Com quantos volantes o Flamengo tem jogado? Uma análise tática dos últimos jogos do time de Joel

Pra quem achou ruim a entrada de mais um volante no jogo de ontem, vale o aviso: o Flamengo já vinha jogando antes com três volantes, por mais que a escalação sugerisse o contrário.



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(Um aviso desde já: o texto é meio longo. Mas tem figuras pra aliviar um pouco.)

Joel Santana tinha muitos desfalques e não era mesmo fácil escalar o time para o jogo de ontem, contra o Friburguense. Mas a volta de Willians ao time fez muita gente reclamar que ele tinha "voltado ao esquema de três volantes". Na verdade, pouca coisa mudou em termos de esquema em relação à equipe que havia começado as duas partidas anteriores, contra Fluminense e Olímpia. Em ambos os jogos, o Flamengo já tinha entrado em campo com três volantes, embora a simples leitura da escalação talvez sugerisse outra coisa.

Este aí embaixo é o desenho de como enxerguei o time do Flamengo quando estava sem a bola, lá no Engenhão, no primeiro tempo da partida contra o Olímpia:


Reparem que, embora seja conhecido como "meia", Bottinelli se colocava para marcar como um volante pela esquerda, da mesma forma que Luiz Antônio fazia pelo outro lado. Contra o Fluminense, o esquema era o mesmo, mas com Kléberson sendo um dos volantes. Na realidade, embora eu não tenha visto jornal ou site algum escrevendo a escalação desta forma, o Flamengo entrou nas duas partidas em algo próximo de um 4-3-3, em que os três do meio se posicionavam como volantes.

E foi mais ou menos assim que o time se colocou ontem, contra o Friburguense:


A diferença no esquema é que Bottinelli, que nesta partida foi para o lugar do suspenso Ronaldinho, não ficava lá na frente, como um atacante - voltava um tantinho mais para o meio-campo, deixando Thomás e Diego Maurício como dupla de ataque mesmo. Mas, de resto, a formação era mais ou menos a mesma que vinha jogando.

Em nenhum dos três jogos o time esteve realmente bem ofensivamente enquanto atuou assim. Há um problema aí: por mais que três jogadores entrem só para atacar, quase sem função defensiva, a distância entre eles e os demais é muito grande, pois o resto do time se coloca muito atrás. Falta gente entre os da frente e a defesa para fazer a transição para o ataque (e Bottinelli não esteve bem contra o Friburguense para fazer este papel). O esquema pressupõe que os dois volantes abertos se revezem no apoio, transformando-se em meias quando o time tem a bola; mas como eles se colocam muito recuados quando o adversário está atacando, acabam levando tempo demais para conseguirem encostar nos atacantes e, até lá, muitas vezes a bola já foi perdida. No início de cada ataque, é muito pouca gente no campo adversário para conseguir criar alguma coisa e a equipe fica dependente de lances individuais.

(É bom dizer que esta distância grande entre meio e ataque é característica dos times de Joel. Não é à toa que tanto se falava da "importância tática" de Souza no Flamengo de 2007-2008; ele era responsável por receber as bolas longas de ligação direta que vinham da defesa e, com seu corpo, protegê-las e segurá-las de costas para o adversário até os homens de trás chegarem. No Botafogo de 2010, especialmente do primeiro semestre, a solução era um pouquinho só diferente: as bolas eram alçadas de muito longe para Loco Abreu que, na altura da meia-lua, ajeitava de cabeça para quem vinha chegando. Também é bom lembrar que o Flamengo do ano passado, com Ronaldinho, Deivid e Thiago Neves muito longe dos três volantes que Luxemburgo escalava, tinha o mesmo defeito.)

Nestas três últimas partidas, o melhor momento do time foi o segundo tempo contra o Olímpia - antes do apagão, claro. Naquele momento, o comportamento do time sem a bola mudou um tantinho, mais ou menos assim:


Quando o Flamengo retomava a bola, Thomás continuava avançando pela direita como um atacante. Mas, sem ela, em muitos momentos recuava para marcar no meio-campo. Ao mesmo tempo, os demais do setor - Muralha, Luiz Antônio e Bottinelli - avançaram sua marcação, formando com Thomás uma linha de quatro que já se colocava bem mais próxima de Ronaldinho e Love. O bloqueio formado diminuiu os espaços do Olímpia, dificultou sua saída da defesa e fez com que o Flamengo retomasse a bola normalmente com ela já mais à frente. Isso facilitou a aproximação dos jogadores e fez com que Luiz Antônio e Bottinelli conseguissem participar bem melhor dos lances de ataque. E, com mais companhia (e mais opção de jogada), a atuação de Ronaldinho melhorou muito. Claro, não foi só a parte tática que causou aquela boa atuação - como escrevi após a partida, os jogadores mostraram naquele momento uma tranquilidade com a vantagem no placar que não vinham tendo até então e a simples vontade de Ronaldinho jogar ou não faz diferença -, mas também influiu.

A moral da história: independente da escalação, o posicionamento dos jogadores está fazendo a diferença nas atuações do Flamengo. Quem só lê quem vai entrar em campo no jornal até acha que está mudando a quantidade de atacantes, volantes e meias de um jogo pro outro, mas na prática isso não tem acontecido tanto assim.


