Sobre as mudanças necessárias

Depois de mais uma daquelas derrotas inacreditáveis que só poderiam ter a assinatura do Flamengo, começa o clamor por mudanças. Há quem acredite que acabou o tempo de Cuca. E há ainda os que vêem no Flamengo deficiências no elenco - falta um meia de criação, falta um zagueiro, falta um atacante...

Bem: não acredito que a demissão de Cuca fosse ser parte da solução. Até por um motivo simples: não há outro no mercado que seja claramente superior ao técnico atual do Flamengo.

Também não acho que o caso seja de buscar grandes reforços. Fora a constatação simples de que não há dinheiro, o problema do Flamengo não é mesmo a capacidade técnica de seus jogadores. Bruno, Aírton, Angelim, Juan, Willians, Kléberson, Íbson, Adriano - estão todos no nível dos melhores de suas posições no país.

Então, qual é o problema?

O primeiro, é óbvio, é tudo-isso-que-aí-está. A tal estrutura. São os salários atrasados, as confusões políticas, as brigas internas, tudo aquilo que tira o foco do trabalho. É o fato de que o time não treina em tempo integral nunca, e que, quando treina, o faz de má vontade (Bruno reclamou ano passado, veio à tona na época que o time já havia resolvido em reunião com Caio Júnior que não mais treinariam em dois períodos, este ano foi a vez de Juan dar xilique pelo mesmo motivo). E isso acontece não apenas por uma questão de caráter de quem está lá, mas por falta de estrutura física mesmo - o Flamengo não tem alojamentos onde os jogadores possam ficar entre um período e outro de treino, não tem um refeitório para as refeições do grupo entre a manhã e a tarde, enfim. Falta o mínimo do mínimo, e esse tipo de coisa obviamente se reflete nos resultados em campo - por mais que o elenco do Flamengo seja, efetivamente, um dos melhores e mais caros do país.

Mas isso não exclui outro fato: alguns dos jogadores que formam a base deste time - aqueles mais caros, aqueles pra quem os outros se voltam na hora que precisam de alguém pra se apoiar em campo - simplesmente não são confiáveis. O problema não é técnico; é de personalidade, de caráter. Nos momentos mais impróprios, são caras que falham dentro e fora de campo, com atos de indisciplina e falhas graves por desleixo, desatenção, falta de compromisso, instabilidade emocional.

A interpretação de muita gente boa para o que aconteceu na Ilha do Retiro é a seguinte: os caras abriram 2x0, "pronto, trabalho feito por hoje" e relaxaram, na cara-de-pau. E, com a repetição do mesmo filme over and over again, a ficha já está caindo pra muita gente por aí; deu pra ver isso por alguns comentários aqui no SobreFlamengo, por alguns textos em outros blogs. Mas isso é o que eu defendo desde o fim do Brasileiro do ano passado, especialmente após os dois lamentáveis jogos contra Goiás e Atlético-PR - dois fracassos que custaram a vaga na Libertadores graças a pura e simples palhaçada dentro de campo: pra mim, a hora de Bruno, Léo Moura e Juan já passou. São três jogadores caros, que não tenho dúvidas de que são talentosos, mas em quem simplesmente não dá pra confiar - e são a base da equipe, aqueles em volta de quem o time é montado. De tempos em tempos, eles voltam a fazer grandes jogos e todo mundo esquece as mancadas anteriores; mas eles são como a sua operadora de celular ou de TV paga: é só esperar e vão voltar a te irritar profundamente, de maneira inacreditável, mais cedo ou mais tarde.

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Vou dar um exemplo do tipo de coisa que passa batida em momentos de vitória, mas que é um bom exemplo de um padrão de comportamento lamentável, que pode colocar tudo a perder a qualquer momento.

Na final do Estadual deste ano, contra o Botafogo, Bruno saiu como herói inquestionável graças aos pênaltis defendidos. Justo, muito justo. Porém, as tais defesas não apagam o fato de que, no fim do jogo, com o Flamengo pressionando o adversário em busca da vitória e todo o lado rubro-negro do estádio querendo que o jogo não acabasse porque via que o gol do título poderia sair a qualquer momento, Bruno fazia cera. Ele era o único rubro-negro no Maracanã querendo que o tempo passasse mais rápido. E por quê? Porque estava convencido de que ele, Bruno, tinha a ganhar com isso. Não o Flamengo - ele. Nos pênaltis, ele poderia ser o nome do jogo. Com um gol no tempo normal, não seria ele o grande personagem da conquista. Atenção: não estou aqui especulando sobre isso. O próprio Bruno confessou, depois da partida, que fez cera propositalmente, mesmo.

