O final do Brasileiro e os argumentos a favor dos pontos corridos

Com todo o papo de "entrega-não entrega" que rolou nestas últimas rodadas do Campeonato Brasileiro, muita gente voltou a discutir a fórmula da competição. Afinal, com mata-mata o título não seria decidido desta maneira, certo? Entendo o argumento, mas as últimas rodadas do Brasileiro também deram uma mostra do porquê de nenhum clube estar interessado em abandonar os pontos corridos.

Afinal, na penúltima rodada, todos os 10 jogos tinham seu interesse - colocavam pra jogar candidatos ao título, a vaga na Libertadores ou ao rebaixamento. Na última rodada, já em dezembro, em vez de termos 18 times da Série A de férias e apenas dois concentrando todas as atenções, haviam 5 partidas - com 10 times envolvidos, claro -decisivas: Fluminense x Guarani, Cruzeiro x Palmeiras, Goiás x Corinthians, Grêmio x Botafogo e Vitória x Atlético-GO.

Muitos não entendem completamente porque é importante para um clube ter o time em atividade até o final do campeonato. Afinal, muitas vezes o time está entrando em campo, mas não disputa mais nada e sua torcida está completamente desinteressada; por isso, alguns devem imaginar que para Guarani, Palmeiras e Goiás não faria tanta diferença agora se não estivessem jogando. Mas é mesmo melhor para o clube que o time esteja entrando em campo do que totalmente de férias, pagando salários a jogadores que não jogam e não aparecem na TV ou nos jornais de forma nenhuma. Um bom exemplo disso é o Guarani, que mesmo rebaixado teve uma última partida transmitida para boa parte do país e, com isso, faturou lotando seu uniforme de patrocinadores.

Foi um faturamento de ocasião, apenas. Mas é claro que no início do ano, quando as diretorias vão atrás de patrocinadores, as empresas sabem que terão oportunidades de exposição de suas marcas por todo o período contratado e, assim, oferecem valores maiores do que fariam se não tivessem esta certeza.

Esqueçam questões de justiça esportiva - o papo de que o campeonato de pontos corridos "premia sempre o melhor" é mesmo muito relativo e não é definitivo para a escolha da fórmula do Brasileiro. A questão é mesmo dinheiro. E é por isso que, de modo geral, os dirigentes de todos os clubes não dão muita corda para qualquer discussão sobre a volta do mata-mata - por mais que muitos torcedores sonhem com isso.


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Mas eu também me incomodei com o "entrega-não entrega", além das chatíssimas discussões sobre mala branca, no momento decisivo do campeonato. Os títulos de Flamengo e Fluminense não devem ser contestados, mas foi o segundo ano consecutivo - por coincidência, o segundo em que o time à beira de ser campeão não era de São Paulo, e sim do Rio... - em que isso apareceu com força. E este ano, especialmente graças ao Palmeiras, a situação ficou mais esquisita ainda. De novo: não é o caso de tirar o mérito do campeão, e sim de não gostar de ver a decisão de um campeonato tão longo acontecendo em meio a este tipo de discussão.

Minha sugestão, baseada em ideias mais radicais do RicaPerrone (que odeia os pontos corridos, o que não é o meu caso): para um time ser campeão direto, ele precisaria abrir mais de seis pontos do segundo colocado. Caso não seja o caso, haveria uma final, com dois jogos em ida e volta, nos quais o segundo colocado tentaria recuperar a desvantagem. Serviria para tirar um tanto do peso na definição do campeonato deste tipo de jogo contra times desinteressados e voltaria a haver a final de que tantos têm saudade - mas sem tirar o valor de todas as 38 rodadas anteriores e mantendo todos os times jogando até quaaaase o final.

É apenas um palpite.

18 comentários:

Lucas Dantas disse...

Eu acho que essa coisa de "entrega" é mera questão de caráter e não há fórmula que mude isso. Até porque, antes do mata-mata também há os pontos corridos e times que podem entregar para outros não se classificarem. E o caso do Palmeiras foi o único. Ninguém mais entregou. Aliás, eu queria entender a entregada do Palmeiras, vendo o Deola pegar o que pegou, vendo aquele golaço do Dinei... O Porco não joga nada há anos, perde tudo sempre e teria entregado? Pra mim jogou o normal, ainda mais em se tratando de uma equipe de ressaca.

André Monnerat disse...