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Então isso quer dizer que não faz muita diferença colocar um Willians a mais no meio-campo, no lugar de outro jogador em tese mais ofensivo, porque o esquema continua o mesmo? Não é bem assim.

O esquema pressupõe que os dois volantes abertos avancem e se tornem meias, revezando-se, quando o time tem a bola. Este apoio não é efetivo como deveria ser, porque eles partem muito de trás, mas acontece e é importante para o time conseguir criar alguma coisa de vez em quando.

Mas, pra funcionar melhor, é importante que estes jogadores saibam não só passar, mas também enxergar bem o espaço que aparece à sua frente e se movimentar, vindo de trás, para receber a bola na frente, como um meia precisa fazer. Willians, qualidade técnica com a bola nos pés à parte, só sabe jogar de volante mesmo - não sabe se colocar para receber o passe à frente da linha da bola, mas apenas dar opção de passe por trás de quem está com ela. Ele até tem físico e disposição para aparecer como elemento surpresa carregando a bola a partir da defesa, quando percebe uma abertura para isso; mas não é jogador pra já recebê-la na frente, simplesmente não sabe aparecer para isso.

No texto sobre o Fla-Flu, citei que uma das maiores qualidades de Kléberson é justamente essa: saber ultrapassar a linha da bola pra receber à frente, muitas vezes no espaço vazio. Não é à toa que, em dois jogos, apareceu duas vezes dentro da área para fazer os gols. Mas não só ele: Bottinelli e Luiz Antônio igualmente souberam ter esta movimentação para marcarem os seus, contra o Olímpia. Têm uma vocação ofensiva que Willians, não adianta, nunca vai ter.

Por isso não deu pra entender por que, contra o Friburguense, o time insistiu tanto em atacar com ele. Mas foi bom ver que, quando quis tirar um volante para deixar o time mais ofensivo, Joel o escolheu para sair, e não os garotos Muralha e Luiz Antônio.

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Muita gente atribuiu o empate contra o Olímpia a uma fragilidade na marcação no meio-campo, por não haver em campo, por exemplo, um Willians. Este jogo de ontem mostrou que não é por aí. Mesmo com ele em campo, o Friburguense teve muitas chances mesmo de fazer seu gol. Foi uma partida em que o Flamengo talvez pudesse até ter feito mais gols, mas também poderia ter sofrido uns dois ou três.

7 comentários:

alexandre disse...

E vendo esses jogos dá para perceber como o Galhardo é fraco, ruim no apoio e lamentável na defesa. Agora, o time vencer com um gol do Kléberson recebendo assistência do Paulo Sérgio é sinal de que algo está muito errado

André Monnerat disse...

Concordo sobre o Galhardo, Alexandre. Este último jogo ainda foi o melhorzinho dele no apoio. Mas o cara marca mal demais, parece que nunca jogou de lateral na vida.

Luis disse...

O Flamengo tem um problema crônico de saída de bola e de ligação com o ataque, em parte por causa do que vc escreveu acima, mas também por problemas de "fundamentos" - é incrível como os caras ficam anos nas divisões de base e não conseguem dar um passe de 5 metros.

Charles Amorim disse...

Perfeita explicação. O time que enfrentou o Olimpia é o ideal, talvez com Willians no lugar do Muralha pra jogar fixo no meio, sem cair pelos lados pra sair pro jogo.

É a 4ª partida que vejo do Thomas esse ano, e nao gostei dele em nenhuma. Nao sei pq o futebol dele caiu tanto.

Armaria o meio com o WIllians fixo no meio no lugar do Muralha. E nos lados, Bottinelli e Luis Antonio.

E na frente o trio de ataque, R10/Love/Thomas.


* Willians tem um poder de marcação bem maior que o Muralha, mas o 2º sai jogando melhor. É uma duvida essa posição.

* Pena o Kleberson nao esta inscrito nessa primeira fase.Se estivesse escalaria no lugar do Thomas, pra fazer justamente essa transição do meio pro ataque.

Tiago Cordeiro disse...

Concordo, André. A escalação tem dado três volantes mesmo, mas se você escala três meias e um atacante, o "terceiro volante" vai ser bem mais eficiente com a bola no pé.

Eu acho que o Joel precisa mesmo manter algo por aí e ajeitar a defesa. Com uma defesa forte é esperar que os três meias e Love se virem pra resolver, já que taticamente não vai rolar algo melhor que isso com o Joel.

André Monnerat disse...

Bom, não rolou algo muito diferente disso aí em um ano e meio de Luxemburgo também...

Gabriel Casaqui disse...

Caros flamenguistas,

Nosso blog está promovendo a seção "análise de elenco", na qual destrinchamos os 20 clubes que participarão do Brasileirão-12, em duas postagens semanais, até o início do campeonato.

Hoje a bola da vez é o Flamengo.

Convidamos todos a acompanharem nossa análise e registrarem sua opinião, que é muito importante para nós.


Abraços.
Gabriel Casaqui
http://obotecoesportivo.blogspot.com.br/2012/03/analise-de-elenco-flamengo.html
@botecoesportivo