Como é difícil ser candidato a presidente do Flamengo

Iniciei aqui no blog há um tempo uma série falando dos candidatos à presidência do Flamengo, que foi interrompida por mais tempo do que eu gostaria - prometo retomá-la logo. Mas cheguei a uma conclusão: me equivoquei ao chamá-los assim. O mais correto seria "pré-candidatos". Afinal, nenhum deles é candidato mesmo até o dia 30 de setembro - prazo final para a inscrição de chapas.

Hoje, são 7 os que se apresentam: Clóvis Sahione, Eider Dantas, Patrícia Amorim, Delair Drumbosk, Plínio Serpa Pinto, Pedro Ferrer e Lysias Itapicurú. Mas é simplesmente impossível que todos realmente se inscrevam. E o motivo para isso é até matemático.

As eleições no Flamengo não são só para presidente. No dia 30/9, os candidatos deverão inscrever não apenas os seus próprios nomes - mas também todos os que estarão concorrendo, junto com ele, aos demais cargos em disputa. Além do vice geral, também deverão ser apresentados os candidatos aos corpos transitórios do Conselho Deliberativo e do Conselho de Administração (e pode ser que eu esteja esquecendo de mais algum cargo aí). No total, cada chapa deverá contar com mais de 230 pessoas, distribuídas entre as diversas categorias de sócio, de acordo com os requisitos de cada cargo.

Agora, façam as contas. Nas últimas eleições, em 2006, votaram 1.669 pessoas - e, em princípio, nada indicaria que o número de eleitores este ano vá ser maior. Ou seja: se os sete candidatos realmente inscrevessem suas chapas completas, teríamos basicamente apenas candidatos votando em si próprios.

A conclusão: o número de sócios que o Flamengo tem, hoje, não comporta essa quantidade extravagante de candidatos. E é este o atual estágio da campanha: os candidatos estão se dedicando, neste momento, a preencher cada um a sua própria chapa - e, em parte, em conversar uns com os outros para possíveis composições em que certamente haverá união de forças, com alguns abrindo mão de serem cabeça de chapa em favor de outros. O provável é que, até o fim de setembro, restem três, no máximo quatro candidatos.

E é isso: quando pensarem que fulano ou beltrano poderiam se candidatar, lembrem-se de que não basta o cara querer - vai ter que correr atrás de outros 230 fulanos e beltranos assinando junto. É difícil um para-quedista cair na Gávea às vésperas das eleições. Para o bem ou para o mal.


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Minha intenção, ao começar a escrever sobre os pré-candidatos, era completar o que encontrasse pesquisando sobre eles pela Internet fazendo algumas perguntas aos próprios. Por isso, enviei e-mails a alguns, perguntando sobre a possibilidade de fazerem comigo mini-entrevistas, nem que fossem via Internet mesmo. Um deles foi Eider Dantas.

Depois que eu já havia publicado meu texto sobre ele, Eider entrou em contato. Afirmou que críticas eram para serem ouvidas e levadas em consideração para corrigir rumos e se ofereceu para uma conversa, ao vivo, que acabou acontecendo. E foi nela que essa questão da formação de chapas me chamou a atenção.

Eider se apresentou como um outsider. Apesar de ser sócio do Flamengo há mais de 20 anos e sempre comparecer às reuniões do Conselho Deliberativo, não estava se lançando candidato por nenhum dos múltiplos grupos que existem dentro da Gávea - e fazia questão de falar que não se associaria a nenhum dos "sanguessugas que sempre se revezam no poder por lá". Sua intenção: se eleger usando os votos da maioria de sócios que não costuma dar as caras nas eleições, justamente por não confiar em ninguém. Disse ele que tem em mãos a lista de todos os sócios, com a separação daqueles que não votaram em 2006 - e estava ligando para todos, um por um, pessoalmente ("já passei de uns 500"). A recepção, dizia, vinha sendo boa. E se ele conseguisse que 30% dessas pessoas saíssem de casa para votar nele, a eleição estaria ganha.

