Patrícia Amorim anuncia: vai mudar completamente o modelo de gestão do Flamengo

A 5 meses do fim de seu mandato, a presidente avisa que prepara o que seria seu maior feito à frente do clube. Mas não está no país nem para iniciar o processo, sequer para anunciá-lo pessoalmente. Isto é Flamengo!



Nos últimos dias, correram rumores de que dois dos mais importantes vice-presidentes do Flamengo estariam prestes a perderem seus cargos, por pressões internas diversas: Paulo César Coutinho, vice de futebol, e Michel Levy, vice de Finanças. No caso de Coutinho, como o clube passou muito tempo sem alguém ocupando seu cargo e hoje o departamento é tocado pelo profissional Zinho, isso nem implicaria em uma mudança tão grande. Mas a queda de Levy, o homem com a chave do cofre, que cuida das contas e ao mesmo tempo viaja para contratar jogadores, significaria necessariamente grandes alterações lá dentro.

O clube está fervendo não só com esta situação, mas com o panorama do futebol, que correu sem sucesso para fechar alguma grande contratação antes do final da janela de transferências estrangeiras e, em seguida, demitiu seu treinador. No meio disso tudo, Patrícia Amorim viajou a Londres para acompanhar as Olimpíadas - algo que acho até razoável, dado o investimento que o clube faz em atletas destas outras modalidades, mas que ela antes havia dito que não faria porque seria sua prioridade acompanhar de perto o dia-a-dia do clube.

Pois bem: com Patrícia Amorim em Londres, o Conselho Diretor acabou de soltar uma nota oficial através do site do Flamengo. Começa justificando a presença da presidente na Inglaterra e explicando que, conforme o estatuto, o cargo passa a ser ocupado pelo vice-presidente geral, Hélio Paulo Ferraz. Em seguida, solta a bomba.

Enquanto Patrícia estiver fora, Hélio deve iniciar um processo de reformulação completa do modelo de gestão do clube, baseado em estudo da Accenture, uma das mais famosas empresas de consultoria em gestão do mundo. A ideia é que os vice-presidentes amadores trabalhem de forma colegiada na aprovação de metas e objetivos e na aprovação dos resultados de gestores profissionais, contratados no mercado para tocar o trabalho em cada uma das áreas do clube. Vai começar pela contratação de um Diretor Executivo de Controle e Finanças e deve evoluir para, no próximo ano (se esta diretoria seguir no comando, claro), a contratação de um CEO - um diretor geral, profissional, que comandará efetivamente a administração do Flamengo.

Ou seja: Michel Levy pode cair ou não, mas o trabalho que faz no dia-a-dia sairá das mãos dele (ou de quem ocupar seu cargo) para ficar a cargo de alguém contratado para isso - embora não esteja claro quando exatamente isso acontecerá (ou quem com algum nome no mercado toparia assumir isso aí neste cenário, em fim de mandato). E o plano é que isso vá acontecendo com cada uma das áreas do Flamengo.

Basicamente, é a proposta de mudança de modelo de gestão que propunha, por exemplo, a chapa Fla21, que lançou a abortada candidatura de João Henrique Areias à presidência do Flamengo em 2009. Que também é defendida hoje por diferentes grupos de sócios (como o Sócios Pelo Flamengo, de que participo) e não-sócios, que torcem para que o clube dê o passo à frente necessário. E que também era bandeira, ainda que de forma meio genérica, da própria Patrícia Amorim durante sua campanha nas eleições passadas - mas que não foi efetivamente posta em prática até agora, a 5 meses do fim de seu mandato.

Pois agora avisam que vai acontecer. E justamente quando a presidente está fora do país, sem poder sequer anunciar pessoalmente o que seria o maior feito de sua gestão - e deixando o início do processo na mão do vice, com quem briga e faz as pazes ciclicamente desde 2009. Mas tomara que aconteça, e que a ideia seja bem implementada. Dá pra acreditar?

Imagino que seja algo a ser comemorado. E, ainda assim, não consegui até agora decidir o que acho ou o que espero disso.

É impressionante como o Flamengo sempre consegue te surpreender.


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Ano de eleição...

15 comentários:

Raphael Perret disse...

Dúvida administrativa: essa proposta já pode ser implementada ou precisa ainda ser aprovada pelo Conselho Deliberativo?

André Monnerat disse...

Raphael, não tem nada no estatuto que impeça. O ideal é que o estatuto obrigasse a ser assim, mas ele ao menos não impede. Pode ser implementada quando quiserem, depende só da vontade de quem estiver ocupando os cargos no Conselho Diretor.

João disse...

Sinceramente: me soa a medida de desespero pra tentar se segurar no cargo. Se as coisas degringolarem de vez e o time cair pra 2ª Divisão, Pat não quer perder a boca e isso vai ser um álibi pra dizer que agora vai mudar o clube. Ano que vem volta a ser tudo igual. Mas torço pra que ela perca as eleições.

Murdock disse...

Totalmente off topic mas acho os links do site difíceis de diferenciar do resto do texto. Não sei se é só comigo.

Eduardo H. Costa disse...

Eu não acredito que a atual presidenta que não entende nada de futebol seja reeleita.

Meio tarde essa "sacada". Se ela(ou eles) tivesse feito isso no início do mandato, teríamos tempo o suficiente para checar a eficiência deste projeto que aparenta ser a coisa mais plausível e racional no atual cenário do CRF.

