A lição do Barcelona a Muricy

O melhor time do Mundo é difícil de ser imitado, mas tem muito a ensinar aos demais. Mas só a quem quiser aprender.


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Não escrevi por aqui sobre minha expectativa para o Barcelona x Santos de hoje, mas aconteceu mais ou menos o que eu esperava mesmo: o Santos não teve a menor chance, não deu nem pro começo. Pelas entrevistas pós-jogo, acho que até os jogadores santistas estavam na mesma: levaram de 4x0 e ninguém falou que "estivemos num dia ruim", "nada deu certo" e outras frases do tipo que costumamos ouvir após uma goleada. Acharam tudo muito normal.

E foi mesmo. Claro, o Barcelona é o melhor time do mundo, costuma dar exibições em cima dos melhores times europeus (embora não seja invencível - tanto que perde de vez em quando...). Mas o resultado não foi normal apenas pela qualidade do Barcelona, mas também pelo que é o time do Santos, que não estava mesmo à altura da missão que tinha pela frente. Eu botava bem mais fé, por exemplo, no Internacional do ano passado - que acabou caindo para o Mazembe, coisas da vida.

Este Santos, meus caros, simplesmente não é um bom time. Poderia ter sido, montou elenco pra fazer algo interessante. Tanto que tínhamos toda aquela expectativa na época daquele épico Santos x Flamengo na Vila Belmiro. Mas não cumpriu.

Antes daquela partida, o Santos de Muricy ganhou a Libertadores sempre na retranca, dependendo totalmente da individualidade de Neymar. E não dá nem pra dizer que se defendia bem, pois o goleiro Rafael frequentemente era eleito o melhor em campo. E, depois daquele jogo, Muricy não teve convicção pra manter a aposta no meio-campo ofensivo que se desenhava com Arouca, Íbson, Elano e Ganso. O time vagou perdido pelo Brasileiro, sem nem disputá-lo direito, nem se preparar para o confronto com o Barcelona - tanto é que, hoje, entrou em campo com um esquema que nunca tinha usado durante o ano. Que preparação foi essa?

O Santos foi hoje pro jogo sem nenhum plano para tentar vencê-lo. Simplesmente empilhou zagueiros e volantes e ficou torcendo em campo pro Barcelona pegar leve. Talvez tivessem algum devaneio de que Neymar pudesse resolver em um lance individual isolado. Mas Neymar mal pegou na bola, diante dos mais de 70% de posse de bola do Barcelona. E, quando pegou, não jogou com a naturalidade que tem aqui no Brasil. Me parece mesmo que, assim como costuma acontecer com ele na Seleção, voltou a sentir o peso de precisar se afirmar internacionalmente. Mas ele é novo e joga muito, tem tempo pra isso.

O Barcelona não teve nada com isso, foi lá e fez o dele. Deu mais uma mostra de que dá pra pensar futebol de forma bem diferente que boa parte dos técnicos daqui. Já aconteceu deste time entrar em campo até mesmo sem nenhum zagueiro de origem! Não sei o quanto dá pra imitar o que eles fazem, a não ser com um trabalho realmente de longo prazo, mas dá pra tirar muitas lições. O próprio goleiro Rafael, do Santos, poderia ter aprendido uma: enquanto ele dava chutões pra frente toda vez que a bola lhe chegava, facilitando a vida do Barça em recuperar a posse de bola e voltar a trocar aqueles passes insistentes, Valdés sempre saía passando nos pés de algum companheiro. É o tipo de coisa simples que mostra a diferença de filosofia dos dois times.

Pois bem: após o jogo, Muricy foi perguntado na coletiva exatamente sobre o que ele poderia ter aprendido hoje com a "aula de futebol" que se viu - definição dada por Neymar. E o treinador brasileiro preferiu não falar da qualidade do passe, da movimentação constante dos jogadores para dar opção de jogada aos companheiros, da marcação sem medo no campo de ataque, da preocupação em nunca rifar a bola ou da forma como usam a troca de passes como maneira de correrem poucos riscos na defesa. Não; o que ele teve a destacar foi o seguinte:

- O que eu aprendi é que dá pra jogar com três zagueiros e sem nenhum atacante. Acho que vocês também devem ter aprendido. Se o Guardiola faz no Brasil o que fez hoje aqui, seria preso. O Barcelona prova que é possível jogar bem e fazer gol sem nenhum atacante. Quem sabe aos poucos a gente não comece a aceitar isso no futebol brasileiro também...

Então tá, né? Deve ser este mesmo o problema dos times brasileiros: essa mania de escalar atacantes. Como falei, o Barcelona tem muitas lições a dar, mas obviamente só a quem queira aprender.

