Pra que serve a Copa Sul-Americana?

Todo fim de Brasileiro, alguns jornalistas tentam empolgar alguém com a disputa pelas vagas na Copa Sul-Americana. Um ou outro treinador ou jogador ainda dá uma festejada no final por ter conseguido chegar lá. Esperamos alguns meses e aí começa esta encheção de saco - e percebe-se que, pra maioria, a tal vaga conquistada no ano anterior se torna, na verdade, um estorvo. Renato Gaúcho, técnico do Fluminense que o Flamengo enfrenta hoje em sua estreia no torneio, saiu-se com essa, ao anunciar que irá a campo hoje com o time inteiro de reservas: "infelizmente o Fluminense conseguiu a vaga neste torneio e a gente tem que disputar".

Pois é: infelizmente, o Flamengo também "conseguiu" vaga neste torneio.

Andrade, porém, não vai mandar o time inteiro de reservas, como Renato fez e como eu faria. Uma escolha no mínimo estranha é a de entrar com Petkovic, ainda mais de início. Com todas as dúvidas que cercam o físico do gringo, e com ele mesmo tendo afirmado no Redação Sportv que não acredita que vá aguentar um ritmo de jogos quarta-domingo-quarta-domingo, o Flamengo vai desperdiçar a chance de dar um descanso pro cara.

Porém, como o Flamengo não tem certeza absoluta de que estará disputando algo sério no Brasileiro até o fim do ano, vai ficar nesse chove-não-molha: não entra com tudo, mas também não se desliga da Sul-Americana. Afinal, vai que no final da temporada ela não se transforma na chance de "salvar" o ano com um títulozinho me-engana-que-eu-gosto? Já o Fluminense, que já sabe que tem uma missão séria no Brasileiro, virou as costas mesmo, sem pestanejar. No que está mais do que certo.


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Pois é: se não deu pra perceber ainda, eu não ligo a mínima pra este campeonato. Trata-se de um torneio sem significado, que nem decide quem é o melhor do continente - função da Libertadores -, nem classifica para nenhuma outra competição de importância.

Mais pro fim do ano, pode acontecer de algum grande brasileiro que esteja já fora da disputa do campeonato realmente importante resolver fingir que a Sul-Americana tem alguma importância. Foi o caso do Inter no ano passado, que salvou um ano decepcionante com a jogadinha de marketing em que se autoproclamaram "campeões de tudo". O que até lhes deu bons frutos, já que serviu pra dar um impulso na campanha que buscava chegar a 100 mil sócios no ano do centenário.

Mas, no duro, o título não vale nada. É disputado, em sua maioria, por equipes secundárias em seus países já secundários - como Liverpool do Peru, Zamora do Equador, Deportivo Anzoátegui da Venezuela. É vitaminada, vá lá, pelo campeão brasileiro e alguns grandes da Argentina. Mas de que adianta, se o São Paulo, por exemplo, inscreveu ano passado apenas o time de juniores? Ou se o Boca Juniors foi eliminado pelo Inter jogando com boa parte de seus reservas, pois os titulares tinham algo melhor pra fazer?



"Ah, mas ela dá dinheiro!"

Bem, mais ou menos.

O valor total ganho pelo campeão da Sul-Americana ano passado foi de US$1,1 milhão, a título de direitos de TV, pagos pela TyC. Não é nenhuma grande fortuna, e só quem chega nisso aí é o campeão - que depois ainda vai faturar uma graninha com cotas da Recopa e da Copa Surunga do ano seguinte, o que torna a coisa um pouquinho mais interessante financeiramente (embora crie mais compromissos inconvenientes com competições desimportantes no calendário). Já o vice ficou com apenas US$880 mil. Pra quem parou pelas semi-finais, não chega a US$600 mil. Estamos falando das cotas pra quem vai longe na competição - são valores que não mudam a vida de clube nenhum, não são garantidos pra quem entrar de cabeça na empreitada e são conquistados com jogos sacrificantes e viagens longas em meio a um campeonato muito mais importante.

Aliás, podemos descontar aí dos ganhos com um possível título da Sul-Americana o preju que certamente dará o Fla-Flu besta de hoje.

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No fim, a Sul-Americana serve ainda pra tirar os times brasileiros que estão na Libertadores da Copa do Brasil, por ocupar este espaço no calendário. Todo mundo concorda que o ideal era que ela e a Libertadores fossem disputadas simultaneamente, nas mesmas datas, por times diferentes. Mas não acontece porque a TV argentina faz questão de ter Boca e River disputando competições internacionais nos meios de semana ao longo do ano inteiro.

Outra sugestão óbvia para valorizar a Sul-Americana é a de dar ao seu campeão uma vaga na Libertadores do ano seguinte. Sabe-se lá por que não fazem isso.

3 comentários:

Max disse...

Eu acho uma tremenda palhaçada não escalar o time titular. Ainda mais com o jogo sendo no Rio mesmo. Iria com força máxima.

E um título me engana-que-eu-gosto vale muito mais do que nada.

E ainda prefiro um engana-que-eu-gosto internacional do que um estadual, onde geral dá valor.

Carla disse...

Tá, se é tão inútil, pq não acaba de uma vez? Pq os clubes não se recusam a participar? Alguma coisa tá errada...

Bosco Ferreira disse...

Por que não dão essas vagas para a série B? Seria mais motivação e certamente estádios cheios.