Eu não quero Felipão

Apesar de Dunga agora andar se oferecendo para continuar no emprego, um dos assuntos preferidos das mesas redonda lá da África do Sul, nesse dia sem jogo da Copa, é a especulação sobre quem poderá ser o novo técnico da Seleção. E um nome aparece forte, com jeito de unanimidade: Felipão. Pois eu ficarei bem chateado se isso se confirmar.


O que é até engraçado, já que a possibilidade dele vir treinar o Flamengo até me animou bastante - mais pelo que ela significava fora de campo do que pela capacidade dele como técnico. Não me entendam mal: não dá pra negar que ele é bom em seu estilo e tem resultados que comprovam isso. Mas, para a Seleção, eu gostaria que tentassem outra coisa.

Copa do Mundo é uma parada sinistra: um torneio de tiro curto, 30 dias só, no máximo 7 jogos, que mudam toda a maneira da população enxergar futebol por décadas. Aquelas poucas semanas, incluindo seus lances de sorte, azar ou puro acaso, se sobrepõem a tudo o que aconteceu em todo o restante da existência e definem como serão enxergados para o resto da vida determinados jogadores e treinadores. E Felipão é um caso até meio extremo disso.

O Brasil começou a Copa de 2002 em um grupo dos mais fáceis da história, e passou de fase jogando mal. Fez um jogo ruim nas oitavas-de-final, em que poderia ter sido eliminado pela Bélgica - mas classificou-se graças a São Marcos, a uma bola desviada no meio do caminho num chute de fora da área de Rivaldo e ao juiz que anulou inexplicavelmente um gol belga quando a partida estava em 0x0. Nas quartas, passou pela Inglaterra num jogo chatíssimo, graças a dois lances individuais de Ronaldinho Gaúcho - um deles, aquele gol de falta de longe, que até hoje ninguém crava se foi de propósito ou não e contou com a ajuda do goleiro inglês. Daí o time estava embalado, passou pela Turquia apertado na semifinal e garantiu o título merecido contra a Alemanha, numa Copa em que várias seleções mais fortes ficaram pelo caminho por conta da tabela ingrata (como a Argentina) ou de arbitragens esquisitaças (como Itália e Espanha).

Mas enfim: o Brasil foi penta, Ronaldo colocou de vez seu nome como um dos grandes da história e Felipão voltou consagrado da Ásia. Depois, claro, ainda conseguiu aumentar seu cartaz com o bom trabalho na seleção de Portugal. Mas digamos que a bola de Rivaldo contra a Bélgica tivesse se desviado pra fora, ou que o goleiro inglês desse um tapinha naquela falta de Ronaldinho, e o Brasil tivesse sido eliminado no meio do caminho. O que se lembraria do trabalho de Scolari na Seleção?

Talvez hoje nos referíssemos à "Era Felipão" como aquela em que a Seleção foi eliminada de uma Copa América por Honduras. Ou aquela em que o treinador chegou a ter a cara-de-pau de escalar Marcelinho Paraíba e Luisão como dupla de ataque titular. Aquela que teve Eduardo Costa e Fábio Rockemback no meio-campo, Cris e Roque Júnior na zaga. E até hoje chorariam a ausência de Romário, depois de toda a campanha da imprensa para que ele fosse a mais uma Copa do Mundo. A Seleção de Felipão nos deu aquela alegria em 2002 ao voltar com o título, e até teve seus momentos de bom futebol por lá (como esta de Dunga também teve agora), mas a verdade é que na maior parte do tempo foi uma chatice completa.

O que eu gostaria mesmo agora é de um treinador que buscasse na Seleção um futebol mais identificado com o que a gente gosta de assistir. Sei que no final são os resultados que ficam na história, e todo treinador - de Seleção ou de clube - trabalha com esta pressão. E que se Dunga conseguisse voltar campeão da África, estariam todos satisfeitos. Mas hoje, com a eliminação, a sensação que ficou é que teria sido melhor, em todo este tempo, que tivessem tentado montar um time que a gente gostasse mais de ver jogar.

Claro, houve alguns jogos bons, a Argentina ajudou a levantar a bola de Dunga algumas vezes ao longo destes anos. E mais pro fim desta Era Dunga, até que as pessoas começaram a acompanhar com algum gosto esta Seleção que se doava em campo, virava jogo no finzinho contra EUA, definia partida no último lance contra a África do Sul e saía vibrando, batendo no peito, realmente envolvidos com aquilo ali de uma maneira que sentimos falta em 2006. Mas eu não esqueço que, ao longo das eliminatórias, vimos jogos da Seleção com muito lugar sobrando no estádio aqui no Brasil mesmo - e com quem estava lá vaiando Dunga insistentemente e até aplaudindo Messi em sua saída de campo, demonstrando que queria ver é alguém tentando jogar bola.

