A Copa mostrou: o futebol brasileiro tem que repensar seu jeito de ver o meio-campo

Nesta Copa, vi pela primeira vez as duas equipes comentadas como as de futebol mais bonito antes do torneio começar fazerem a final. E, mesmo assim, foi um jogo feio - muitos passes errados, algumas jogadas de lamentável falta de técnica, excesso de faltas. E não só aquelas faltinhas pra parar o jogo, mas algumas realmente violentas. Ainda bem que, no meio disso, venceu quem tentou mais jogar.

A Holanda é menos time que a Espanha, e assumiu isso na maneira de jogar. Se colocou mais recuada, preocupada em marcar e tentar vencer apenas em contra-ataques. Na primeira parte do plano, não foi bem; a Espanha, mesmo errando muitos passes e demorando demais a definir seus lances - como fez em toda a Copa - criou diversas chances de gol e os holandeses, com volantes e zagueiros lentos que chegavam sempre atrasados nas trocas de passes de primeira dos adversários, teve que apelar para a violência ao longo de todo o jogo. Mas poderiam ter definido o jogo num contra-ataque, se Robben estivesse num dia mais feliz.

Não teria sido justo. A Espanha tem jogadores melhores - inclusive no banco; as tentativas holandesas de melhorar seu ataque, com Elia e Van der Vaart, deram muito errado, enquando Navas e Fabregas entraram muito bem no jogo. E foram os espanhóis que entraram realmente decididos a vencer, inclusive na prorrogação (embora o técnico holandês tenha feito sua maior ousadia na Copa justamente naquele momento, ao trocar um volante por um meia atacante enquanto o jogo ainda estava empatado). Sem contar que o árbitro poderia ter dado um pênalti para a Espanha e foi muito  benevolente nos cartões com os holandeses - e não só por violência, pois deu uma amarelada feia na hora de expulsar Robben, que já tinha cartão amarelo e chutou uma bola pro gol de maneira infantil, com o jogo parado.


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O futebol brasileiro pode tirar desta Copa algumas lições, em especial na maneira de enxergar o meio-campo num time de futebol.

Por aqui, treinadores gostam de empilhar volantes sempre que pensam em montar uma equipe que tome menos gols. Adiantam o máximo possível seus jogadores mais habilidosos, para "deixá-los mais perto de onde podem decidir o jogo", e deixam no meio sempre gente de "mais pegada". Qualquer volante que saiba matar uma bola e passar um pouquinho melhor é transformado em "armador" - como já foi feito com Íbson, Kléberson, Ramires, Elano, Hernanes; qualquer armador mais ofensivo que comece a se destacar, logo é adiantado para o ataque - casos de Renato Augusto no Flamengo, Carlos Alberto no Vasco e diversos outros por aí.

Pois nesta Copa, a Espanha foi campeã com a melhor defesa, sem levar um único gol em toda a fase de mata-mata, sem ter um volante "brucutu" sequer. Seu método para ser pouco ameaçada atrás é compactar os jogadores, diminuir os espaços para o adversário e saber trocar passes, para ficar com a bola o máximo de tempo possível. A Alemanha tinha uma estratégia diferente, mas mesmo marcando mais atrás e esperando o adversário conseguiu ser eficiente só com volantes habilidosos - como o grande Schweinsteiger, que é atacante de origem.

Mas não são só os volantes que sabem jogar que fazem diferença no meio. Diego Forlán mostrou a diferença que faz num time passar a ter uma cabeça pensante no setor, e que chame para si a responsabilidade do jogo; Snejder e Özil foram outros que se destacaram e decidiram jogos seguidos. E hoje, no Brasil, não formamos mais meias ofensivos, camisas 10. Olhando os times que disputam o Brasileiro, boa parte arma esquemas que simplesmente dispensam a presença de alguém na função - não é nem questão dos meias serem ruins, eles simplesmente não existem. Infelizmente, já está se tornando uma questão cultural por aqui; na Argentina, por exemplo, todo time tem o seu enganche, como eles chamam o meia de ligação (não por acaso, os dois times chilenos que enfrentaram o Flamengo na Libertadores tinham argentinos fazendo esta função). Eles não visualizam seus times sem alguém assim, algo a que nós tristemente estamos nos acostumando.