Em meu texto, uma das críticas que fiz foi pela grande quantidade de promessas, sempre com números otimistas, que ele fez em sua palestra - à moda dos políticos que todos conhecemos. Eider disse que ninguém cumpre 100% do que promete; mas que eleições são ganhas quando as promessas do candidato batem com o que o eleitor quer e ele tem credibilidade o bastante para que acreditem que irá cumprir a maior parte daquilo. E, segundo ele, seu passado de realizador na vida pública lhe daria esta credibilidade.

Independente disso - acho que, hoje, o fato de ter estado tantos anos trabalhando nas gestões de César Maia não deve contar tão a favor assim com a maioria das pessoas -, há ainda outra questão a ser resolvida: ele não precisaria só convencer pessoas a votarem nele, mas também pessoas a entrarem em sua chapa. Sua esperança é ser escolhido como favorito pelo grupo Dragão Negro, que organizou palestras de todos os candidatos para fazer sua opção. Em sendo escolhido, a montagem da chapa seria muito facilitada. Caso contrário, a situação provavelmente ficaria complicada. A decisão do Dragão Negro deve sair no dia 25 de agosto.

No resto da conversa, Eider falou de boas ideias. É a favor de ter profissionais na gestão do clube; quer fazer um sócio-torcedor com benefícios, sem apelar só pra caridade da torcida, e acredita que esta poderia ser a grande fonte de receita do clube; falou com propriedade sobre a maneira de convocar os credores privados para alongar e renegociar as dívidas, como condição primeira para desafogar a vida administrativa do clube - e, a partir daí, instituiria um teto do quanto das receitas deveria ir para dívidas e para custeio, separando o resto para investimentos em estrutura; disse ter a intenção de construir na Gávea uma arena multiuso, pronta para esportes olímpicos, shows e eventos diversos, mas nada de estádio para o futebol (sua frustração era que Márcio Braga não aproveitou seu esforço, quando estava na Prefeitura, para que o Flamengo ficasse com o Engenhão); também falou do Morro da Viúva, que deveria ser transformado, com uma parceria com alguma empresa do ramo, em um lucrativo prédio de salas comerciais.

Afirmou, aliás, que o Flamengo paga hoje um salário de 10 mil por mês ao ex-presidente George Helal para que cuide, mal, deste prédio, algo que ele acabaria. Criticou ainda o atual presidente Delair, que segundo ele nunca teve sucesso em seus próprios negócios e não tem gabarito para dirigir o Flamengo; e reafirmou que considera a história da negociação entre CFZ e Flamengo um factóide - contou que tem boa relação com Zico há 12 anos, inclusive tendo o ajudado a asfaltar seus CTs através de convênios com a Prefeitura. Segundo ele, no mesmo modelo que tentou fazer com o Flamengo para o Ninho do Urubu, sem sucesso devido à lentidão da diretoria na hora de assinar os papeis.


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Ah sim: pra quem não leu, aqui estão os textos sobre Clóvis Sahione e Eider Dantas. Na semana que vem, começo a falar dos outros que, ao menos por enquanto, estão na disputa.

2 comentários:

Rodrigo Garcia disse...

Parabéns pelo trabalho,olhei o texto e estou satisfeito com as informações.
Como bom rubro-negro que sou,vou ficar sempre de olho aqui no blog.
Um abraço,irmão flamenguista.

http://rodrigofutebolgarcia.blogspot.com (Futebol Sem Censura)

Tiago Cordeiro disse...

Olha...Eu achava o Eider bem ruim, mas o que ele falou pra vc diminuiu um pouco a impressão que eu tinha dele. Eu vivo mandando perguntas diretas pra ele sobre política no Twitter. Ele nunca responde.

A questão desse prédio que não é resolvida me irrita profundamente. Imagine um prédio assim com a renda totalmente voltada para as dívidas.