Parabéns ao Coritnhians, que fez tudo certo para ganhar a Libertadores

Ao contrário de certos outros clubes por aí...


Passei o recibo antes do jogo: torceria contra. Mas não deu. O Corinthians fez mesmo tudo o que precisava para conseguir sua primeira Libertadores. E não falo apenas do jogo de ontem, óbvio. Até porque a campanha vitoriosa foi bem mais ameaçada nas quartas-de-final, quando o Vasco teve uma chance real de se classificar, do que nesta partida final.

No duro, o Boca conseguiu menos do que eu poderia imaginar. Fez Cássio precisar defender uma única bola, num chuveirinho no segundo tempo, e só. O Corinthians também não precisou de tanto: tirando os dois gols - um em uma jogada estranha, sobra de bola aérea, e outro numa entregada feia da defesa argentina -, não lembro de outra boa chance de marcar. Mas o time de Tite mostrou as suas maiores qualidades na campanha a partir do momento em que ficou em vantagem, logo no início do segundo tempo: uma defesa intransponível e a tranquilidade para manter o jogo no ritmo que lhe interessava.

Quando escrevo que o Corinthians fez tudo o que precisava para conseguir sua primeira Libertadores, começo por aí: a tranquilidade dos jogadores. A diretoria entendeu que, com a pressão que sempre houve por lá quando se tratava de conquistar o título sul-americano, precisava de jogadores cascudos, experientes, capazes de segurar a onda mais do que a média. Montaram um elenco assim, com três campeões de Libertadores, outros tantos com muitos jogos pesados nas costas e o lamentável Emerson Sheik, lamentavelmente sempre decisivo.

Mas as contratações certeiras não se limitaram a este tipo de jogador. Leandro Castán e Ralf vieram do Barueri, Paulinho e Romarinho do Bragantino. Não sei exatamente qual é o método que usam para escolher jogadores de clubes menores, mas obviamente está dando certo. Devem ir além de olhar lista de artilheiros de determinado campeonato e chamar o de time pequeno que estiver mais em cima, como certos clubes por aí.

E é impossível não citar que o que aconteceu ontem tem muito a ver com a Libertadores do ano passado, em que o Corinthians caiu antes mesmo da fase de grupos e, ainda assim, manteve seu treinador. Não sou daqueles que acha que demitir técnico em meio de temporada é sempre errado. Mas segurar um cara no fim de um ano para demiti-lo depois de apenas dois ou três jogos pra valer no seguinte, desperdiçando tudo o que foi feito no período de planejamento e pré-temporada, é atestado de incompetência.

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É óbvio que tudo isso é fruto de um processo que começou quando o Corinthians se preparou para sair da Série B do Brasileiro. Discuta-se as manobras políticas, na CBF ou em Brasília, para conseguir benefícios. Discuta-se a lamentável estratégia de negociar sozinho seu contrato de TV, algo comemorado também na Gávea, mas nocivo ao futebol como um todo. Mas fato é que o Corinthians conseguiu resultados expressivos fora de campo em um tempo relativamente curto.

Mudou seu jeito de vender ingressos e tornou-se de longe o time que mais arrecada com bilheteria no país, mesmo jogando em um estádio não tão grande - imaginem como será quando inaugurarem seu novo estádio, próprio, maior e mais moderno. Criou um programa de relacionamento firme com seus seguidores e fez, nas duas últimas partidas decisivas em que teve o mando na Libertadores, com que todos os ingressos fossem vendidos rapidamente apenas a Fiéis Torcedores (e discute-se internamente agora transformá-los em sócios mesmo, com direito a voto). Construiu seu CT. Formou o que talvez seja o melhor departamento de marketing de um clube brasileiro. E por aí vai.

Com certeza também erra bastante e não precisa ser encarado como grande modelo. Mas é bom que a concorrência preste atenção: o que o Corinthians vem fazendo fora de campo gerou nos últimos anos, dentro dele, um Paulista, uma Copa do Brasil, um Brasileiro e uma Libertadores. Uma sequência crescente. Isso está acontecendo em um momento em que, apesar de se falar tanto da recuperação do Rio, a mídia paulista prevalece no país com uma força que nunca se viu. Basta dizer que, depois de décadas tentando, o sertanejo finalmente pegou entre os cariocas (nada contra quem gosta, é apenas uma constatação). E se quem não é rubro-negro no Rio reclama da atenção que a imprensa carioca dá ao Flamengo, lá em São Paulo a concentração é muito mais intensa, o que potencializa a coisa toda - como pudemos ver nos últimos dias, na expectativa pela partida de ontem, e com certeza poderemos observar nos próximos. Sem falar no que vem por aí, quando estiverem indo disputar o Mundial.

Do jeito que a coisa vai, quem quiser fazer frente ao Corinthians nos próximos anos precisa se mexer. E seria inteligente pensar não apenas no que fazer dentro de seus clubes, mas também no modelo de mercado que temos hoje no futebol brasileiro e no que isso pode dar no longo prazo.

