As CNDs e o futebol lamentável do Flamengo de hoje: uma coisa tem a ver com a outra

Um dia o Flamengo teria que passar por isso. Mas a transição para uma casa arrumada não se daria mesmo sem algum sofrimento.



Desde que assumiu, a nova diretoria do Flamengo vem falando de modo obsessivo na obtenção das CNDs - as Certidões Negativas de Débito, que comprovam que uma instituição está em dia com suas obrigações em relação aos pagamenos à esfera pública. E ontem, finalmente, puderam anunciar que conseguiram todas elas. São seis, mostrando que o clube não tem mais dívidas em aberto com a União, com a Previdência, com o Fundo de Garantia, com o Estado, com o Município e na Justiça do Trabalho.

Depois da notícia, vi alguns comentários na seguinte linha: "se conseguiram em apenas três meses, por que ficamos tantos anos sem isso?" A resposta é: porque só agora realmente tomou-se a decisão de que isso é uma prioridade. E, em sendo prioridade, sacrifícios deveriam ser feitos para chegar lá.

Assim, na área social, interditaram uma piscina que tinha um vazamento aumentando loucamente a conta de água - e ela está lá, fechada, enquanto não se consegue acomodar no orçamento um jeito de reformá-la ou reconstrui-la. Nos esportes olímpicos, foram encerradas quase todas as equipes adultas - e elas só retornarão quando for possível pagar por elas sem ser preciso para isso parar de pagar impostos. E, se estas áreas sofreram cortes tão drásticos, não seria o futebol, onde mais se gasta dinheiro no Flamengo, que passaria impune.

E o jogo de ontem contra o Remo foi bem didático para mostrar a todos que tipo de sacrifício é necessário para o Flamengo conseguir colocar suas contas em dia. Ou vocês acham que alguém lá dentro acredita que o time que entrou em campo no Mangueirão e nos ofereceu aquele espetáculo de furadas e espirradas de taco seguidas está à altura das tradições rubro-negras? Ninguém entende tão pouco de futebol assim, podem acreditar.

Pra conseguir toda a renegociação com o poder público, dezenas de milhões de reais foram desviados para pagamentos de dívidas antigas. Não há nada sobrando na Gávea. Não sei se alguém acreditava que daria pra ajeitar a casa sem fazer sacrifícios como o de aguentar Hernane e sua total falta de jeito com a bola sendo o único centroavante adulto disponível no time, mas é o que está acontecendo: uma coisa tem a ver com a outra.

E não achem que, agora que as certidões estão lá, tá resolvido e já podemos agendar a apresentação dos reforços galáticos. As dívidas não sumiram, apenas foram renegociadas e será preciso cumprir com as parcelas, a cada mês. Há ainda os outros credores, com quem ainda será preciso negociar - e, enquanto não estiver tudo resolvido, penhoras podem até surgir. Mesmo com novos patrocínios entrando, o fluxo de caixa em princípio será bem apertado, como Bandeira já avisou.

Não existe milagre. E o trabalho de quem tá lá dentro agora, além de manter o controle e não assumir compromissos que não podem cumprir, será o de encontrar formas de aumentar a receita e criar alguma folga para, mais na frente, o time ser melhorzinho do que esse aí. Potencial pra isso o Flamengo tem, mas a transição não tinha como não ter algum sofrimento. Pedir compreensão da torcida quanto a isso é meio inútil, mas uma hora seria preciso passar por isso e é melhor que seja logo. Já empurrou-se demais com a barriga e agora há muito tempo perdido para recuperar.

E, claro: enquanto não há dinheiro, será importante errar o mínimo possível na hora de escolher em quem gastar. Nisso, já andaram dando algumas escorregadas.


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Sobre o jogo: o Flamengo ganhou basicamente porque Rafinha tirou um coelho da cartola e fez um golaço, num lance isolado. Fora isso, foi muita correria, pouca inteligência, nenhum poder de definição. Depois do 1x0, o time ainda recuou, apelou pra chutões e permitiu que o Remo, que hoje luta por uma vaguinha na Série D do Brasileiro, fizesse certa pressão. Houve atuações individuais lamentáveis, como as de Hernane, Wallace e Amaral, mas a organização caótica também não ajudou ninguém.

Nunca vi um time dar certo em esquema semelhante a este que Jorginho tenta usar sem ter um meia de verdade. Sem esse cara, falta quem faça a bola girar de um lado pro outro, falta aproximação com o centroavante, faltam jogadas pelo meio e sobram apenas cruzamentos para a área. Hoje o Flamengo não tem este jogador no elenco; o mais próximo disso seria o lento e dispersivo Cléber Santana e, fora ele, restaria improvisar alguém como Elias ou Íbson - o que parecia ser mais ou menos a ideia de Dorival Júnior. Já Jorginho preferiu ontem fazer o trio formado por Rafinha, Rodolfo e Gabriel trocar bastante de posição por trás de Hernane. Não deu certo; há uma linha tênue entre "muita movimentação" e "bagunça" que o Flamengo ultrapassou. E os três são mesmo jogadores muito mais de correr com a bola do que de fazer ela correr.

Ou descobre-se este camisa 10 que está faltando em algum lugar ou me parece melhor mudar mesmo o esquema.

7 comentários:

Luis disse...

André, perfeito o teu texto, principalmente a forma como as "partes" (arrumar as finanças vs sacrfícios) do mesmo se comunicam, mas o técnico não pode atrapalhar. Acho o Jorginho muito fraco - escala, monta e substitui mal.

Gabriel Folha disse...

"Ninguém entende tão pouco de futebol assim, podem acreditar."

Te-lo, ok (sendo generosíssimo), mas renovar contrato de Hernane até 2016 contradiz a afirmação.

Apesar de sempre ser usada, a falta de dinheiro não pode ser desculpa quando o problema é de avaliação.

André Monnerat disse...

Essa renovação longa do Hernane foi dose mesmo.

Luis disse...

André, sabemos que muitas vezes os jogadores deixam de ser relacionados por conta da situação de seus contratos, relacionamento com agentes etc. Vc sabe o que está acontecendo no caso do Gonzalez? O cara é meio lento, mas acho que é melhor do que os que tem jogado. De ontem para hoje parece que o Jorginho fez as pazes com o agente dele, pois vem dizendo que o cara se esforça etc.

O Adrian finalmente renovou e até concordo com o posicionamento no caso do filho do Bebeto (que segue sendo uma criançona bobona), mas é difícil entender porque insitimos tanto em uns caras de fora e temos paciência tão curta com os da base. Tem alguma explicação "de bastidores" para isso?

Unknown disse...

Me incomoda bem mais terem feito um contrato de 2 anos com o Jorginho do que a renovação do Hernane.

costabrito disse...

Realmente foi um belo gol a conquista das CNDs.Mas na gerencia do futebol nem tudo foi bem feito.A contrataçao do Walace, de contra peso é dificil de aceitar. Quanto ao Jorginho esta sendo uma decepçao ,esta mais para desorganizador do que tecnico ,eu tinha uma expectativa melhor sobre o cara !!!

André disse...

O sofrimento da torcida será proporcional ao tamanho da ´divida acumulada em décadas de irresponsabilidade administrativa...

Não somos mais capazes de sequer ganhar um partida no estadual...só Deus sabe o que nos espera no Brasileirão.