O que significa uma referência como Zico no Flamengo

Talvez eu seja da última geração de rubro-negros que teve Zico como ídolo em atividade, tendo tido a chance de tê-lo no dia-a-dia do clube, jogando. Meu primeiro jogo no Maracanã foi justamente seu retorno oficial da Itália - uma vitória de 3x0 sobre o Bahia. Ao vivo, o acompanhei mais lutando com as contusões; não era mais o Zico do auge, do início dos anos 80. Mas pude sentir o gostinho do que era ter Zico como referencial do meu clube.

Pude sentir a influência dele não só sobre a torcida, mas também sobre os demais jogadores, tanto dentro de campo quanto fora dele. Zico era uma referência técnica e uma referência moral. Todo mundo sabe: além de jogar pra cacete, fazer os outros jogarem melhor e ganhar tudo em campo, ele não tinha privilégios, ele ficava treinando faltas até escurecer depois dos treinos, ele se dava bem até com os adversários, ele era um líder verdadeiro para os companheiros. Era um privilégio tê-lo como ídolo presente - vê-lo em campo, depois ouvi-lo nas entrevistas, acompanhar suas atitudes. Ele era um modelo, e com ele ali, o Flamengo era sempre invejado. Bicho, era muito bom ter o Zico no Flamengo!



Em 1992, o clube já não era o mesmo, a talentosa geração que vinha subindo dos juniores não tinha o mesmo comportamento exemplar dos ídolos dos anos 80 e já se convivia com notícias de dívidas e salários atrasados. Mas quem acompanhava o Flamengo naquela época ainda teve o gosto de ter por mais um tempo uma referência da qual se orgulhar pra valer: Júnior, que liderou o time do penta brasileiro. Porem, daí pra frente, a situação não mais se repetiria.

Os rubro-negros que começaram a acompanhar futebol depois de 1992 não tiveram a sorte que eu tive. Eu cresci com meu time sendo conhecido não só pela raça, mas por seu vistoso toque de bola - e o Flamengo, dali pra frente, começou a colocar em campo gente muito limitada. Eu era acostumado com o "se deixar chegar, fudeu" que garantia vitórias em decisões, mas comecei a ver seguidos adversários comemorando no Maracanã, na maior cara-de-pau, como se fosse a coisa mais normal do mundo. E eu pude viver sem me preocupar com notícias extra-campo de Zico, Júnior, Andrade, Mozer, Zinho, Leonardo - mas tive que tentar me acostumar com uma rotina bem diferente. Não vou nem citar os nomes dos "ídolos" que vieram depois e que foram responsáveis - menos que os dirigentes que permitiram isso - por esta situação. Vocês podem pensar numa listinha porreta sem a minha ajuda.

O maior problema é que tivemos aí mais de uma geração de rubro-negros crescendo sem aqueles bons referenciais anteriores - só com estes desagradáveis que vieram depois. Os bons resultados em campo foram rareando e qualquer um capaz de empurrar uma bola pro gol ou dar um drible um pouco mais vistoso começou a ser perdoado por qualquer coisa. E não é assim que tem que ser.

Volta e meia especulam sobre a volta de determinados jogadores que fizeram o diabo com o clube e a torcida - e, vendo gente por aí torcendo para que voltem mesmo, tenho vontade de chorar. Mas me preocupar com essas figuras que poderiam voltar a assombrar a Gávea sempre ficou em segundo plano, pois tinha gente já dentro do Flamengo fazendo o mesmo, e até pior. E a diretoria passando a mão na cabeça, e a torcida relevando. Afinal, "não quero jogador pra casar com a minha filha", certo? Pode até ser, mas é preciso ter limites.


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Evitei ao máximo falar até agora do caso Bruno. Já chuto o bastante neste blog sobre futebol, não vou fazer o mesmo sobre investigação policial. Vou me limitar ao seguinte: em condições normais, seria bem mais fácil dizer que "o Flamengo não tem nada a ver com isso". Afinal, não se espera que um clube coloque entre suas normas disciplinares algo como "não se envolver em tramas sórdidas de assassinato e ocultamento de cadáver". Porém, olhando todo o histórico do clube, e em especial de quem está envolvido, não tem como não respingar, gostemos ou não. Na verdade, este caso faz realmente mal à imagem do clube por trazer de volta a lembrança de inúmeros outros anteriores.

