O que precisa mudar no Flamengo em sua sede social

É fato: Patrícia Amorim fez a sede da Gávea evoluir. Mas dá pra pensar em fazer diferente.


Ouvindo o discurso de alguns dos nomes mais conhecidos da oposição do Flamengo, alguém pode ter a impressão de que tudo vinha bem no clube até 2009 e que o que há de errado hoje surgiu a partir da eleição de Patrícia Amorim. É óbvio, no entanto, que não é assim. Basta pensar um pouco: se a situação fosse tão boa, como seria possível o presidente perder a eleição no dia seguinte - no dia seguinte! - à conquista do hexacampeonato brasileiro? É óbvio que havia muitos problemas, em várias áreas, e eles pesaram.

Uma das questões estava na administração da sede da Gávea. Sei que muitos torcedores do futebol não se conformam, mas a maneira como a diretoria cuida da sede tem seu peso nas eleições. E fato é que, neste ponto, houve melhoras inegáveis.

Sim, tem gente que vai tentar lhe convencer que qualquer discurso de Patrícia Amorim sobre isso é blefe, é mentira, é invenção. Não é verdade e seguir nesta linha não é um jeito inteligente de fazer oposição. O sócio sensível às condições da piscina, banheiros e quadras, que frequenta a Gávea, sabe o que mudou. Não adianta tentar lhe negar o que ele sente em seu dia-a-dia; isso só vai lhe fazer duvidar de todo o resto que for dito contra a atual administração. "Se estão dizendo que a sede não melhorou e eu estou vendo que melhorou, como posso acreditar quando me falam que as coisas vão mal no Financeiro, no Jurídico...?"

Então, pra começar: sim, é verdade que hoje a Gávea está bem melhor do que em 2009. Me tornei sócio-proprietário nos últimos meses da gestão Delair Dumbrosck/Márcio Braga. E o que se via por lá era deplorável. O que mais me chamava a atenção era a grande área onde hoje há quadras e a "Arena Maestro Júnior" de futebol de areia. Um enorme espaço, em que dava pra pensar em fazer qualquer coisa, em escombros, literalmente. Mas os sinais de descaso se espalhavam por toda a sede. Mesmo no ponto mais frequentado do clube, o parque aquático, os banheiros estavam em um estado tão lamentável que é difícil até explicar. E tornar aquele pequeno espaço ao menos apresentável era algo tão simples que é simplesmente indefensável que tivesse chegado àquele ponto.

Hoje ainda há muitos problemas de conservação por lá e a comparação com outros clubes é desfavorável. Sou sócio de outro no Jardim Botânico e a diferença no clima e na presença em um fim-de-semana de sol é muito, muito grande. Mas não dá pra negar que melhorou.

* * * * * * * * * *

Isso não quer dizer que não há o que rever na maneira como se administra a Gávea.

Como falei, me tornei sócio-proprietário em 2009. Mas conheço o clube há muito mais tempo. Como dependente do meu pai, frequentei a sede a partir da metade dos anos 80 até boa parte dos anos 90. Cansei de ver jogos contra times pequenos e jogava nas quadras de "golzinho" que existiam coladas ao gramado. Bem novo, fiz natação ali; um tantinho mais velho, joguei bola na escolinha de futebol. Um bom tempo depois, quando começou a existir o pay-per-view e não era muito comum que as pessoas o tivessem em casa, ia com meu pai assistir a jogos na TV do bar da sauna. Enfim: conheci o lugar todo faz muito tempo. E hoje voltei a frequentar a sede eventualmente. Vou lá com meus filhos, usamos a piscina, jogo bola com eles.

Pois é: se compararmos os serviços que a sede da Gávea oferece aos seus sócios hoje com os que existiam nos anos 80, perceberemos que são basicamente os mesmos. Houve épocas de melhor ou pior conservação, algo pontualmente se desenvolveu aqui e ali, mas o que há por lá é mais ou menos a mesma coisa. E o que a atual diretoria fez não foi muito além de ajeitar o que já existiu - o parquinho, quadras, banheiros, filtro da piscina, enfim. Só que, no mundo lá fora, as coisas mudaram muito de lá pra cá. As opções de lazer se multiplicaram, cada vez mais condomínios e prédios contam com quadras e piscinas, as demandas na preparação dos atletas olímpicos se tornaram outras, o interesse das pessoas normais em atividades físicas e a preocupação com a saúde também se transformou, o padrão de serviços se modificou... Enfim, é outra realidade. E o conceito da Gávea segue o mesmo; o que ela pretende oferecer aos sócios e à sociedade mudou pouco pelo menos nos últimos 30 anos.

Um exemplo simples: o interesse em frequentar academias cresceu demais nas últimas décadas. Elas se multiplicam por toda esquina, suas estruturas se desenvolvem e cada vez mais gente as procura. No entanto, se um sócio ou qualquer um que more ali por perto quiser malhar, a acanhada academia do Flamengo não é uma opção que levante o interesse de muita gente. É algo que poderia servir inclusive aos atletas que treinam por lá, mas que ficou parado no tempo.