É hora do Flamengo, na situação em que está, buscar gente que esteja mais comprometida com objetivos coletivos, e não individuais. Isso vale para jogadores e pra quem está fora do campo também. Por isso, faz tempo que estou na campanha pelo choque de ordem - uma limpeza de quem simplesmente não está a fim e, junto com isso, medidas para dar condições a quem tem vontade de trabalhar. O Flamengo precisa acabar com as desculpas que hoje existem para que seus caros jogadores não rendam proporcionalmente ao que recebem. Porque a verdade é essa: para ter os resultados que tem hoje, o Flamengo precisa gastar muito mais do que outros clubes que estão no mesmo nível. E, com a situação financeira do clube hoje, isso simplesmente não se sustenta. A capacidade de se endividar vai acabar em algum momento.

E, além disso, a receita atual vai continuar sempre dando nisso: grandes fracassos quando maiores forem as esperanças. Já virou um padrão.

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E quanto ao que fazer com o time em si, neste momento?

Me parece claro que ao menos Léo Moura já não tem mais justificativa mesmo para ser titular. Ele tem um reserva imediato, Éverton Silva, que dá conta do recado e faz o time render mais sempre que entra.

Não é tanto o caso de Juan e Bruno. Enquanto estão por lá, recebendo seus altos salários, ainda acredito que sejam titulares. A janela de meio de ano está chegando, no entanto. É a hora de fazer caixa e aproveitar que ambos têm mercado - na Europa, na Arábia, na Coréia, vai saber.

Para o próximo jogo, além de Kléberson, Cuca não terá também Willians. Sua solução para a ausência do titular terá que ser outra, de qualquer forma. Pensando em seu padrão de comportamento pós-fracassos, não seria surpresa se ele estiver com soluções radicais passando por sua cabeça. Depois do Resende, por exemplo, ele inventou Léo Moura de armador no meio-campo.

Minha opinião permanece a mesma: gostaria de ver Íbson recuado para a função de segundo volante, com alguém mais ofensivo entrando no meio-campo. E acho bem possível que isso venha a acontecer para este próximo jogo, até por falta de opções mesmo. Minha escolha seria por uma oportunidade ao chileno Fierro, mas não parece provável. É possível que Cuca decida por Éverton, que parece mesmo um de seus favoritos de momento, ou ainda por Erick Flores. É esperar pra ver.

9 comentários:

Carlos Muniz disse...

puxa vida, foi a melhor leitura da situação atual do Flamengo que eu li nos últimos tempos. Extremamente bem posicionada e realista..

Parabéns mesmo André... E fica aqui um cara que assina embaixo e tá contigo!

amartins78 disse...

Parabéns André, foi um dos textos mais corretos que li sobre o Flamengo em dias recentes...

SRN,

Alessandro Martins.

Marcelo Constantino disse...

Belo texto mesmo.

Eu até gosto do ímpeto do E. Silva, mas efetivá-lo titular eu entendo que deve ser algo paliativo. Trata-se de um lateral que não sabe cruzar e que marca mal. Apesar, repito, do ótimo ímpeto de partir pra cima no ataque.

Agora, o Leo Moura realmente não joga nada desde a seleção brasileira. Idem para o Juan, com o agravante deste seguidamente perder a bola e ficar olhando, putinho (tanto que a grande surpresa do passe dele para o Inter foi ele ter corrido de volta).

Outro problema: não há laterais decentes por aí. Basta ver os titulares da seleção brasileira.

O Bruno pode ir numa boa, mas aí caímos noutro problema: ele não tem tanto mercado assim como se imagina.

Aliás, o Juan foi rifado pelo Flamengo recentemente para o exterior -- e não havia mercado para ele. (aliás, adoraria vê-lo no futebol europeu se atirando no chão, xingando árbitros e ficando com a mãozinha na cintura qdo perde a bola).

Cuca colocar um meia mais ofensivo no lugar de um volante? Ahahaha, isso só acontece uma vez na vida e outra na morte. E, se der certo, ele volta a encher o time de volantes depois, de qq jeito.

E concordo que não tem gente melhor que o Cuca no mercado -- a verdade é que o Cuca é meramente mais um medíocre nesse mar de mediocridade de treinadores que temos no Brasil.

André Monnerat disse...

Marcelo, taí um comentário que eu não concordo: não acho que o Éverton Silva não saiba cruzar.

Pelo contrário, acho ele mais efetivo nos cruzamentos que o próprio Léo Moura. Ele tem a qualidade de levantar a cabeça pra olhar pra quem vai cruzar antes de mandar a bola pra área de qualquer jeito, o que é bem raro. Um bom exemplo de jogada de linha de fundo dele, puxando de cabeça agora, foi o gol perdido de maneira bizarra pelo Obina contra o Santo André.

Na marcação, ele já me convence bem menos mesmo, embora o Cuca até o use de zagueiro volta e meia. Mas acho que ele tende a fazer faltas demais, sem necessidade.

Marcos Monnerat disse...

Eu acho e já falo isso há muito tempo. Tem que mandar embora Bruno, Juan e Leo Moura. Se não der pra vendê-los, que os demitam.

Se for caro demais demitir, tenta emprestar, nem que seja continuando a pagar parte dos salários.