Porque fato é que, se ninguém imaginava algo assim acontecendo (e não imaginava mesmo), Bruno deu  inúmeras razões à diretoria para que procurasse tirá-lo antes de dentro do clube, independente de como se encerrarem as investigações e o julgamento deste caso. Foram faltas leves, faltas graves, faltas de todo o jeito. Ele próprio diz, por exemplo, que conheceu Eliza Samúdio numa orgia com outros jogadores do clube - e eu não tenho nada a ver com os hábitos sexuais dele ou de quem quer que seja, com toda sinceridade. Mas uma destas orgias, antes disso tudo, aconteceu num momento em que os atletas deveriam estar concentrados, mas mentiram à comissão técnica - e acabou dando em caso de polícia, com processos que correm até hoje na Justiça. O que o clube fez depois daquele episódio? Atitude mais séria nenhuma foi tomada e até uns dias atrás ainda tinha quem quisesse de volta um dos que se envolveram da pior maneira possível naquela história.

Obviamente, não é só Bruno; e a cada história mais pesada que surgia de alguém, todas as anteriores iam ficando piores, pois tornavam-se parte de um enorme cenário de desrespeito generalizado a tudo - clube, torcida, cidadãos, tudo. Acontece inclusive de alguns atletas que só cometeram falhas menores, até comuns em outros lugares, ficarem marcados como verdadeiros marginais por osmose. E o pior é que as pessoas vão se acostumando que é isso aí mesmo, "Flamengo é assim", "futebol é assim", "o mundo é assim".

Eu sou Flamengo pelo futebol, claro. Quero ver o time ganhar dentro de campo. Quero ser campeão, sempre, de tudo. Quanto mais o time vencer, melhor. Não quero ver gente dando canelada em campo, não quero ver adversários medíocres olhando o Flamengo de cima, nada disso. Torcedor nenhum quer.

Mas quem está lá dentro precisa entender que o Flamengo, assim como todo grande clube brasileiro, não é só um time de futebol. É uma instituição acompanhada por milhões, que desperta um sentimento de ligação sem igual neste país. A influência do Flamengo no modo de seus torcedores - e dos outros também - enxergarem o mundo é imensa. O brasileiro gosta de falar de sua ligação com o futebol, o rubro-negro enche a boca pra exaltar a grandeza de seu clube, o seu tamanho, a sua importância, mas muitas vezes ninguém parece se dar conta do real tamanho da coisa.

Ninguém é perfeito. O Flamengo é feito por pessoas, e pessoas erram. Mas quem está lá tem que entender que precisa ser exemplo. E não falo só das atitudes dos jogadores, que estamos cansados de debater por aí. Na minha visão do que deve ser o Flamengo e do que deve ser o mundo, não dá pra achar razoável que o Flamengo troque voto numa eleição por uma decisão legal favorável, por exemplo, ou que haja torcedores revoltados por isso não ser feito. Não é razoável que o clube simplesmente decida não pagar seus impostos, confiando que em algum momento os governantes darão um jeitinho, e haver torcedor querendo que o jeitinho realmente seja dado. Não é razoável assumir compromissos que sabe que não vai cumprir, e haver torcedores revoltados se alguém relutar em agir assim. Enfim: tem muita coisa que não é razoável. Não só no Flamengo, claro - mas aqui estou falando do Flamengo.


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A verdade é que o Flamengo deu muita sorte de Zico ter chegado agora, quando parece claro pra todo mundo que é preciso uma grande reviravolta. Imaginem vocês que, neste momento, com o que andamos lendo na imprensa, o atual diretor de futebol fosse um dos nomes que andaram pelo clube nos últimos 10, 15 anos. Quem colocaria fé que as coisas iriam mudar agora? Que jogador ou treinador estaria disposto a vir para o Flamengo neste momento? Que empresa ou investidor estaria pensando em colocar dinheiro lá, em associar sua imagem à do clube?

Se antes Zico já era tratado como Messias, agora o seu papel se aproxima disso mesmo. Se há gente boa por aí disposta a passar por cima disso tudo e vir para o Flamengo, é porque realmente acredita que o cara é capaz de transformar água em vinho. Como escrevi quando ele foi contratado: pode ser que existam por aí administradores muito melhores que o Zico para um clube de futebol, mas o significado de seu retorno, neste momento, está acima de tudo.

Não sei bem o que acharemos desta passagem de Zico pelo Flamengo no futuro. Não sei o quanto ele vai conseguir realmente dar um jeito "em tudo isso o que aí está"; decepções existem, e Zico - às vezes pode não parecer - é humano. Mas, na pior das hipóteses, ele pelo menos vai ter dado a chance a toda uma nova geração de rubro-negros tê-lo novamente em seu dia-a-dia, representando seu clube. Não é pouco.


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Acreditem: há tempos que estou pra escrever este texto, e já estava nas últimas linhas quando comecei a ver pipocando no Twitter comentários sobre a entrevista de hoje de Zico, exatamente sobre este assunto. Impressionante.

10 comentários:

Tiago Cordeiro disse...

