Agora é Zinho

Torçamos para que ele não esteja entrando em uma enorme roubada.


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Depois da novelinha de praxe, hoje Zinho foi confirmado oficialmente (ou extraoficialmente, já que enquanto escrevo ainda não saiu no site do clube) como Diretor de Futebol do Flamengo. Torço muito pelo cara, acho que a escolha não é ruim a priori, mas a chance de não dar muito certo é grande.

Está claro que o Flamengo estava precisando de alguém para assumir o departamento. Há um tempo atrás anunciou-se a contratação de Jairo dos Santos, ex-olheiro da CBF, como se fosse "o novo executivo do futebol do Flamengo", mas logo se viu que não era por aí. Não é ele que responde pelo futebol no clube, mas também não é o vice-presidente de futebol, Paulo César Coutinho - ou, ao menos, não só ele. Cascão, quando fala das coisas de seu departamento, parece não ter mais autoridade que Walter Oaquim (vice de "relações exteriores" ou algo assim) ou que Michel Levy (vice-presidente financeiro), dois que em tese deveriam cuidar apenas de outras áreas. A própria Patrícia Amorim muitas vezes dá declarações como se trabalhasse diretamente em contratações e coisas do gênero e, claro, ainda há Joel Santana, que ultimamente andou deixando de dar treinos no campo para ter reuniões seguidas nos bastidores. Com tanta gente mandando, ainda lemos declarações de jogadores falando que estava faltando gente para efetivamente assumir as responsabilidades e lidar com o elenco. Como é que pode?

Algum jeito tinha que se dar nesta situação. Infelizmente, não está com muita cara de que a chegada de Zinho represente esta solução. Paulo César Coutinho, por exemplo, já andou falando à imprensa que a chegada de um diretor profissional seria boa para "desafogá-lo um pouco", pois estava tendo que cuidar de muita coisa. Quer dizer: o que parece é que Zinho não terá autonomia para efetivamente assumir o futebol do Flamengo. Os dirigentes amadores devem continuar apitando, e bastante, no dia-a-dia do trabalho. O que não é bom.

Com tanto cacique em volta, em um ambiente de confusão política e falta de dinheiro, é difícil que o trabalho de qualquer um ali dê certo. O que não quer dizer que ele não vá ser muito cobrado pelos resultados. Seria mais justo se, para que essa cobrança aconteça, lhe dessem condições de realmente fazer o que achar melhor - algo que, na verdade, já seria mesmo complicado de acontecer entrando em meio de temporada, com um orçamento apertado e totalmente comprometido.

Enfim, tomara que dê certo e entendo os motivos para ele apostar nisso, ainda mais se realmente já pensava em seguir nesta carreira. Mas Zinho está embarcando em algo com um potencial gigantesco para se transformar em uma tremenda furada.


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Antes mesmo dele ser confirmado para o trabalho, li por aí diversas críticas à escolha de Zinho por sua falta de experiência na função. Entendo quem pensa nisso - o Flamengo, com o tamanho que tem, não deveria ser para iniciantes -, mas também acho que é algo difícil de se exigir.

O motivo é bem simples: há muito pouca gente no mercado com experiência em de direção de futebol, trabalhando profissionalmente no Brasil e com resultados de respeito no currículo. Tirando Rodrigo Caetano, que não à toa é disputado a tapa, você conseguiria listar, digamos, três nomes que seriam escolhas com razoável grau de certeza? Eu não consigo - até porque grande parte dos clubes por aí seguem nas mãos de voluntários apaixonados por seu time e estes, mesmo que façam belos trabalhos, não se tornam opções para outros que queiram contratar alguém para a sua direção.

O que se espera hoje em dia é um perfil difícil de encontrar: o cara tem que ter experiência como bom negociador, bom administrador, grande entendedor do jogo, ótimo observador de técnicos e jogadores. E, claro, seria bom se estivesse disponível e não cobrasse caro demais. Fácil? Não, e ainda mais para assumir o Flamengo de hoje, com todas as incertezas que o cercam e que são amplificadas em ano de eleição.

Zinho viveu no mundo do futebol muito tempo e entende a relação com jogadores, técnicos, empresários e dirigentes. É um cara articulado e já iniciou sua vivência nos bastidores, ainda queum clube de expressão infinitamente menor que a do Flamengo. Em um mundo ideal, ele deveria começar em uma função de menor responsabilidade ou, ao menos, contar com uma estrutura de apoio bem montada ao seu redor para ajudar nas escolhas técnicas, jurídicas, financeiras, logísticas. Mas não é assim que funciona hoje em dia e ele ao menos tem as características para se desenvolver neste perfil de profissional.

Além disso, tem identificação com o Flamengo. E eu não vejo nada demais em que isso seja um dos critérios para contratar alguém para trabalhar lá.


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Houve um erro grande no momento da contratação de Zico, em 2010: não resolveram de maneira realmente definitiva e clara para todos o conflito de interesses óbvio que havia em torno da parceria do clube com o CFZ. Não discuto agora se aquele acordo era bom ou não para o clube, acho que provavelmente era, mas é lógico que fica complicado colocar o mesmo cara para dirigir o Flamengo e ser presidente de honra (ou coisa assim) do outro lado. Se trocassem na mesma situação o nome de Zico por, digamos, Kléber Leite, todo mundo ia achar esquisitaço. E isso gerou um espaço para atuarem os que se sentiram incomodados com a presença dele na direção do futebol.

Pois bem: Zinho é sócio-fundador do Nova Iguaçu. O Flamengo está neste momento estudando a contratação de um jogador de lá, o volante Amaral. E ano que vem os dois times estarão jogando o mesmo campeonato estadual. Pode ou não pode gerar discussão algo assim?

É bom tentar evitar problemas desde já.

Um comentário:

André disse...

Todas estas confusões, infelizmente, são o Flamengo.

Tudo nas coxas.

Por isso os jogadores treinam nas coxas e jogam nas coxas.

E eu ainda torço por este time...