Só dar uma ajeitada na academia que existe por lá não vai resolver. Seria preciso repensar o espaço para ela, buscar outro conceito. Outro caso do tipo são os ginásios; há três por lá e nenhum deles tem condições de receber público pra valer ou sediar um evento que possa ser transmitido pela TV. O Flamengo monta bons times de basquete, mas na realidade atual não tem espaço para mandar seus jogos e o mesmo aconteceria se tivesse equipes competitivas de vôlei ou futsal. Por isso o caríssimo time de Marcelinho Machado e companhia passou uma temporada inteira jogando para gatos pingados na distante e desproporcional  HSBC Arena, antes de poder contar com o reformado ginásio do Tijuca Tênis Clube (pois é, o Tijuca está muito melhor servido que o Flamengo e ninguém nem estranha). Investiu-se em melhorias nos dois ginásios da Gávea onde estes esportes são praticados, as quadras ficaram bacanas e modernas, mas a questão não foi resolvida e não será mesmo naquele espaço; se quiserem que estas modalidades ganhem uma casa própria para jogar - que poderia inclusive receber shows e outros eventos -, vão ter que redefinir o conceito, construir algo realmente novo e talvez o que se gastou para ajeitar o que existia seja jogado fora.

Estes são só dois casos em que os sócios, os atletas e o mercado não estão sendo atendidos em necessidades atuais óbvias e nos quais não houve qualquer movimento para se dar uma solução. Dá pra citar muitos outros. Se eu quiser passar o dia com meus filhos no clube, por exemplo, a única opção para almoçar é um restaurante longe do razoável. Se alguém faz qualquer atividade física por lá e quer comer um sanduíche natural ou qualquer opção saudável que seja, não tem onde. O gramado de futebol, usado apenas para jogos da base e eventuais treinos recreativos do time adulto, faz com que uma enorme área em um dos metros quadrados mais caros do país seja desperdiçada. A vida social à noite não existe. Contrata-se nadadores de nível olímpico e eles não têm como treinar por lá.

A sede da Gávea fica em um terreno enorme, com localização privilegiada, cercado de gente de alto poder aquisitivo e com uma vista sensacional para um dos cartões postais do Rio de Janeiro. Seu potencial para atender os sócios, a sociedade e gerar dinheiro é enorme e encontrar parceiros dispostos a investir em negócios por ali não deve ser tão difícil com um bom projeto. Mas é preciso realmente pensar no que a sede, hoje, precisa atender o clube e o mercado e criar um novo planejamento para redesenhar muito do seu uso. Apenas ir ajeitando o que sempre esteve por lá, com uma visão restrita ao curto prazo, não será suficiente e, em muitos casos, representará desperdício de dinheiro e esforço.


* * * * * * * * * *

Outra questão está na maneira como estão sendo financiadas as melhorias na Gávea e os esportes olímpicos. Em 2009, o déficit da sede social e esportes amadores era de R$9,5 milhões; em 2011, saltou para R$16 milhões. Em 2010 havia sido ainda maior, de R$27,2 milhões. Ou seja: em dois anos, acumulou-se um prejuízo de R$43 milhões só nestas áreas.

Não é realista achar que a sede e os esportes olímpicos tornarão-se autossustentáveis de uma hora pra outra. Mas é preciso buscar parcerias e fazer um planejamento para ir diminuindo este déficit até que, em determinado prazo, o clube além do futebol consiga andar com suas próprias pernas. Não dá pra simplesmente sugar dinheiro de seu carro-chefe, especialmente se os resultados dentro de campo seguirem ruins. O efeito é que o torcedor, em vez de sentir orgulho de uma sede melhorada ou de um medalhista olímpico na natação, começa a ter raiva quando lê sobre estas conquistas, acreditando que é por isso que o time de futebol está patinando. Não é por outro motivo que chamam Patrícia Amorim, de forma pejorativa, de "presidente do parquinho", transformando algo que ela deve ver como uma conquista em um ponto fraco. Não é uma situação que possa se manter por muito tempo.


* * * * * * * * * *


Foi construída na Gávea a Arena Maestro Júnior, feita para atender ao futebol de areia (cuja administração foi entregue ao presidente do Conselho Fiscal, Capitão Léo, criando uma incômoda e mal explicada relação entre ele e a diretoria que deveria fiscalizar). Por lá, há também quadras de futsal com os nomes de Adílio e Júlio César, além de um espaço com churrasqueira próximo ao campo de futebol soçaite homenageando Nunes. Existe um busto para Carlinhos. A ouvidoria tem o nome do juiz Siro Darlan. Mais sócios beneméritos foram homenageados em outros espaços. Lembranças que podem durar menos são painéis com grandes imagens de Diego Hipólito ou de César Cielo. Tudo isso foi colocado por lá durante a gestão Patrícia Amorim.

Curiosamente, com tanta gente importante na história do Flamengo homenageada - anteriormente já haviam sido dados a pedaços da Gávea nomes de ex-atletas como Kanela e ex-presidentes como Hélio Maurício, Gilberto Cardoso e Fadel Fadel -, dá pra sentir falta justamente do maior de todos os ídolos rubro-negros. Ele mesmo já falou que não liga muito pra isso, mas não é mole encontrar por lá qualquer imagem de Zico ou menção ao seu nome.