Enfim: sei que é difícil, que Seleção treina pouco a não ser em época de Copa e que o futebol do time em tempos de eliminatória foi sempre chato não só com Dunga e Felipão, mas também com Parreira, Luxemburgo e muitos outros. Sei ainda que tenho que me acostumar com esta realidade, de ver sempre na Seleção jogadores que na verdade mal conhecemos e vemos jogar muito pouco. Mas é isso: gostaria de alguém que arriscasse um pouquinho mais. E não boto fé que Felipão vá ser assim.

14 comentários:

André disse...

Olha André, ontem estava filsofando sobre algumas opções de treinadores para a seleção e seus estilos de trabalho e um nome me surgiu na cabeça e, ao meu ver, se encaixaria bem no momento atual da seleção brasileira.

Falo do Leonardo, que este ano fez um trabalho entre razoável e bom com o time médio do Milan.

É um profissional com "trânsito" na CBF, possui excelente caráter (até onde eu sei), nível de eduacação acima da média, fal diversas línguas. Com este perfil ele pacificaria a relação com a imprensa e boa parte da torcida do país (fora o Rio Grande do Sul que é um país a parte).

Ainda traria um ar de renovação e juventude que acho que fez muita falta nesta Copa do Mundo.

Fora todos estes requisitos psicológicos e pessoais ainda chegaria com muito mais experiência que o Dunga e possui muito conhecimento adquidrido nos últimos anos do futebol europeu.

Felipão é um ótimo técnico com ótimos resultados mas manteria a relação tumultuada com a imprensa e acabou de assinar com o Palmeiras.

Falam também em Mano Meneses. Gosto bastante deste técnico, mas não sei...pode até ser. Nos últimos anos têm armado bons times, fez milagre com o time horroroso do Grêmio na série B...pode ser...

Luxemburgo já está passado. Para mim está no caminho da aposentadoria.

Muricy jamais entraria no esquema CBF.

Teríamos mais alguém, caro amigo Monnrat? Ainda acho que o Leonardo cairia como uma luva para nos representar na Copa de 2014 no Brasil.

Um abraço,
Juninho.

Juan disse...

Os fatos listados são incontestáveis, mas há de se considerar alguns fatores não citados:

a) Felipão, ao contrário de Dunga e de Falcão (dois ex-jogadores e ex-comentaristas "inventados" como técnico por Ricardo Teixeira), tinha um currículo bastante respeitável como treinador. Montou times vencedores no Grêmio e no Palmeiras, acumulando títulos expressivos: campeão da Copa do Brasil (duas vezes, pelo Grêmio e pelo Palmeiras); campeão brasileiro (Grêmio) e campeão da Libertadores (duas vezes).

b) A "moleza" sugerida desconsidera que a Turquia tinha ali sua melhor geração, tanto que chegou à terceira posição. Batendo adversários que derrubaram as fortes "França e Argentina"

c) Felipão apostou na recuperação de Ronaldo.

d) Felipão , no final das contas, juntou três craques (os 3 R´s) no time. E teve coragem de apostar em Kleberson, jogador pouco conhecido no eixo Rio-SP, mas que seria decisivo para a conquista.

Tiago Cordeiro disse...

O nome mais próximo de ter concretizado isso que você pede seria o Dorival Júnior, que me parece um técnico promissor mas ainda não vejo ele como um cara de seleção.

André Monnerat disse...

Juninho,
Na época, que o Dunga foi escolhido, o meu nome era o Paulo Autuori - que tem títulos importantes em vários times, vivência no exterior e até intimidade com a rotina de uma seleção. Mas de lá pra cá ele não andou muito bem. Esse último trabalho dele com o Grêmio eu não achei nem ruim, achei esquisito - o cara ganhava tudo em casa, perdia tudo fora...

No duro, acho que qualquer nome que não seja o Felipão vai começar com muita desconfiança. O Leonardo seria menos invenção do que o Dunga, mas ainda seria uma invenção. Não o conheço como técnico pra dizer se leva jeito ou não.

Pra mim, por merecimento, o cara que me parece ter feito os melhores trabalhos nestes últimos anos é o Mano Menezes. Ele tinha uma imagem defensivista no Grêmio, mas no Corinthians chegou a usar esquemas ofensivos interessantes.

E um amigo meu levantou, como o Tiago Cordeiro aqui, o nome do Dorival Júnior. Também acho que não é um nome de ponta ainda. Mas não ficaria chateado se fizessem essa aposta.

Luxemburgo e Muricy eu sou contra.

André Monnerat disse...

Juan,

Eu não contesto a escolha do Felipão na época. Ele foi tudo, menos uma invenção. Como eu disse, não nego que ele seja bom treinador.

E teve seus méritos naquela Copa, claro. Apostou no Ronaldo, inventou o Kléberson, fez o Rivaldo jogar na Seleção o que não tinha jogado antes, uniu o grupo...

