado a ser feito ainda no ano passado; como não foi feito, uma das principais missões desta diretoria, ao assumir, era encontrar um campo para o Flamengo jogar enquanto o Maracanã estiver fechado – e no Rio de Janeiro, que é a cidade do Flamengo, é onde os jogadores moram, é onde o clube tem sua estrutura de treinos. Infelizmente, não foi feito até agora.

Vou falar aqui algo que sei que muitos, talvez a maioria, não vão concordar. Mas eu pensaria seriamente na viabilidade da própria Gávea como casa do Flamengo neste período. Não daria mais tempo para este ano, claro. Mas se estão pensando em mandar os jogos do Flamengo num estádio para 20 mil pessoas em Volta Redonda, não me parece nada absurdo levantar estrutura por lá com a mesma capacidade que pudesse ser usada nos próximos anos. Não deve ser difícil conseguir parceiros dispostos a participar da casa do Flamengo por um período tão longo; são muitas as oportunidades de negócios e, em um espaço próprio, o clube poderia faturar com camarotes, ações de parceiros e patrocinadores, lojas, alimentação, naming rights, vantagens para os sócios que pudessem estimular um aumento de adesões, enfim - formas diversas de compensar a perda de arrecadação por não ter mais um estádio de grande capacidade à disposição.

Projeto recente para estádio na Gávea, defendido por Márcio Braga
É claro que a associação de moradores do Leblon sempre será um obstáculo. Mas o Flamengo já teve por lá jogos com um público nesta ordem de grandeza, durante o primeiro mandato de Kléber Leite como presidente. O grande entrave legal para os projetos mais recentes de estádio é o lado shopping do empreendimento – algo que é vetado no termo de cessão do terreno para o Flamengo, exclusivo para atividades sócio-desportivas. Se trabalhassem agora, ainda mais em época de eleição, para se aprovar um projeto mais restrito a uma arena esportiva, em dimensões aceitáveis, num momento de necessidade como este, creio que seria possível conseguir a aprovação - e até mesmo a tal lei do deputado Otávio Leite, que obriga o Flamengo a manter um campo que hoje não é suficiente nem mesmo para treinamento, poderia servir de argumento. Em último caso, poderia-se inclusive deixar claro que se trataria de uma estrutura temporária.

Entendo quem não concorde. Mas alguma solução – de novo: no Rio de Janeiro – tem que ser encontrada logo. Espero que estejam trabalhando e muito para isso.


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Sempre surge a ideia de aproveitar a imensa torcida espalhada por todo o país para faturar com jogos em outras cidades. Acabei de dizer que o Flamengo tem que encontrar sua casa para os próximos anos em sua própria cidade; mas mesmo com o Maracanã aberto eu separaria duas ou três datas por ano (não mais do que isso) para estes jogos em outras praças, inclusive usando os jogos para ações na cidade com os parceiros do clube e criando campanhas ligando a partida à adesão de novos Cidadãos Rubro-Negros. Afinal, ser um clube nacional é o grande diferencial do Flamengo e isso precisa ser bem utilizado. Sem o Maracanã e com a necessidade de compensar a perda de receita, isso parece ainda mais oportuno.

Mas, como lembrou Zico na ótima entrevista que deu ontem à Rádio Globo, isso precisa ser muito bem pensado no lado técnico, não obrigando o time a longas viagens desnecessárias que possam atrapalhar o desempenho em campo. Mas isso pode ser feito com inteligência, aproveitando a tabela. Eis as minhas sugestões de como atuar em duas cidades com grande torcida rubro-negra, ganhando dinheiro sem prejuízo para o time em campo:

- Em 28 de setembro, uma terça-feira, o Flamengo joga fora de casa contra o Goiás. O jogo anterior (sábado, contra o Palmeiras) poderia ser transferido para Brasília – talvez no moderno Bezerrão. O time iria de Brasília direto para Goiânia, uma viagem curta, onde treinaria e se concentraria até a partida.