Lucas, claro que tem entrega antes do mata-mata em outras fórmulas - como poderia ter na minha sugestão. A diferença é que isso não acontece no momento de decisão final do campeonato. Justamente por ser questão de caráter e da natureza humana, não acredito que isso possa desaparecer (assim como erros de juízes, decisões infelizes de tribunais...) e acho que vale procurar fórmulas que diminuam o peso disso na definição de um título. Colocar o líder para legitimar seu título contra o segundo colocado, se ele tiver conseguido se manter próximo após tantas rodadas, é a maneira que eu imaginei para isso.

Mas não sou dono da verdade, nem tenho a esperança de que alguém resolva colocar isso em prática.

Quanto ao Palmeiras, eu não vi o jogo. Mas fico com a opinião de meu amigo tricolor, que foi a Barueri ver o jogo, tem certeza que entregaram e ainda disse que o clima entre os tricolores na saída do estádio foi de constrangimento.

rbmrenato disse...

Eu não acredito em entregar, mas acredito que as equipes entraram com total desinteresse de colaborar com rivais.
Não concordo ser uma boa essa disputa entre o líder e o segundo colocado, onde chances seriam concedidas ao segundo colocado, e a campanha do líder, que foi melhor, seria prejudicada.
Eu concordo com a solução do Mano Menezes, em que, o calendário dos jogos fosse feito de modo a deixar clássicos nas últimas rodadas do torneio.

Elton disse...

Com o SP e o Palmeira foi a mesma coisa. Pensaram: vamos jogar soltos pra ver se o Flu consegue ganhar sem entregarmos. No segundo tempo, viram que não ia dar e foi dada uma mãozinha.

Elton disse...

Essa idéia do Mano eu achei ótima também. Apesar de ser um desafio de logística para cidades com 4 times. Acho que vale muito a pena tentar, antes de uma mudança mais radical.

Marcos Monnerat disse...

No campeonato desse ano então teríamos um triangular final André?! Como seria isso?

Eu ouvi de alguém da Rádio Globo um comentário que achei interessante. Na Argentina a decisão de parte das vagas para Libertadores e rebaixamento são decididas pela média dos últimos dois anos. Com isso, times como o Palmeiras que terminou em 10o. no atual campeonato, teriam alguma coisa a buscar nas últimas partidas. Buscaria um somatório de pontos maior para ter uma chance maior de disputar a Libertadores de 2012.

Nunca tinha entendido o por que dessa regra do futebol argentino, mas acho que faz sentido. Pode não ser definitivo para eliminar essa questão da entrega, mas certamente minimiza...

Marcos Monnerat disse...
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Lucas Dantas disse...

André, na Itália, por exemplo, a tabela é montada de forma que Lazio não enfrente nenhum rival com possibilidade de títulos ou que esteja brigando com a Roma, nas rodadas finais. O mesmo vale para Milan, Inter, Juventus, etc... E lá teve caso mais grave do que aqui com esse negócio de resultado arranjado. Mas aqui é foda, pq temos quantos candidatos ao título? Muda todo ano e os favoritos quase nunca se mostram dignos do rótulo. Veja o próprio Fla no ano passado e o Flu nesse. É fogo, cara, mas talvez uma tabela montada de forma a não deixar o Flu enfrentar SP e Palmeiras na sequência pode ajudar.

Que tal se aumentassem a premiação por posição na tabela e diminuíssem as vagas na sulameriquem? Por exemplo, o 9º colocado ganha sei lá, 50k a mais que o décimo e por aí vai. E só dar quatro vagas na sulamericana. Os times médios vão brigar por essa vaga, já que é mais uma fonte de receita.
Agora, sobre time entregar, eu lanço um desafio: jornalista que afirma categoricamente que vai entregar, quero ver dizer isso na cara do jogador. E mesmo que não entregue, o jornalista vai dizer "ah, só correu porque todo mundo reclamou", ou seja, o jogador é um mau caráter e pronto. Ele sempre estará mentindo.

Lucas Dantas disse...

Você lembra de 1996, quando o Flu foi rebaixado "por causa do Flamengo"? Naquele ano, vencemos os tricolores por 3x1 e depois perdemos para Criciúma e Bahia, adversários diretos dos caras. Eles até hoje dizem que entregamos. Até hoje e vão morrer dizendo. Eu lembro daqueles jogos. O Flamengo jogou mal como em todo o campeonato. Péssimo, aliás. Mas não entregou, e olha que era para rebaixar um rival. Essa desconfiança sempre vai existir, não importa a fórmula. E quem levanta a hipótese de entrega, é porque faria se tivesse a chance.

Saulo disse...