Enfim: parabéns ao Corinthians, que fez seu trabalho bem feito e chegou onde mereceu.

4 comentários:

Freire disse...

O que me preocupa é constatar que, enquanto eles crescem rapidamente, o Flamengo continua estagnado, regredindo até.

Há quase uma década, o Corinthians vem forçando a barra e superfaturando números para se autodenominar o clube de maior torcida do país, ou pelo menos dar a ideia de que estão muito próximos do Flamengo - uma faixa enorme estendida com frequência Pacaembu estampa os dizeres "nação de 30 milhões", em usurpação descarada do termo clássico dos rubro-negros.

E olha que isso é bobagem em comparação com as manobras políticas com CBF e governo. Mas, como você disse, os caras também têm méritos. Parabéns pra eles. E, se os manda-chuvas do Flamengo não cortarem as bravatas e começarem a trabalhar sério, tudo isso vai se tornar realidade.

Luis disse...

Nao dou 2 anos para o Corinthians passar o Mengão em torcida. Ou menos do que isso. Com a ajuda da Globo SP, parceiros de marketing e a incompetência da diretoria do Flamengo, fica mais fácil ainda.

Também comecei "torcendo" para o Boca, mas os caras são fracos, batem demais e o Corinthians fez de fato tudo direitinho durante todo o torneio. Mas apesar dos gols, o Emerson é um babaca.

flages disse...

É, Luís, desse jeito vai passar mesmo, infelizmente.
Torcida se conquista, é marketing também.
A garotada nova, como também já foi quando eu era criança, quer se identificar com vitórias, conquistas ou, caso não seja possível, pelo menos orgulho, heroísmo, coragem, honra.

O que o Flamengo anda oferecendo nos últimos anos é vergonha. Ganhou um Brasileirão em 2009. Mas é pouco. Pois ninguém gosta de torcer por um clube cujos dirigentes são tão incompetentes que não sabem aproveitar a força desta torcida, e deixam que o clube ganhe que o estigma de caloteiro, transformem o clube em uma baderna, no qual jogam vagabundos, e até um suspeito de assassinato (para usar o termo politicamente correto).
Mesmo que muitas vezes o clube não tenha culpa, porém, como ouvi em uma empresa em que trabalhei, "não basta ser honesto, também é necessário parecer honesto".

A criançada quer se identificar. A torcida longe do Rio só vai se identificar com um Flamengo honrado, lutador, respeitado e respeitoso, e, melhor ainda, glorioso.

Moro nem Porto Alegre, meu filho torce pro Inter e minha filha pro Grêmio, com que cara eu poderia convencê-los a torcer por um time que está a 1600 km de distância e que tem o estigma de caloteiro, abrigo de vagabundo e assassino ?

Infelizmente é isso. Acho que futebol também é marketing. E em marketing, se colhe o que se planta.

André disse...

Assino embaixo a posição do FLAGES acima.

Como ele morei por 15 anos em Porto Alegre e assisti a reconstrução do Inter que estava praticamente morto na década de 90 e início da 2000 e hoje é essa potência que ganhou 2 libertadores e 1 mundial em pouco tempo.

Assiti a implantação com ABSOLUTO sucesso do novo programa de sócios que está na faixa dos 100.000 pagantes em dia.

Junto a isto assisti também a um caminho semelhante trilhado pelo Grêmio que 1 anos após o rebaixamento para a segundona estava em uma final de Libertadores contra o BOCA com um Riquelme mais novo e em ótima fase técnica. Assim como o Inter implantou um programa de sócios com sucesso e deve ter algo em torno de 40.000 a 60.000 sócios pagantes.

Isto tudo eu VI. Não foi o que me contaram ou o que saiu na imprensa. Eu PRESENCIEI o renascimento destes 2 times.

Fora do RS também assistimos ao crescimento do CORINTHIANS, FLUMINENSE, CRUZEIRO...até o Vasco recentemente tem agregado um bom programa de sócios e organizado bons times de futebol com crescimento sustentável.

Nestes 15 anos em que estes times citados cresceram absurdamente o que o Flamengo conseguiu crescer??? NADA !!! E ainda produziu INÚMEROS casos vergonhosos e suas manchetes são de 60 a 80% negativas.

Devemos e não pagamos. Contratamos jogadores em fim de carreira por idade ou por falta de compromisso profissional. Ainda hoje temos apenas um CT improvisado.

Eu paguei o meu tijolinho e tenho que ver na imprensa que AGORA botaram os primeiros tijolos.

O líder do conselho fiscal é um conhecido líder de torcida organizada que ....deixa para lá.

Desde que me conheço por gente já vi serem campeões da Libertadores: São Paulo (3), Palmeiras, Santos, Corinthians, Vasco, Grêmio, Inter(2) e o Flamengo nem em semi-final chega...

Também vi inúmeras equipes jogando futebol organizado e bonito e sinceramente eu não me lembro de nenhum time do Flamengo jogando 10 partidas de forma realmente organizada.

Emfim...estamos assistindo a morte do Flamengo, como clube, time e torcida...