Concordo. Sobre o caso Bruno é bom lembrar: fomos tema de reportagem policiais nos últimos três anos. Dizer que o clube deu azar é apagar a responsabilidade dos dirigentes.

Se quem estava de fora podia ver que cedo ou tarde ia dar merda, quem estaa lá dentro já devia ter visto sinais ainda mais claros disso.

Folha disse...

Teria até alguns comentários a acrescentar para ilustrar o que diz o post, mas tudo que está nele está perfeito!

Paulo Sales disse...

Um grande texto, André.
Racional e emotivo na medida certa. Quem dera a maioria dos cronistas esportivos escrevesse com tanta clareza.
Abs

Luiz Loureiro disse...

Andre, sou um novo leitor do seu EXCELENTE blog.

Flamenguista como os demais, tenho tido muita decepcao neste ano, em relacao as noticias policiais envolvendo o nosso time.

Acredito muito no ZICO, e sei que o tempo ira mostrar o trabalho dele. Neste ano por exemplo, apenas nao caindo, e se possivel ficando na libertadores, sera uma grande conquista.

O pedido do ZICO, para que o trabalho dele tenha a confianca de todos, deve ser levado a serio.

Priorizar as contratacoes, escolhendo jogadores com profissionalismo, que se doem e que tenham em mente, que pelo salario que eles ganham, devem eles, ser cobrados e mostrar em campo e PRINCIPALMENTE fora dele uma BOA CONDUTA.

Sabendo que o FLAMENGO e uma vitrine tanto na parte profissional, quanto na parte SOCIAL, em que milhoes de torcedores se espelham nestes jogadores, e por isto, a conduta deles teram sempre que ser EXEMPLAR.

Deixem o tempo amostrar para todos nos, o quanto o ZICO e profissional e AMA o FLAMENGO.

E isso,

TriTon

BoscoFerreira disse...

Parabéns André! Seu blog continua de primeira.

Esse vídeo deveria ser usado para uma palestra de reeducação dos garotos da base e para mostrar aos profissionais de hoje que eles nem imaginam a responsabilidade de ser flamengo.

O Zico sim é a nossa referência.

Não entendo porque a torcida ainda fala tanto no nome daquele monstro nos nossos blogs rubronegros.

Deveria ser feito uma campanha para que o seu nome seja banido da nossa história, da nossa memória a começar pelos blogs.

Quem se interessar pela historia macabra e vergonhosa que vá aos blogs de terror.

É a minha opinião, mas respeito a de quem quer continuar postando sobre ele. Lamento esse gosto. Mas simplesmente não leio o poste nem os comentários.

Gustavo Brasília disse...

Monnerat, parabéns pelo texto.

Acho que o Flamengo passará por momentos difíceis pois está renovando o elenco e o time está mais fraco após haver vencido o estadual e o brasileiro ano passado. Era um ano de muitas expectativas e talvez o time não ganhe nada.

Se há um momento em que a torcida precisa ter paciência e olhar para o futuro, investir, é agora.

Contudo, infelizmente, parece que há muitos incomodados e já querendo atrapalhar o trabalho do Zico, como ele próprio disse.

Os rubro-negros precisam se unir.

SRN.

Flávio disse...

Parabéns pelo texto, excelente.
Mas uma coisa deve ser lembrada: esse fato não vai passar em branco. Foi assim com o São Caetano quando um jogador morreu em campo.
Não tenho dúvida alguma de que o Flamengo vai sofrer esse ano por causa disso. Ainda bem que o Zico está conosco de volta. Se existe alguém capaz de mudar as coisas é o Zico, apenas ele.
O Bruno deu diversos recados em campo e nada foi feito. Primeiro foi a notícia de que ele não almoçava com o grupo, depois brigou com o Pet no vestiário, aí mandou a torcida calar a boca. Fora de campo também foram outros tantos. Isso tudo aconteceu e ele não perdeu a braçadeira de capitão.

HENRIN BUENO disse...

Falou tudo. Zico é o novo xerifão do pedaço.

De qq maneira não é compreensível a insistência no Estagiário. Perdemos muito tempo nesta.

Além disso temos a Paty Piscina querendo colocar as asinhas de fora, se intrometendo na seara do Zico, contactando o R.Gaúcho, um eterno trouble-maker.

Pessoal não aprende.

André Monnerat disse...

Henrin, você acha mesmo que a Patricia tá tentando contratar o Ronaldinho Gaúcho contra a vontade do Zico?

Marcelo Constantino disse...

Teria até alguns comentários a acrescentar para ilustrar o que diz o post, mas tudo que está nele está perfeito! [2]

André, guarde esse texto.

Irrepreensível.