Momentos decisivos do Hexa: empate com o Fluminense pela Sul-Americana

Boa parte do título brasileiro conquistado pelo Flamengo é associada à chegada de Andrade. É justo, muito justo, justíssimo; mas não dá pra dizer que, a partir da chegada do antigo ídolo ao cargo de treinador, tudo tenha dado certo. Houve uma fase bastante complicada e ajustes foram sendo necessários para que o time engrenasse de vez. E um deles, bastante significativo, apareceu pra valer em um jogo que nem mesmo era válido pela competição.

No fim de agosto, o Brasileiro passava um pouco de sua metade e ninguém desconfiava que o Flamengo poderia conquistar o título. Àquela altura, a fase rubro-negra era complicada: depois da vitória por 1x0 sobre o Corinthians, veio o empate contra o Fluminense, no primeiro jogo pela Sul-Americana, e Petkovic se contundiu. Com sua saída, Andrade voltou a quebrar a cabeça para achar uma solução para seu meio-campo funcionar. Houve outros desfalques e vieram três derrotas feias consecutivas, contra Grêmio (4x1), Cruzeiro (2x1, no Maracanã) e Avaí (3x0). Não eram tão poucos os que começavam a se preocupar com uma possível briga contra o rebaixamento. E o compromisso seguinte do time era o Fla-Flu de volta pela Copa Sul-Americana - competição que, na cabeça de todo mundo, representava a única chance de título restante para o Flamengo no segundo semestre do ano.

A volta de Petkovic já era anunciada (embora ninguém pudesse medir na época o tamanho do impacto que ela teria no resto do Brasileiro). Mas outra mudança no time só foi descoberta no gramado, sem aviso prévio, quando a bola começou a rolar: pela primeira vez em muito tempo, o Flamengo entrava em campo abandonando o esquema com três zagueiros. Andrade, mesmo usando dois meias improvisados nas laterais, montou o time na tradicional linha de quatro defensores, com Fierro na direita e Éverton na esquerda. Aírton, que vinha jogando sempre improvisado na zaga, voltava a ser volante, à frente da defesa.

A alteração tática tinha muito a ver com a presença de Pet em campo. Nos dois jogos em que entrara no intervalo e se destacara - contra Náutico e Goiás -, Andrade já havia colocado o time no 4-4-2 no intervalo, com o time em desvantagem no placar. Contra o Corinthians, Petkovic jogou de início, mas no 3-5-2; a vitória veio, mas os paulistas tiveram o controle da posse de bola em uma grande parte do jogo. O treinador deve ter percebido: com o velho Pet no meio, seria preciso ter mais gente no setor para que o time não perdesse em combate por ali. É provável que a alteração estivesse em sua cabeça desde aquela partida no Maracanã e tenha sido adiada pelas três rodadas seguintes, enquanto o sérvio estava no departamento médico.

O jogo contra o Fluminense, na verdade, não foi bom. Sem Adriano na frente e com o atacante Émerson se contundindo logo no início, o time ficou sem seu ataque titular e perdeu muito poder de fogo. Dominou a posse de bola, atacou mais, mas sofreu um gol em uma desatenção isolada no fim do primeiro tempo e só conseguiu buscar o empate. Com o 1x1, acabou eliminado da Sul-Americana pelo rival, que vinha muito mal no Brasileiro e também encarava a competição como chance de conquistar alguma coisa no ano. O ânimo da torcida, que estava baixo, ficou ainda pior. Mas Andrade, para estranhamento geral, saiu dizendo que havia gostado da atuação e que o time "havia encontrado seu caminho". A maioria não entendeu bem - até porque, nos jornais do dia seguinte, a escalação do Flamengo ainda foi impressa no 3-5-2, como se Aírton ainda tivesse jogado na defesa.

Mas, a partir daí, o Flamengo não mais retornou à formação que já durava anos, implantada pelo então técnico Ney Franco para liberar os alas Léo Moura e Juan. Para muitos, tendo os dois como titulares, era impossível o Flamengo mudar aquela forma de jogar. Andrade demorou um pouco, mas resolveu enxergar as coisas de outra forma - e isso mesmo usando na lateral esquerda o franzino meia-atacante Éverton, ainda mais ofensivo que o titular Juan, que estava machucado.

Outros ajustes na forma de jogar do time aconteceram mais pra frente, mas a grande quebra de paradigma foi mesmo esta, utilizada pela primeira vez desde o início de um jogo naquele Fla-Flu de Maracanã vazio, que terminou com um resultado considerado ruim por todo mundo. Mas que foi decisivo para o que viria a acontecer dali pra frente - afinal, com a eliminação da Sul-Americana, o foco do clube ficou voltado exclusivamente para o Brasileiro. Mesmo que, à época, o único objetivo que parecia restar fosse "fazer uma campanha digna".

3 comentários:

Flávio disse...

Depois dessa mudança tática, o Flamengo ficou 6 jogos sem levar gol.
Aí aconteceu o jogo contra o Vitória BA (3 a 3) e os três gols que o Flamengo levou podem ser debitados da conta do árbitro pernambucano Nielson Dias, que foi o mesmo que marcou dois pênaltis a favor do Santos no Maracanã.
No primeiro gol do Vitória, o atacante faz falta escandalosa no Aírton, o segundo nasceu de uma falta inexistente marcada na entrada da área e o terceiro é de uma jogada pelo lado esquerdo da defesa do Flamengo, justamente no momento em que o lateral Éverton é atendido fora de campo por causa de uma cotovelada na boca que o sr Nielsen não viu, ou fingiu que não viu.
Arrumar a defesa foi o grande mérito do Andrade, na minha opinião. É verdade que perdemos aquele ímpeto de ter a posse de bola, marcar o adversário sobre pressão. Mas a segurança da defesa foi extraordinária. Para se ter uma idéia, foram apenas 8 gols sofridos nos últimos 15 jogos.

Tiago Cordeiro disse...

É impressionante mesmo como a derrota nos ajudou. Imagina se nos classificamos pra fase seguinte?

É bom lembrar que o Andrade chegou a dizer nessa época que se fosse poupar o time, pouparia no Brasileiro e não na Sul Americana. Talvez já pensando em um título no currículo. Vai saber.

Marcos Monnerat disse...

Realmente a eliminação da Sulamericana pode ter sido determinante para o hexa. E eu, quando percebi que o Fla estava voltando para o 4-4-2 fui dos que mais vibrei, pois era um dos maiores críticos do 3-5-2 que nunca foi realmente bem assimilado pelos jogadores do Fla e que dava muito poder a jogadores pouco confiáveis como Leo Moura e Juan.

Esse foi o maior mérito do Andrade mesmo, acabar com o esquema de três zagueiros.