Muricy é incontestavelmente competente e vencedor, dentro de sua filosofia. Mas torço pra que este futebol que ele enxerga não ganhe mais nada. É chato demais.

8 comentários:

Mauricio Carrilho disse...

Sensacional tua análise. Tomara que o Profexô tire conclusões melhores que a do Muricy.
SRN

Alan disse...

Duas coisas que me irritaram muito, em ver esse jogo e compará-lo com os times do Brasil em geral.

Uma, por que diabos os técnicos brasileiros insistem que não podem mandar a estrelinha do time marcar? Impressionante como o time inteiro deles marca, e marca bem.

Em segundo, olha o terceiro gol dos caras. Na boa, não me lembro de UM jogador brasileiro que, estando no lugar do Messi naquela dividida, não se jogasse ao chão pedindo pênalti.

Eu entendo perfeitamente a diferença de qualidade técnica. Mas a diferença de postura não me entra na cabeça...

Patryck - Admin. disse...

Realmente o Santos decidiu jogar na retranca, e todo time que joga na retranca contra o Barcelona perde, e perde feio. Foi isso que aconteceu hoje!

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Marcelo Constantino disse...

Não acredito que qq outro técnico (considerado) de ponta do Brasil fizesse muito diferente do Muricy. Se não fossem 3 zagueiros, seriam 3 volantes, o que dá no mesmo.

(O Brasil foi campeão do mundo assim em 2002, vale lembrar)

Eu vejo o jogo de hoje como mais um capítulo na longa colheita que o Brasil tem pela frente depois de duas décadas investindo maciçamente (ou valorizando) em volantes, invariavelmente limitados à marcação.

Meias foram adiantados para o ataque, volantes que sabiam passar tornaram-se meias, e por aí vai. Foi assim nos últimos vários anos.

Hoje temos um arsenal de volantes pelo país. E não temos mais meias -- basta ver a quantidade surreal de esperanças depositadas no Ganso, que jogou muito bem um campeonato estadual há 1,5 ano!

É a colheita em curso.

saulo disse...

André, ao ver a entrevista dele, tive a exata mesma conclusão que você teve. Como pode depois de tudo que o Barcelona fez ele exaltar o fato de ter entrado sem atacantes (isso porque o Pep perdeu os dois que tinha por contusão). Será que ele esqueceu que vira e mexe esse Barcelona entra sem zagueiros de Ofício, para colocar jogadores mais técnicos?
Aliás, o Muricy sempre que é cobrado desvia o foco das cobranças pra cima da imprensa, do que os outros vão pensar, se vitimiza e se coloca de perseguido quando na verdade existe uma grande benevolência de parte da imprensa com ele e com as grosserias dele. Vamos ver como serão as críticas a ele depois que ele deixar de ser a menina dos olhos da imprensa esportiva.

Eduardo H. Costa disse...

Daqui a pouco o Luxemburgo postará aqui que montou o time igual o Barça e a gente só recramô metade do ano... kkkkkkkkkkkkkkkkk

Gabriel Folha disse...

Perfeito André, é isso mesmo!! Concordo tb o Constantino, qualquer outro treinador do futebol brasileiro faria o mesmo.

Porque são todos incompetentes, e por isso, inseguros. Se eles não poe o time pra jogar contra Avais e Américas Mineiros, imagina contra um time de futebol de verdade.

Como estão acostumados a enfrentar que tais, e serem analisado por uma imprensa do mesmo (baixissimo) nível, as coisas não ficam muito claras.

Quando enfrentam um time bem treinado, que quer jogar bola (e não precisa ser o Barcelo, a La U mostrou a mesma coisa), nossas deficiências ficam evidentes. Mas como vc disse, aprende quem quer, e o que quer aprender.

Essa incompetência fica ainda escancarada nas declarações dos nossos treinadores depois do jogo, como a do Muricy, como a do Mano Menezes, etc.

O cenário, diante do que "está sendo aprendido" depois da aula do Barcelona parece ser ainda mais sombrio.

Luis disse...

Todo mundo sabe que o Barcelona é o melhor time do mundo, que joga que nem a Holanda/74, que só de vez em quando perde, que o Brasil só pensa em volantes, que a gente só exporta jogador e que o futebol brasileiro não investe em base como o Barça faz, que os que jogam aqui são raspa de tacho ou acabados para o futebol (exceto o mala do Neymar) etc etc etc. Mas o pior (ou a realidade) é que acho que não me lembro (e tenho quase 50anos, dos quais uns 40 e poucos assistindo futebol) de um time brasileiro de ponta que tenha jogado de maneira tão covarde um jogo contra um time de fora. Culpa do técnico e dos jogadores. Só deles. Bando de cagões.