O que salvou o dia de ontem


O Flamengo ontem não foi só o vexame no futebol. Mais de 13 mil rubro-negros - eu entre eles - tiveram seus momentos de alegria e orgulho na HSBC Arena, onde o time de basquete fez 2x1 em cima do Universon, na série final do Brasileiro.

As notícias são de que no intervalo do segundo para o terceiro quarto, o pivô Baby pagou um esporro geral em cima do resto do time. "O ginásio é ótimo, a torcida está maravilhosa, as condições são todas a favor - só falta a gente colocar o coração em quadra". De fato, na primeira metade do jogo o Flamengo pareceu cochilar em alguns momentos (mais de uma vez, por exemplo, jogadores assistiram a bola quicando lentamente junto à linha lateral e permitiram que o adversário se jogasse nela e recuperasse a posse de bola), e a partida estava caminhando de um jeito meio esquisito. Pois bem: se foram as palavras de Baby que deram aquela chacoalhada na equipe, a presença dele no time já se justificou - mesmo que, em quadra, sua atuação não tenha sido grande coisa.

Porque o fato é que, no início do terceiro quarto, o Flamengo voltou com outro espírito, principalmente na defesa - encurtando sempre o espaço, brigando pra valer pelos rebotes. A torcida entendeu, saiu do chão, colocou em ação o "Meeeeengôôô" que tanta falta faz no Maracanã, fez o ginásio tremer. E os jogadores do Universo ficaram claramente desconcertados, sem saberem o que fazer naquela atmosfera de inferno que se criou pra eles. Ao fim do quarto, o Flamengo tinha transformado a desvantagem de 9 pontos em uma frente perto dos 20 - foram 25 pontos a mais que o adversário, um verdadeiro massacre. Daí até o fim, foi questão apenas de não dar mole.

A experiência como um todo de assistir à partida foi muito boa. Ginásio confortável, entrada organizada, funcionários uniformizados dando assistência a todos, stand vendendo camisas oficiais lá dentro, pizza quentinha e refrigerante sem tumulto nas lanchonetes. Até gente com carrinho de bebê lá dentro eu vi. E, pra completar, um time que fez o seu trabalho em quadra.

Quem dera acompanhar o Flamengo jogando, em qualquer esporte, fosse sempre parecido com isso.

5 comentários:

André Amaral disse...

O que foi aquele 3/4 xará???

Muita emoção.

Podemos falar que é o basquete é um "Flamengo que dá certo"???

abraços

André Monnerat disse...

Olha, André - acho que o basquete é um Flamengo "no caminho".

Estou pensando em escrever um texto maior sobre isso quando acabar essa final. Mas eu acho que essa fase do basquete do Flamengo, desde que o Areias chegou, aponta uma direção - mas ainda falta trabalho pra chegar lá.

Até agora, tudo o que foi feito foi em regime de urgência, de emergência, apagar incêndios. Por isso, tem que ser dado um devido desconto, um crédito de confiança. Mas, com um tempo pra trabalhar, tem bem mais coisa a ser feita.

Até porque a gente tem que lembrar que ainda falta bastante pras contas fecharem.

Roberto de Moraes disse...

Grande André,

Permita-me retornar aos comentários de seu blog na condição de doido-varrido-que-vai-a-todos-os-jogos-do-basquete. =)

A verdade é que tem sido assim desde o início do campeonato (e para ser bem honesto, desde o ano passado também). Acho que tudo se norteia em 3 pilares: um time fortíssimo, honesto e trabalhador; uma comissão técnica que se impõe e comanda de fato; uma direção que pelo menos faz tudo para tentar acertar (o JH Areias tem feito um excelentíssimo trabalho de fato, mas a Patrícia Amorim antes também exercia bem o seu papel).

Tanto nos jogos no Tijuca quanto no Maracanãzinho durante o turno/returno/playoffs e os dois deste final de semana na Arena HSBC o clima que tu descreveste foi mais ou menos esse sempre (organização, tranquilidade, clima família e um time que é um verdadeiro rolo compressor em quadra). Junte-se a isto, o fato de naturalmente o público de basquete ser diferente (não quero ser escroto nem elitista, mas é verdade - e olhe que eu vou a todos os jogos do futebol no Maraca).

E os motivos para tamanho sucesso eu ponho mesmo na conta do trabalho e comprometimento. E na hora do aperto (que em qualquer esporte existirá) quem aparece? O craque: o Baby dá um puta esporro no vestiário, o time acorda e dá um verdadeiro olé no adversário em plena final. Algo que no futebol chamaríamos de "pôr a bola embaixo do braço como o Didi fez na final da Copa de 58".

