Como pode funcionar uma estrutura profissional em um departamento de futebol

É interessante ouvir sobre o tema, novo no Flamengo, quem já trabalha desta forma em outros clubes.


"Profissionalizar o futebol" não pode ser só pagar alguém para comandar o departamento. É preciso criar uma estrutura - não só física, mas também de pessoal - que atenda as necessidades de um clube vencedor na parte financeira, jurídica, logística, técnica. (...) Não é razoável esperar que alguém, seja quem for, consiga reunir sozinho qualidades para escolher bem jogadores, avaliar o trabalho de um treinador, lidar com finanças, ser bom negociador de contratos com clubes e empresários, tratar com os jogadores no vestiário e por aí vai."


Escrevi isso no meu texto "O que precisa mudar no futebol do Flamengo", publicado antes das eleições. E fiquei satisfeito ao perceber, pelo discurso de Felipe Ximenes, que não estou viajando. Depois de ser um dos palestrantes do Footecon, fórum sobre futebol que aconteceu no Rio até ontem, ele foi convidado do programa Quatro em Campo, da rádio CBN, que ouvi ontem a caminho de casa.

Mineiro, Ximenes já passou por Atlético Mineiro e Fluminense antes de chegar ao Coritiba, onde hoje trabalha. Tem sido especulado como possível novo Diretor de Futebol do Flamengo e nem sei dizer se seria uma boa escolha, por não ter acompanhado mais atentamente seu trabalho. Sobre esta possibilidade, ele desconversou no programa. Mas, ainda assim, ouvi-lo foi interessante. O áudio está aí embaixo:




Mais ou menos com 43 minutos e meio do áudio, vocês podem ouvir um dos integrantes do programa lhe perguntando como funciona a estrutura de um departamento de futebol. O entrevistado disse que isso varia de clube pra clube - óbvio -, mas começou a explicar como é a do Coritiba. Logo no início, soltou que trabalham abaixo dele no futebol do Coxa seis gerentes, no que um dos outros jornalistas exclamou que era então algo inchado. Ximenes - que talvez já esteja acostumado com a compreensível falta de prática dos jornalistas esportivos em lidar com modelagem organizacional e outros temas do tipo - retrucou que, na verdade, era uma estrutura até enxuta e descreveu mais ou menos o que vocês podem ver na figura abaixo:



Ximenes é o Superintendente de Futebol, que atua no nível de outro profissional contratado para a área administrativa. Estrategicamente, ambos trabalham junto ao board do Coritiba - como o "conselho gestor" que a nova diretoria do Flamengo quer formar -, formado lá pelo presidente e vice-presidentes, todos voluntários. E abaixo deles vêm as seis gerências, cada uma cuidando de uma parte do trabalho do Departamento de Futebol (como eu dizia, é impossível a mesma pessoa saber fazer bem, e conseguir dar conta, de tudo; é bom ter gente especializada, fazendo cada área render o seu melhor). Sob estes gerentes, são 84 funcionários contratados.

Reparem que, na caixinha mais à direita, há o "Gerente Técnico". Este é ninguém menos que o treinador do time - no organograma, sua função está no nível de gerência. Isso quer dizer que, se ele sai, o que pode mudar é o que está abaixo dele; as demais áreas, incluindo a de observação e avaliação de jogadores (que Ximenes define como "a inteligência do departamento") e a de fisiologia e medicina, seguem seu trabalho da mesma forma.

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O gerente  de Futebol seria correspondente em outros clubes a quem trabalha especificamente comandando a base - mas Ximenes diz que, no Coritiba, não há esta divisão entre base e profissionais. Isso deve facilitar a integração das categorias e a transição dos jogadores formados lá para o time principal, mas fico curioso para saber exatamente como funciona.

Não sei se Ximenes irá trabalhar no Flamengo. E não sei, se vier, se será implementado organograma igual a este. Mas já lemos por aí que, se Zinho continuar no clube, será em um cargo abaixo do novo executivo. Na estrutura desenhada aí em cima, dá pra imaginar que pudessem encaixá-lo nesta caixinha de Gerente de Futebol.

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É óbvio que o Coritiba não é o Flamengo, que a proporção das coisas por lá é outra e os resultados esperados também; e não acompanho o que acontece lá de perto para saber com mais detalhes o que está dando certo e o que não está. Mas o clube já teve um torcedor, executivo de sucesso - no caso, do HSBC -, decidindo participar da vida política do clube para iniciar o processo de mudança e profissionalização do modelo de gestão. Escrevi sobre isso aqui no blog há alguns meses, no texto O que o Flamengo pode aprender com o Coritiba?.

5 comentários:

costabrito disse...

Acho que no Fla na area de futebol tem ate gente demais o que precisa é realmente uma melhor organizaçao das tarefas .A sumula de um jogo da base da para ver quanta gente assina !!! As areas mais fracas do Fla sao acompanhamento do mercado e venda de jogadores!!Parece que no Fla é proibido ter lucro com jogador,so vale despesa !!!Acho que é valida essa tentativa de trazer alguem com experiencia fora para organizar o Fla ,mas sem um equilibrio minimo das finanças nao ha como dar certo!!!!

Juan disse...

A cultura era deixar tudo nas mãos de um gerente, como o Isaias Tinoco. É uma cultura ruim.

Sasha Nejaim disse...

Que faz tudo ao mesmo tempo não faz nada da melhor forma possível.
Pegando uma dessas gerências como exemplo: logística.
Passagens aéreas, hospedagem, deslocamento, segurança, equipamentos e uniformes, etc - milhões de reais por ano.
Se isso tudo for tarefa secundária, fica caro. Fazendo com um único responsável, capacitado, é possível ter ganhos de eficiência através de planejamento (ou parcerias com hotéis/cias aéreas) que ajudam (e muito!) no desempenho financeiro do futebol. Talvez a simples organização desses custos já seja capaz de bancar o tal craque no time do Flamengo.

Agora imagina o sujeito que faz isso tudo ter que ser responsável ao mesmo tempo por preparar contratos, observar atletas, gerir categorias de base e solucionar problemas dentro de campo. Inviável. Óbvio que de alguma coisa (ou de todas elas) ele não vai dar conta...

lussiannosousa disse...

André, muito tem se falado da eleição para presidência do Conselho Deliberativo. Tem como você fazer um post explicando pq é uma eleição importante? Salvo engano o conselho é formado por mais de 1000 pessoas, pq a figura do presidente é tão importante assim? Se puder rolar um post explicando sobre esses poderes, eu agradeço. Abraço.

André Monnerat disse...

Lussiano, vai rolar!