Esquisitaço.

5 comentários:

Sasha Nejaim disse...

Perfeito.

Acho que é necessário fazer um grande projeto de reestruturação na sede da Gávea, pensado de uma forma onde o espaço seja aproveitado ao máximo em termos de lazer, mas pensando economicamente.

Pela localização que possui, é muito fácil encontrar parceiros que estejam dispostos a investir nas obras em troca de contratos de médio/longo prazo de exploração.

Exemplos:

1) No prédio onde ficam localizadas a loja, o museu, etc - que tem acesso direto da rua sem necessidade de carteirinha - é possível construir e arrendar espaço para restaurantes, com vista para a Lagoa. O Lagoon, logo ali em frente, funciona assim e fica MUITO cheio à noite. A contrapartida, além dos generosos alugueis, seria a obrigação por contrato a dar um desconto honesto para sócios (seriam novas opções de alimentação).

2) Do outro lado do clube, atrás da arquibancada do futebol, é possível construir uma infra-estrutura em 'boxes' para que pequenos bares se instalem (a exemplo de como funciona hoje a rua Nelson Mandela, em Botafogo, com bares como Shooters). Ao mesmo tempo em que funcionaria como extensão da Cobal em períodos normais, a rua poderia ser fechada para ser um novo 'point' para comemoração de títulos e etc. Isso dependeria também de conversa com prefeitura, etc - mas convenhamos, aquela rua em um domingo só serve pra fazer blitz da lei seca...

3) Infraestrutura para público em jogos de esportes amadores. Ao invés de 3 ginásios, poderia ter um poliesportivo de ponta com capacidade para cerca de 15 mil pessoas, capaz de receber jogos de basquete, vôlei, futsal, etc, além de receber shows. Isso daria um gás nas escolinhas e seria receita extra de bilheteria.

4) Academia: Alguma dúvida de que Bodytech, Cia Athletica ou a própria Estação do Corpo (que está no fim do contrato com o terreno ali na Lagoa) não tenham interesse em montar uma mega academia dentro do clube?? O público-alvo do Leblon é imenso...
O funcionamento poderia ser como é hoje (sócio-aluno), mas o flamengo abre mão de um pouco e faz o preço ficar competitivo. Aumentaria o número de sócios. Esse tipo de parceria ainda poderia ser estendido: quem explorasse a acamdemia na gávea teria obrigação contratual de equipar o CT de vargem grande com equipamentos de ponta.

Resumo da ópera: a Patrícia fez o básico, e fez mal feito (os banheiros ainda são lamentáveis e o parquinho da Gávea não é melhor que de 90% dos parquinhos de condomínios na Barra).

Com um pouco de criatividade - e sabendo levar as coisas sem perder a essência de clube - dá pra fazer MUITA COISA.

André disse...

André, todas estas idéias comerciais para uso dos espaço e terreno do clube do Flamengo são válidas e necessárias.

Contudo em muitas outras oportunidades alegou-se oposição dos moradores das vizinhanças e, se me lembro bem, até a impossibilidade de uso comercial da área por se tratar de terreno cedido pelo poder público para uso sem fins lucrativos.

Estas dificuldades realmente existem ? Estão buscando soluções para isto ou já se esgotaram todas as negociações com a vizinhança e o poder público? Neste caso esta área é simplesmente inviável economicamente e o que temos ali é na verdade um grande peso morto.

Abraço do seu xará!

Luis disse...

Eu e os outros 39 milhões de torcedores do Flamengo (e que compramos camisa, assinamos PPV, vamos ao estádio etc), que somos o principal ativo a ser explorado pela marca Fla, não temos muito interesse pelo parquinho reformado pela Patrícia (e nem pela ginástica olímpica e escolinhas de cuspe à distância, peteca, pelota basca etc).

Precisamos sim de um centro de treinamento e desenvolvimento de jovens jogadores de futebol, de um estádio/arena realmente nosso etc.

André Monnerat disse...

Xará, na verdade, como não existe um novo projeto-diretor pronto para a Gávea, não negociaram nada neste sentido com os moradores.

Existem os termos de cessão da sede que precisam ser consultados. O terreno foi cedido pelo Estado para fins "sócio-desportivos", o que é algo amplo. Tem que ver o texto.

Mas dificuldades existiram com os projetos de estádio/shopping. Isso sempre embarreiraram, com o argumento de não poderem dar uso "comercial" ao terreno (o que é diferente de não poder ter fins lucrativos...). No duro, o grande problema pra eles era o trânsito, atrair gente demais para a área, fora a tradicional vontade dos moradores do Leblon de se manterem "a salvo" do pessoal do resto da cidade.

Sasha Nejaim disse...

E na surdina, eis que surge:

migre.me/c7r7o

Flamengo e Brahma lançarão projeto do bar temático no Museu Flamengo
Bar da Nação será construído no terceiro andar da sede social rubro-negra, com vista para o Cristo Redentor e para a Lagoa