O que eu estou fazendo é relativizar as coisas, porque o que aconteceu é que ele se tornou um semideus por conta daquela Copa. Ele teve seus méritos ali, naquele período curto, e as circunstâncias o ajudaram a sair campeão. Porém, pra mim, isso não apaga todo o resto do que fez na Seleção na hora de pensar se o quero de volta ou não.

Não gostava da filosofia dele na Seleção, das escolhas dele, enfim. Não gostaria de ter aquilo novamente.

Flora disse...

eu olho pra esses nomes e não me animo com nenhum.

a verdade é que não acho nenhumn tecnico brasileiro bom de verdade.
Os ultimos titulos foram conquistados pelos times retrancados e feios do muricy caramlho e por um time com um tecnico estreante que não durou nem 6 meses depois dissos.

os tecnicos com um pouco mais de ousadia são tecnicos menores, sem resultado e peso pra uma seleção como um dorival juniuor por exemplo.

a verdade é que ou se renova a mentalidade atual do futebol brasileiro (não só por causa dos tecnicos, mas pq do jeito que ta continuaremos a ter gerações no maximo mediana de jogadores como essa q disputou a copa) ou é melhor a gente se acostunmar com isso. a nossa escola de treinadores tá uma bosta.

Marcos André Lessa disse...

A verdade é: não existe técnico com cacife pra assumir a Seleção. Felipão será uma unanimidade por ser a única opção possível, mas não a mais desejável.

Bosco Ferreira disse...

A sugestão do Leonardo me parece uma ótima ideia.

Gostaria também de vêr alguem de outro país. Nossos técnicos são muito cheios de manias.

Querem ser os arautos das glorias conquistadas mas fogem sempre das responsabilidades nos fracassos.

Scolari não deu certo na inglaterra e se disse perseguido pelo elenco.

Bosco Ferreira disse...

E porque não o Silas? Se é para renovar?

Tiago Cordeiro disse...

Silas? Há diferença entre renovar e inventar.

Murdock disse...

Eu não quero o Luis Felipe porque não gosto dele mesmo. As pessoas falam do comportamento do Dunga mas esquece que esse cara já foi flagrado mais de uma vez mandando provocar, cuspir e bater em adversários, isso não escapou nem da biografia dele, que eu li.

Além disso, um dos seus grandes momentos no Brasil foi no Grêmio, que era chamado de mais uruguaio dos times brasileiros. Onde estaria a identidade nacional que tanto pedem depois da retranca e contra-ataques armados por Dunga?

A propósito, sonhei que o Dorival Jr assumia a Seleção.

Folha disse...

Não acredito que o Ricardo Teixeira aposte, novamente, em alguem com pouca experiência, como seria o Leonardo, embora me agradasse a idéia.

Torço muito pra que não seja o Felipão, estamos num momento chave da história do futebol brasileiro. Se provou mais uma vez que jogar "feio" não aproxima ninguem da vitória, será uma fase em que esse tipo de afirmação imbecil será feita com mais parcimônia.

O Dorival parece ser o de idéias mais arejadas, mas na hora decisiva do campeonato paulista tb amarelou e lançou Rodrigo Mancha, quase entregando o campeonato.

Pesa contra ele ainda não ser considerado top de linha no Brasil.

Me agradaria.

Mas acho que vai ficar mesmo com o Mano Menezes, por tudo que já fez, por já estar a bastante tempo no Corinthias, por contar com a simpatia da imprensa paulista.

Ah, não me surpreenderia de ver o Luxembugo de novo lá...

Alan disse...

Concordo com as análises do Monnerat sobre o Felipão. Não acho uma boa sua volta. Por mim, os melhores seriam Mano Menezes, Dorival Jr. ou (pasmém), Joel Santana.

Sim, eu acho que o Joel faria um bom trabalho na Seleção. Podem achar que é loucura minha (parando pra pensar, até eu acho que é loucura), mas acho que daria certo.


E loucura por loucura, só como exercício de raciocínio absurdo... como seria o Renight no comando da Seleção? Será que teria alguma chance de dar certo? Ele pelo menos bota o time pra frente...

André disse...

Tudo indica que será o Leonardo pelas notícias que estão sendo veículadas.

Não entendo da onde saiu esta idéia aí no RJ do Dorival Jr. Observando todos os nossos argumentos ele não se encaixa em nada. Não tem muita experiência em times grandes, não tem nome, não tem trânsito na CBF. Essa da CBF querer estar bem com a "imprensa paulista", pelo o que eu me lembre nunca existiu.

Aliás a CBF é uma das poucas instituições que ainda privilegiam os interesses do estado do Rio de Janeiro no Brasil todo. O único grupo, seja político ou econômico, que a CBF privilegia é a Rede Globo, que por sinal é muito mais carioca que paulista.

Por último devemos apoiar quem quer que assuma e não ficar criticando por antecedência e sem antes vermos pelo menos um pouco do trabalho do futuro técnico que assumir. Aqui no RS já estão esculachando o Leonardo por antecedência. Aliás qualquer um que não seja Mano e Felipão será esculachado aqui na província dos pampas.