George AFG disse...

Tem certeza André Monerat??? O modelo apresentado na prática tira funções que são atribuídas no Estatuto aos vice presidentes amadores no art. 131, diga-se, é até discutível a contratação de um diretor de futebol com poderes plenos justamente por conta disso. Como não estou nem de longe por dentro de como a questão é interpretada dentro do clube, deixo o questionamento, mas prefiro, por hora, não firmar posição. SRN.

André Monnerat disse...

Tenho certeza sim, George. Como falei, depende apenas da vontade de quem está no Conselho Diretor.

O artigo 133 já cria a figura dos diretores, aos quais competem "desempenhar as funções que lhes forem atribuídas pelos vice-presidentes". Ou seja: os vice-presidentes podem atribuir a eles a função que quiserem, dentro de suas áreas.

Por isso, como falei, a implementação depende da vontade de quem estiver no Conselho Diretor. Eles podem fazer, mas não são obrigados. Se no meio do caminho resolverem mandar um diretor embora e tocarem as coisas eles mesmos, nada impede.

George AFG disse...

André sim, mas a proposta cria um órgão NOVO, uma função NOVA (CEO) no clube à revelia do Estatuto, e esvazia de vez as funções desses vices, não trata-se de mera delegação (como bem citado por vc prevista no art. 133, II e III (mal escritos frise-se)) e sim de renúncia prática total dessas funções, por isso questiono acerca da interpretação q o clube da à situação. Parece inseguro fazer essas mudanças sem alteração do Estatuto.

George AFG disse...

De qualquer forma se algo assim for feito (bem, não acredito na Paty, mas vai saber né), e só depois for alterado o estatuto (até como garantia perante gestões futuras), estamos no lucro. SRN

André Monnerat disse...

Olha, George, eu sou bem convencido de que não há nada no estatuto que impeça, e a realidade atual já demonstra isso. Na prática, o futebol já está entregue a alguém remunerado pra isso na maior parte do mandato da Patrícia e ninguém contestou - em boa parte do tempo, nem VP de Futebol nomeado houve. Com o Marketing, isso (ter um profissional responsável pela área) acontecia desde o mandato anterior. São áreas de enorme visibilidade dentro do clube.

O cargo do CEO pode até dar um pouquinho mais de trabalho para justificar, mas não é impossível. O que vai acontecer é o Presidente ter que assinar por todas as decisões do cara.

A questão é que realmente depende da vontade de quem está lá. Se quiserem, mudam a qualquer momento, metem a mão no trabalho dos profissionais, enfim.

Urubuzada em Blumenau disse...

André, essas ideias são defendidas com muita propriedade pela chapa Revolução Rubro-Negra do candidato deste ano à eleição, Affonso Romero. Aliás, seu ótimo blog poderia comentar o também excelente programa de gestão deles (de longe, com as melhores ideias dentre todos os candidatos).

Sobre a nota oficial, a grande questão aqui é a óbvia e comprovada inépcia da atual diretoria para fazer qualquer coisa de grande envergadura com qualidade. São ótimos para consertar o parquinho, pintar a Gávea, mas nós estamos no último semestre de gestão e todas as grandes questões do clube até agora acabaram em retumbantes fracassos. Mesmo no campo dos esportes olímpicos, preferência declarada da mandatária, sofremos derrotas inapeláveis e humilhantes, coisa que no futebol já estamos até nos acostumando depois desses dois anos e meio. Precisamos de pessoas com expertise para promover essa necessária mudança - algo que os integrantes da chapa Revolução Rubro-Negra parecem realmente ter e algo que a atual gestão, definitivamente, não tem.

Eduardo disse...

Isso está parecendo claramente um ato eleitoreiro.
Como aquela teta deve ser boa.

Régis Marra disse...

Eu não apostaria que essa direção do Flamengo siga com a firmeza necessária para por em prática essas mudanças. Isso seria a medida mais importante feita no clube nos últimos tempos. Mas essa diretoria com certeza não vê assim, senão não faria esse anuncio em uma nota no site, iniciando as medidas com o vice presidente e com a presidente bem longe do clube.

lussiannosousa disse...

Lembro que no começo do mandato ela tentou contratar o Brunoro, mas ele não aceitou. E acredito que a maior dificuldade nem é aceitar esse modelo, e sim achar quem tope trabalhar nele. Vamos torcer que der certo. E realmente essa foi de surpresa. Nem os setoristas que sabem até a cor da meia que os caras usam nas reuniões adiantaram essa. Talvez o motivo de não ter vazado possa ser pq o modelo/ideia foi apresentada pelo próprio Hélio - que andava afastado - e caberá a ele falar sobre nos próximos dias.

PS.:será coincidência essa medida vir logo após os comentários da reunião de um grupo de empresários em SP pra lançar um nome nas próximas eleições do Fla??

Marcos André Lessa disse...

André, não me engano: esse tipo de anúncio é igualzinho à manobra de Kleber Leite pra ser reeleito em 98, qdo contratou Junior pra técnico e Leandro pra gerência de futebol. Só pra fazer aquele agrado na torcida e garantir votos. Agora, soa a chantagem: "se não me reelegerem, todo esse processo de modernização esperada vai morrer". No começo do mandato Patricia tinha todas as condições pra implementar isso, pq resolve fazê-lo só no final? Só acredito vendo.