Qual a chance de profissionalizarem a gestão do Flamengo?

João Henrique Areias contou em seu Twitter, tem pouco tempo, que estava em conversas para retornar ao Flamengo. Muita gente ficou na expectativa e, afinal de contas, ele acabou escrevendo em seu blog que não se chegou a um acordo. Delair queria que ele retornasse para a função que exercia no clube - mas, desta vez, como profissional remunerado. Areias preferiu apresentar uma contraproposta mais ambiciosa, em que seria um assessor da presidência (remunerado? voluntário?) que tocaria um projeto maior de profissionalização não só do esporte olímpico, mas também de outras áreas do clube. E o presidente não topou, temendo a resistência interna em ano de eleição.

Areias encerra o texto dizendo que não aceitou retornar ao clube, por sentir que não teria as condições ideais de trabalho, e dizendo que espera que algum candidato encampe a ideia de profissionalizar totalmente a gestão do clube.


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Também há poucos dias, o blog Expresso da Bola revelou que Zico desfez sua sociedade com os investidores que também eram donos do CFZ. Com isso, o caminho estaria aberto para o negócio entre ele e o Flamengo, cuja carta de intenções foi anunciada tem algum tempo em coletiva na Gávea.

Estou pra falar direito do assunto desde a época da coletiva, e acabei sempre adiando, um tanto por não ter como saber o que seria o tal negócio. Oficialmente falou-se apenas de uma compra do clube de Zico pelo Flamengo; mas houve especulações sobre um caminho para a profissionalização da gestão do futebol do clube, que poderia tornar-se uma empresa à parte, com o maior ídolo rubro-negro à frente. O que pensar disso?

A única certeza que tenho é que, pelos prazos anunciados para que a Fundação Getúlio Vargas prepare o modelo do negócio e o clube faça sua avaliação, a coisa chegaria a um momento de definição exatamente no auge da fervura pré-eleitoral no clube. Impossível um momento mais propício pra levar um negócio deste tipo para discussão no mesmo Conselho Deliberativo onde cadeiras voaram durante a aprovação de um simples contrato de patrocínio de manga de camisa, certo?


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Bem: aqui de fora, a tal "profissionalização da gestão" parece uma unanimidade. Aliás, não só para o Flamengo, como para todos os outros clubes do país. E por que não sai?

Márcio Braga, desde que assumiu em 2004, dizia querer separar o clube em unidades separadas de negócio: uma empresa para o futebol, outra para os esportes olímpicos, outra para o futebol. Nestes seis anos, ele era o grande mandatário do Flamengo, mas não conseguiu nem levar isso para ser votado no Conselho. Ensaiou uma profissionalização com o Fla-Futebol, que tinha Júnior e Areias na gestão - mas não conseguiu arrumar um vice de futebol que comprasse a ideia e ela acabou morrendo depois de vários enfrentamentos entre amadores e profissionais.

O que acontece: quem está lá dentro, se revezando no poder do clube há muito, muito tempo, é simplesmente contra. No início do ano, o governador Sérgio Cabral fez um discurso dizendo que os clubes precisam se profissionalizar; depois do título estadual do Flamengo, em solenidade comemorativa na Gávea, as declarações do político foram ridicularizadas por dirigentes, que enchiam a boca dizendo para quem quisesse ouvir que era o trabalho voluntário que tinha levado o clube até onde chegou, ao longo de sua história. Quando Leonardo levantou a bola da venda do clube, Delair o ironizou dizendo que era uma pena que ele não pudesse trabalhar pelo Flamengo de graça, como ele próprio fazia. Kléber Leite foi presidente do Flamengo por anos, esteve à frente novamente do futebol por outro longo período, e não mexeu uma palha sequer na direção do profissionalismo, nem abriu a boca pra falar no assunto.

É isso: não querem.


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Mas o Conselho Deliberativo do Flamengo tem muita gente que pode até enxergar isso de outra forma e aprovar uma boa proposta, bem apresentada, que aponte para este caminho. A questão é: qual é esta proposta? Será que, com esse negócio envolvendo o CFZ, isso vai aparecer?

Márcio Braga queria transformar o futebol do Flamengo em empresa, para que suas receitas estivessem a salvo das despesas do resto do clube. Dinheiro do futebol seria só do futebol, e ponto. O discurso é bonito, mas colocado de maneira simplificada assim, hoje não é possível de ser posto em prática. O Conselho não aprovaria, e estaria certo.

O motivo disso é simples: a gigantesca dívida do clube.