Sinceramente, com o sucesso recente do basquete tenho me questinado muito a respeito da culpabilidade do que tem ocorrido em relação ao futebol, afinal de contas o clube é o mesmo, a diretoria é a mesma e apesar de querer muito ver o Kleber Leite a léguas de distância do Flamengo, tenho me inclinado a pôr na pseudo-estrelice dos jogadores do futebol o motivo dos insucessos recentes já tão dissecados por todos nós rubronegros. Acho que tudo recai numa total falta de comprometimento, trabalho e seriedade mesmo. Em relação à administração do futebol, talvez o grande erro da diretoria seja não dar respaldo à comissão técnica de exercer o comando de fato e de direito que lhe deve ser outorgada. Afinal de contas, eu nunca ouvi falar que o Marcelinho reclamou que o treino é em dois períodos, o Baby dizendo "não fode" para o preparador físico nem o Hélio ou Jefferson se ausentando a treino.

Outra coisa, perceba que no basquete é tudo muito claro: o Marcelinho é o capitão-líder-craque e fala pelo time como um todo, o Chupeta comanda e os jogadores obedecem, e o Areias é quem administra com seu senso de marketing. Não deveria ser assim sempre? Claro, desde que haja os já batidos: trabalho, seriedade e comprometimento - que no meu modo de ver são mesmos os motivos pelos quais o basquete é o "Flamengo que dá certo" como disse o amigo ali em cima.

Bem, é isso. Forte abraço e desculpe pelo longo comentário!

André Monnerat disse...

Rapaz, não peça desculpas!

Mas olha, deixa eu dizer: as realidades do basquete e do futebol são muito diferentes. E isso passa também pela origem e cabeça dos atletas de um e outro esporte, as relações que eles têm com empresários - se tiverem! -, a perspectiva que uns e outros têm de ganharem muito dinheiro com transferências...

Mas, também, de estrutura do esporte como um todo.

No futebol, o Flamengo foi campeão brasileiro em 1992 atrasando salários, e treinando com ainda menos estrutura que o time de hoje. Por que isso não é possível agora? "Porque os jogadores de hoje são mercenários"?

Não - é porque o mundo em volta do Flamengo mudou.

Hoje, o São Paulo tem um CT com 423 campos, hotel cinco estrelas, hospital e academias de última geração, massagistas suecas virgens peitudas e por aí vai. Os jogadores do São Paulo, assim, têm toda a tranquilidade do mundo pra trabalhar no seu melhor, pensar só no que têm que fazer. A diferença entre o que o Flamengo tem e um São Paulo tem é gigantesca. Pra completar, o que temos aqui no Brasil hoje em dia são times, em termos técnicos, muito mais nivelados do que eram há 20 anos atrás - porque a enorme maioria dos grandes jogadores não está mais aqui; e acabou-se com o mata-mata no Brasileiro, implantou-se os pontos corridos, que acaba com aquilo de um time pior preparado ser campeão na base da superação no momento decisivo.

É uma situação que não tem nada a ver com a do basquete de hoje, em que rola muito menos dinheiro.

Se você pegar a estrutura do Universo, é mais ou menos a mesma do Flamengo - eles devem ter pra treinar uma quadra, uma academia, um vestiário e é isso aí. Talvez a quadra seja um pouco melhor ou pior e, vá lá, eles pagam os salários com maior regularidade. Mas é isso: no basquete, tá todo mundo mais ou menos nivelado na estrutura, a diferença do que há por trás dos times não é tão grande assim.

Marcos Monnerat disse...

Eu acho que ainda falta um tanto pro basquete ser o Flamengo que dá certo. Salários atrasam, as receitas são bem menores do que as despesas, não temos um ginásio minimamente aceitável para jogar as partidas de menor apelo de público...

Assim, tá funcionando bem esportivamente por dois anos, mas não dá pra acreditar que seja fruto de um trabalho bem feito e de longo prazo.

Mesmo o Areias, que vem sendo pintado como o herói do basquete, acho que não tá fazendo tanto assim. O mérito dele é conseguir fazer o basquete aparecer para a mídia e para a torcida, criando novidades toda semana. Mas também não conseguiu nada que possa fazer crer que esse timaço vai se sustentar por muitos anos.

Enfim, melhor que o futebol tá né. E além disso, dá gosto de ver um time do Flamengo dar o sangue pela vitória. Coisa muito rara de se ver no futebol de hoje...