Eu acho que deveriam legitimar o que o mercado usa pra incentivar um clube. E se ao invés de mala branca, a própria CBF instituísse uma premiação direta aos atletas que vencessem partidas cruciais?
Funcionaria da seguinte maneira: Nas últimas 5 ou 6 rodadas o clube que vencesse um dos 4 primeiros colocados levaria uma participação percentual na renda daquele jogo (que provavelmente estaria lotado), sendo que esta fatia da renda seria direcionada diretamente para divisão entre os jogadores.

Sobre a entrega ou não do Palmeiras, procure um post do Juca Kfouri com a comparação do scout do Palmeiras nesse jogo contra o Flu com a média do que fez o clube Paulista no campeonato. São dados realmente incontestáveis.

André Monnerat disse...

rbmrenato, não acho que a campanha do líder fica prejudicada. Se ele tinha 5 pontos de vantagem, continuará tendo 5 pontos de vantagem na decisão. Quanto a entregar ou não, eu acho que pode haver casos sim - mas, mesmo não havendo, a coisa fica prejudicada de qualquer forma pelo desinteresse de quem não tem mais o que disputar e acaba sendo decisivo na disputa. Mesmo não querendo entregar de propósito, tem clube que joga nas últimas rodadas com time reserva para antecipar férias, por exemplo.

Clássicos na última rodada - por um lado, até pode melhorar; por outro, a gente poderia ter agora nessa última rodada um Flamengo x Vasco ou um Palmeiras x São Paulo valendo nada. Há o risco de queimar jogos de grandes rendas aí. Além disso, como o Elton citou, como a gente teria hoje, no mesmo dia e horário no Rio de Janeiro, um Flamengo x Vasco e um Botafogo x Fluminense?

Marcos, poderia ser um triangular. Ou poderia mesmo só limitar aos dois primeiros, não sei. Tem limitação de datas também, né...

Quanto à média das últimas temporadas, talvez ajude a diminuir isso da entrega e do desinteresse nas últimas rodadas. Mas acho que também pode ter o efeito de prejudicar nas últimas rodadas o interesse na disputa por vagas na Libertadores, que é uma parada que mantém os torcedores ligados no campeonato... Não sei, teria que acompanhar um campeonato com isso na prática pra ver como fica isso.

Saulo disse...

http://blogdojuca.uol.com.br/2010/11/os-olhos-enxergam-os-numeros-comprovam/

link do post do Juca Kfouri

Bosco Ferreira disse...

Porque nos últimos campeonatos ganhos pelos bambis não houve isso?

porque os bambis trataram de se distanciar muito dos outros.

Pontos corridos é a melhor maneira e não adianta vir com essa desculpa de que a culpa é da fórmula. Não existe uma fórmula perfeita mas uma formula melhor e esta é a de pontos corridos.

Bosco Ferreira disse...

Uma solução seria fazer a tebela movel.

Um sorteio para a primeira etapa do campeonato e uma tabela dirigida na segunda fase. Poderíamos por exemplo tentar minimizar.

Mas acabar com a desmotivação dos que já estão fora da briga é impossivel em qualquer fórmula.

Bosco Ferreira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Bosco Ferreira disse...

Decidir a segunda vaga em diante na libertadores pela média de pontos nos dois últimos anos, talvez fizesse com que um clube levasse em conta sua necessidade de pontuar e amenizasse esse problema.

Não há uma fórmula certa para se evitar esse tipo de sordidez no futebol.

Luis disse...

Mata-mata é coisa de torneio curto (Copa do Mundo), continental (Libertadores) ou secudário (Copa do Brasil, Copa do Rei etc), pela ausência de datas. Pontos corridos é a fórmula mais justa. Alguns ajustes são necessários, como por exemplo colocar clássicos regionais na última rodada, mas o principal é seguirmos de algum jeito a fórmula da argentina (de rebaixamento, classificação para Libertadores e Sulamericana).

mborges disse...

Na minha opinião a fórmula da Argentina só existe para proteger os grandes contra o rebaixamento. E não acho que ela seja nada justa. Acho que não tem nada a ver levar em conta o desempenho de um time no ano anterior pra definir se ele cai ou não ou então se ele vai pra Libertadores ou não.

Também já tinha pensado em uma sugestão colocada aqui que acho bem viável. É a de se fazer a tabela do 2º turno com base no desempenho dos times no 1º turno pra tentar minimizar ao máximo a possibilidade de jogos como os que tivemos na parte final do campeonato deste ano. Claro que não haveria garantia de nada, mas o problema poderia ser muito diminuído.