E é por isso que o surgimento de Paulo Henrique Ganso chamou tanta atenção.


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Fiquei surpreso, e satisfeito, com a escolha de Diego Forlán pela Fifa como melhor jogador da Copa. Ontem já havia twittado, durante o Uruguai x Alemanha, que ele seria meu escolhido, mas acreditava que acabariam dando o prêmio para um dos finalistas.

Esperaram a final para anunciar estas escolhas, e assim não repetir uma injustiça como aquela de 2002. Eu mesmo pensei em publicar aqui minha seleção da Copa antes do jogo de hoje, mas resolvi aguardar um pouquinho. No final, o jogo serviu pra mudar pouca coisa na minha escalação - como a troca de Robben por Iniesta no time, escalado no 4-2-3-1 que está tão na moda: Cassillas, Lahm, Lúcio, Lugano e Van Bronckhorst; Schweinsteiger, Xavi, Iniesta, Forlán e Müller; Villa. Gostaria de ter arrumado um lugar no time para Snejder, Özil, Klose, Suárez, Kléberson e Fierro, mas infelizmente não deu.

10 comentários:

Patrick disse...

Texto perfeito... e Kleberson e Fierro na seleção da Copa foi sensacional! kkkkkkkti

agnelli.aldeota disse...

muito bom o texto.. mas será andré que, com pet,correa e renato abreu,nosso meio campo passa a ter menos brucutus e mais habilidade sem abrir mão da marcação?

Murdock disse...

A Espanha precisava mesmo não levar gols, afinal, ela quase não os fez!
Talvez daqui a uns anos lembrem que essa foi a Copa do campeão de apenas oito gols.

Mas admito que entre ela e Holanda, ainda preferi o título espanhol.

Marcos André Lessa disse...

Concordo plenamente com o lance dos volantes. Falei sobre isso no meu blog tb: http://futebolracional.blogspot.com/2010/07/erpanha.html

Bosco Ferreira disse...

A quantidade minguada de gols na copa do mundo mostra que não são os volantes brucutús que evitam levar gols.

Os volantes técnicos evitam muito mais.

Fabricio C. Boppré disse...

Perfeita a análise dos volantes. Isso me incomoda faz tempo já. E um momento emblemático disso se deu na Copa de 94: começamos com dois meias típicos, Raí e Zinho, e terminamos com o Mazinho no lugar do Raí. O Mazinho era sensacional, mas estava decretada, creio, a era dos três volantes. Ou quatro: nunca me esquecerei da monstruosidade cometida pelo nosso técnico Rogério naquele jogo no Maracanã, da Libertadores desse ano, quando entramos com Rômulo, Willians, Kléberson e Maldonado (ou Toró?). Um pouco do Flamengo morreu naquele dia.

André disse...

Só pela voadora do zagueiro Holandês no peito do Xabi Alonso a Holanda já merecia perder o jogo.

Fora isso bateu o jogo inteiro como fez contra o Brasil.

Pelo bem do futebol ganhou quem quis jogar bola. Peguei raiva da Holanda que chegou na final fazendo uso de um jogo violento e sujo.

Max Amaral. disse...

o Flamengo podia contratar o Xavi, né não?
Caberia muito bem nesse (e em qualquer outro) time...

Bosco Ferreira disse...

Mas como convencer nossos técnicos? Todos adoram os brucutús? Começam logo com os garotos na base.

Marcelo Constantino disse...

Perfeita a radiografia da mentalidade dos técnicos brasileiros.

Muita gente esculhamba o Dunga pelos 3 volantes na seleção. Falta apontar quem no Brasil não joga com essa praga. O Cuca chegou a meter 5 volantes no Flamengo, colocava até na zaga.

O Parreira jogou praticamente só com 1 volante de origem na Copa passada e sifu (por outros motivos, ok). E uma trupe de comentaristas criticava justamente isso, a falta de marcadores.

O agora endeusado Felipão metia 3 zagueiros e 2 volantes em 2002, o que dá no mesmo.

Mas o que me dói mesmo é ler gente (e gente boa, não tô falando dos rmps da vida) falando da Espanha como se fosse um espetáculo. Fim da picada (ou excesso de carência?) tendo em vista os 1-0 sofridos que a levaram ao título.