Esses três são os ícones dos maiores fracassos que eu já vi das arquibancadas do Maracanã.

Pro lugar do Bruno pode por o Diego mesmo ou o Lomba, sei lá. O Diego não é tão ruim como falam, assim como o Bruno tá muito, mas muito longe mesmo de ser o melhor goleiro do Brasil. Pro lugar do Leo Moura põe o Éverton Silva, que sempre entra melhor do que ele em campo. Pro lugar do Juan é mais difícil. Tem que ver a opção menos pior. Talvez o Jorbison, de quem o Kleber Leite fala tão bem (deve ter participação no passe do cara)...

E mais, não deveriam nem pensar em gastar milhões de euros para mantêr o Íbson. Não existe dinheiro para tamanha estravagância.

Se priorizar os salários em dia ao invés de mantêr esses caras a custo de ouro, os resultados podem ser melhores.

Teofilo Mitchell disse...

Concordo totalmente contigo, André! A Era de Bruno, Leo Perlla e Juan no Flamengo já acabou! Instáveis técnica e emocionalmente, são jogadores que podem trazer algum retorno financeiro ao Flamengo. Temo , porém quanto aos reservas do Bruno e do Juan. No caso do Everton Silva acho que há unanimidade: melhor que o titular. Mas dos dois outros.... Eu tremo quando imagino Diego Braço de Jacaré no gol! Um pastel..... E na lateral esquerda? Jorbison? Bom , mas algo tem que mudar!
O FLAMENGO SÓ PERDE PARA ELE MESMO!
Abraços
Teofilo Mitchell ( do BUTECO)

Max disse...

O Leo Moura já tem o filme queimado comigo há séculos e vou soltar fogos quando ele for embora.

Com relação ao Bruno, também de convenci que a boa é ele vazar logo: a final contra o Inter foi a gota d´água.

Mas o Juan, embora concorde que não vem bem, ainda tem créditos comigo. Não gostaria de vê-lo saindo não..

E Ibson é foda! Vale os milhoes que forem, afinal esse dinheiro vai sumir la dentro de qualquer forma mesmo...

André Amaral disse...

Eita..metralhadora ligada...ehehee

Mas é isso mesmo. Assino em baixo.

LM e Juan levaram os frutos na boa fase do Flamengo, na época em que todos nos enchiamos a boca pra falar "dos nossos laterais" e agora viraram o símbolo do fracasso tático desse esquema.

Só fico com uma ponta de dúvida com o Bruno. Ele tem 24anos, é novo, as criticas são justas pelas falhas, mas será que ele num pode evoluir e amadurecer não?

Todos nos sabemos que goleiro chega ao seu nível com 29, 30 anos.

E queria saber sua opinião sobre o Adriano. Tem gente que está pondo ele no mesmo saco de LM, Juan, Bruno. Se acha justo?

Eu penso assim:

"Ainda continuo achando que o Adriano é um caso a parte.

Tem que ter tratamento especial. Ele a pouco tempo estava pra abandonar o futebol, tem que ter um zelo, um cuidado com ele.

É fato que ele é outro naipe, é um grande atacante, precisa ser preservado.

Eu vejo assim: O Flamengo está cuidando do Adriano como se fosse o filho, libera, vê aonde ele vai, confia, pra ver se dentro de campo ele resolve."

Abraço

André Monnerat disse...

André Amaral, sobre o Adriano: eu acho que, ontem, ficou claro pra mim que ele deixou de ir ao treino tendo sido liberado pra isso. Se o compromisso que ele tinha era o bastante pra ele não poder ir lá nem de tarde nem de manhã, pode-se discutir (e, se ele podia ter ido e mandou a deculpa na base da malandragem, tá muito errado); mas, se os chefes dele tinham o liberado, então indisciplina não houve.

Na semana passada sim, ele faltou na cara-de-pau, era caso de punição. Os casos do Juan e do Bruno são de reincidências múltiplas, por isso minha paciência com os dois já se encerrou - e, com eles, ainda tem o seguinte: se vender, entra dinheiro em caixa, mais do que bem vindo.

Eu não quero mais esperar pelo Bruno, muito menos tantos anos. Como falei, ele é talentoso, tem tudo pra ser um grande goleiro. Mas, pra mim, o comportamento dele é nocivo, compromete o rendimento em campo não só dele quanto dos outros e não se encaixa com o que eu quero para o Flamengo.

Não sei se o Adriano merece tratamento especial não - de modo geral, sou contra esse tipo de coisa. Agora, se for o caso, espero que esteja claro pra todo mundo lá dentro que é isso aí, tem diferença mesmo, as obrigações dele são essas aqui, diferentes das dos outros. E aí, que todo mundo veja que as obrigações dele, ele cumpre. E que elas sejam o bastante pra ele render em campo - porque o fato é que, no domingo, ele jogou num nível de Josiel pra baixo.