- Quarta, dia 3 de novembro, o Flamengo joga em Fortaleza contra o Ceará. O jogo do domingo seguinte, contra o Atlético-PR, poderia ser na mesma cidade, em Natal ou outra praça no Nordeste que se interessasse pela partida e dispusesse de um estádio em boas condições.

9 comentários:

Max Amaral. disse...

Monnerat,
o Areias voltou ao Rio de Janeiro para, de acordo com o twitter dele, tocar o projeto do novo Estádio Luso Brasileiro (twites de 20 de julho e 20 de agosto).
'cê não conseguiria alguma informação sobre isso, não? Acho que, se tem alguém tentando viabilizar o Estádio da Portuguesa na Ilha, está mirando o Flamengo, não?

André Monnerat disse...

Max, a Arena da Ilha seria uma opção sim.

Eu já falei com o Areias sobre isso. Não saiu muita coisa, porque ele disse que o projeto ainda está bem no iníco. Mas olha o link: http://www.sobreflamengo.com.br/2010/08/o-ultimo-classico-do-flamengo-no.html

Segundo ele, parece que pensavam mais no Fluminense mesmo. Mas ele dizia que o Flamengo iria pro Engenhão, o que ainda não se concretizou...

André disse...

São válidas as suas colocações e é evidente que este problema da falta de estádio já deveria estar solucionado há meses.

Minha opinião é que o Flamengo deveria mandar os seus jogos no Engenhão que fica no Rio de Janeiro e possui boa capacidade para a torcida.

Mandar os jogos fora do RJ como você propôs não acho uma boa porque o time perde o referencial. Tenho trauma das vezes que fizemos isto.

A verdade é que o Flamengo parece meio sem rumo no Campeonato Brasileiro. O time está perdido, nenhuma solução dá certo e não temos nem campo para jogar.

André Monnerat disse...

Eu propus jogar dois jogos fora, e só.

Sou contra jogar regularmente fora do Rio. Volta Redonda já é longe demais, inclusive.

Bosco Ferreira disse...

Esses campos protegidos são os campos públicos. Acho inconstitucional se engessar bem alheio, privado que não tenha uma conotação de preservação histórica e cultural.

A Gávea não será utilizada por jovens da comunidade, e sim pelos jogadores do clube.

Eu é que tenho de saber o que fazer com meus imoveis.

Os bens Estado, Município, e da União é que devem servir ao bem comum. Há uma diferença.

Quer dizer que se um clube recreativo construir um campo de futebol estará fadado a perder o dominio e a função privada do terreno?

Essa lei só vai inibir a construção de novos campos.

Warley Morbeck disse...

Esse é o "ótimo" nível dos nossos políticos, que criam leis sem se preocupar muito com suas consequencias

Warley Morbeck
http://flamengoeternamente.blogspot.com/
http://twitter.com/flaeternamente

Bosco Ferreira disse...

Monnerat tire-me aqui uma dúvida com esse deputado amigo do Flamengo: se uma universidade construir campos de futebol dentro do campus universitário e depois resolver acabar com um dos campos para construir laboratórios, salas de aulas ou uma livraria universitária no local, ela está impossibilitada por essa lei absurda?

Outro caso muito comum: Já pensou numa lei que obrigue um prédio de uma escola a não deixar de ser escola, mesmo que a regiã deixasse de ser residencial e por isso o número de matriculas escolares caissem a zero, tornando sem sentido uma escola na região.

Como se resolveria isso?

Roberto disse...

Li a lei. A lei tem o objetivo de preservar somente os campos 11 x 11 listados nela. E não qualquer campo que se construa, como o Bosco pensou. E não há impedimento que se construa um shopping no terreno do Flamengo... basta que faça o mesmo que o botafogo, preservando o campo, mesmo sobre o shopping.

André Monnerat disse...

Roberto, o impedimento para um shopping no terreno do Flamengo não é nem essa lei - e sim o termo de cessão do terreno.

O Estado cedeu o terreno para o Flamengo para uso sócio-desportivo. Não pode mudar este uso. E é isso que a Associação de Moradores sempre usou para evitar os projetos deste tipo que o Flamengo fez até hoje.