Se essa nova empresa do futebol carregar consigo estas dívidas - criadas, não se enganem, pelo próprio futebol -, já nasce falida. O futebol do Flamengo teve, em 2008, uma receita operacional de R$66 milhões e despesas de R$91 milhões; além disso, fechou o ano com uma dívida de R$149 milhões a ser paga até o fim de 2009 - sem contar a dívida maior ainda já negociada via Timemania com o Estado. Quer dizer: não tem como abrir uma empresa que nascesse nesta situação. Seria liquidada imediatamente.

Ao mesmo tempo, não tem como abrir esta empresa nova e deixar a dívida pro clube. Afinal, sem o futebol a receita operacional do Flamengo estaria reduzida a pouco mais de R$15 milhões por ano. Não haveria a menor condição do clube lidar com essa dívida monstruosa assim, no susto. E é óbvio que os sócios não vão aprovar algo assim.

Como desatar esse nó? Pode ser isso parte do trabalho atual da FGV para formatar o negócio entre Flamengo e CFZ. Mas não consigo enxergar uma solução que não passe por uma renegociação grande da dívida, para que ela seja parcelada e controlada e, a partir daí, possa ser paga de maneira regular em parcelas de valor conhecido. A partir disso, poderia até nascer uma empresa que se responsabilizasse por estas parcelas, ou que firmasse com o clube um contrato prevendo o repasse de um valor percentual de suas receitas que cobrisse isso aí.

E, mesmo que se faça este trabalho todo em cima da dívida (que precisa ser feito, independente de quererem criar empresa pro futebol ou não) e se chegue a um bom modelo para separar o futebol do resto do clube, ainda seria preciso vencer a resistência, ahn, ideológica de muita gente envolvida na política da Gávea. Mas se existe um argumento que possa ser capaz de resolver a discussão é a simples presença de Zico na história. Taí o grande trunfo que Márcio Braga resolveu sacar do bolso pra tentar chegar onde dizia querer desde 2004.

É ver como esse trunfo vai ser usado. E se vai funcionar.


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Areias, também em seu blog, fala do modelo de gestão profissional que imagina para o clube em uma série de textos. Ele não fala em criação de empresa, nem nada disso. Apenas em entregar a administração a gente paga para isso. O presidente eleito, assim como os seus vice-presidentes nomeados, fariam o papel de Conselho de Administração; eles teriam a visão estratégica da coisa, definiriam metas, e contratariam os responsáveis por chegar lá. Pessoas com competências específicas, remuneradas, com direito a bônus por desempenho. Tudo faz sentido, e não parece mesmo precisar de mudança nenhuma no estatuto para ser colocado em prática.

Mas tem que ter gente lá dentro querendo isso.

Pelo que sei, há candidatos que defendem esta profissionalização, ao menos no discurso. É esperar pra ver se realmente vão seguir candidatos até o dia da eleição, se têm chances de ganhar - e se, em ganhando, seriam capazes de colocar em prática.

Márcio Braga, infelizmente, não foi.


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Pra encerrar o looooongo post...

Areias não aceitou reassumir o esporte olímpico, no formato que lhe foi oferecido.

Não sei quem está à frente disso hoje, no clube. Ignorância minha, mesmo.

Mas, seja quem for, está com uma batata quente nas mãos. O trabalho do grupo de Areias foi grande, atraiu parceiros, deu resultados - mas não foi o suficiente pra fazer as contas fecharem. As receitas do basquete não foram suficientes para cobrir seus gastos de janeiro a maio e foi preciso um aporte de dinheiro do Flamengo de quase R$350 mil - sem entrar nessa conta os prêmios relativos ao Brasileiro 08, Estadual 08 e Sul-Americano 09.

Quem está lá agora recebe um time campeão, com uma marca mais forte - mas precisa negociar contratos para mantê-lo, num período sem jogos atraentes e sem exposição na mídia como houve no primeiro semestre e com pressão para manter todo o caríssimo elenco campeão, que está agora mais valorizado ainda. Complicado.

2 comentários:

Marcelo Constantino disse...

Existe um único e suficiente motivo para o Flamengo não se profissionalizar: muita gente iria perder dinheiro (ou deixar de ganhar).

E esse "muita gente" é quem manda.

Max disse...

Eu sou a favor de jogar toda dívida em cima do Clube de REgatas Flamengo, decretar falência e dar calote em geral, criar o Flamengo Futebol Clube em cores rubro-negras e recomeçar o trabalho do zero.

E não estou brincando quando digo isso não.

Max Junqueira