Amputação e quimioterapia

Muita gente já começa a defender a contratação de jogadores para reforçar o time para o Brasileiro, especialmente para o comando de ataque. Até gente que sabe que o Flamengo simplesmente não tem o dinheiro diz o seguinte: se o time for mal no Brasileiro, a grana vai diminuir ainda mais. As dívidas vão aumentar.

É um raciocínio que pode ser defendido, tem sua lógica. E, bem: é exatamente este o discurso de Kléber Leite e Delair Dumbrosck em uma matéria deprimente do Globo de domingo sobre o buraco rubro-negro. "Um rebaixamento custaria muito mais do que qualquer dívida". Mas o ex-vice de Finanças, Luiz Felipe Brandão, deixou a diretoria por defender um corte radical de despesas que não foi encampado pelo presidente em exercício. "O diagnóstico exige amputação e quimioterapia, mas estão tratando o problema com aspirina", declarou ele ao jornal.

E eu concordo. 

Àqueles que sustentam o mesmo tipo de pensamento de Kléber Leite ("não se pode tratar como gastos os investimentos no futebol", diz ele na reportagem), eu pergunto: será que foi por falta de centro-avante que o time deixou o Goiás empatar no Maracanã, despois de estar vencendo por 3x0 - resultado que tirou o time da Libertadores? Foi a falta de elenco que fez a equipe entrar totalmente desinteressada na última rodada, contra o Atlético-PR, em um jogo em que uma vitória simples ainda salvaria a temporada?

E foi a falta de jogadores que fez um time com ataque formado por Sávio, Romário e Edmundo brigar pelas últimas posições no Brasileiro? Era a fragilidade do elenco que fez uma equipe com Júlio César, Juan, Gamarra, Alex, Petkovic e Edílson naufragar?

Ou será que é possível traçar razões em comum para os fracassos de todas estas equipes? Razões estas que poderiam desaparecer em um ambiente de orçamento controlado, salários em dia, hierarquia definida e respeitada?

E, bem - além da falta de títulos proporcionais ao investimento feito, a situação financeira melhorou graças a algum destes times citados?


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Nos últimos anos, o Flamengo foi bicampeão carioca, campeão da Copa do Brasil e terminou o Brasileiro entre os cinco primeiros por dois anos seguidos. Não é o desempenho dos sonhos da torcida, mas está longe de ser algo vexaminoso e passível de causar grandes prejuízos. No entanto, o que aconteceu é que, neste período, a dívida apenas cresceu, levando o clube à situação atual.  Não me parece que tenha sido algo compensador.

Para ter estes resultados dos últimos dois anos, o Flamengo agiu de uma maneira que pode ser simbolizada pelo caso Íbson. Em 2007, sabia-se que ele ia embora no meio do ano seguinte. Por isso, foram contratados Jônatas e Kléberson, jogadores caros que deveriam suprir a lacuna; parecia que havia um planejamento aí. No entanto, Íbson rendeu acima de qualquer expectativa no início dessa nova passagem pelo Flamengo, enquanto Kléberson e Jônatas não emplacaram imediatamente em 2008. Na dúvida, ignorou-se o planejamento anterior, o orçamento feito e gastou-se uma grana para manter Íbson. E assim, na base do impulso, o clube acumulou três salários de nível europeu para a mesma posição, com apenas um entrando em campo como titular com regularidade - e o resultado final, com o time fora da Libertadores de qualquer jeito e um Íbson novamente prestes a ir embora no meio do ano, mostra que não valeu a pena.

Se você acha que este não é um bom exemplo de planejamento - financeiro e técnico - ignorado, pode escolher outro. Eu poderia sugerir o empréstimo do fraco Josiel por R$1,2 milhão, mais 150 mil mensais de salário, para chegar fora de forma no Brasileiro, ter tempo de engrenar no Estadual e aí ir embora no meio do ano, deixando novamente o time na mesma situação anterior, só que com dinheiro a menos e sem resultados relevantes conquistados. Mas você pode escolher outros casos - Cristian, Sambueza, Zé Roberto, Vandinho, Fierro...


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Caso acontecesse um corte drástico no elenco que levasse a um desempenho pior dentro de campo, o que isso poderia representar financeiramente? A resposta é: para o orçamento deste ano, não muito.

Isso porque a única receita que poderia variar negativamente com as derrotas é a bilheteria dos jogos - e ela é, hoje, uma receita marginal no fluxo de caixa da Gávea. Além das taxas do Maracanã, o clube já repassa 65% das rendas direto para credores. Mesmo em dias de Maracanã lotado, pinga pouco dinheiro nos cofres rubro-negros. Há ainda uma possível diminuição no número de assinaturas de PPV e, por consequência, da receita que o Flamengo ganha em cima disso - mas, com certeza, não é isso que vai fazer os contadores perderem o sono.

O grosso da receita do Flamengo vem dos contratos de TV, material esportivo e patrocínio de camisa. O dinheiro da TV não vai mudar (na verdade, o deste ano já foi todo adiantado) e, neste momento, tampouco o de material esportivo - a proposta feita pela Olympikus já está na mão e o contrato a ser assinado é por alguns anos. O patrocínio de camisa, neste momento, já não existe; e o fato é que os resultados razoáveis dos últimos anos não ajudaram a aparecer empresas privadas interessadas a pagar mais pelo espaço - eu diria inclusive que é provável que o volume de notícias negativas que o extracampo gera, graças à falta de organização, de profissionalismo e de salários em dia, tenha grande parte de responsabilidade nisso.

Um possível rebaixamento sim, talvez custasse caro para 2010 - porque a receita da TV poderia vir a diminuir. Mas nem o rebaixamento é uma certeza, em caso de limpa no elenco, nem esta redução de receitas. O Vasco, por exemplo, briga agora com o auxílio de Flamengo e Corinthians para que o dinheiro da Globo não diminua por jogar na série B. E eu diria que o Flamengo tem um pouco mais de bala na agulha pra este tipo de negociação do que o Vasco.

Posso estar falando besteira, olhando de fora. Mas pra mim, parece claro: do jeito que a coisa vai, não pode continuar. O nível de endividamento do clube está levando a falta de crédito a um ponto insuportável - não há mais o que adiantar de receita, não há mais o que penhorar, não há mais o que dar de garantia pra nada, a ponto de um dirigente ter que usar seu patrimônio pessoal pra arrancar um empréstimo que apenas empurra a situação um pouco mais com a barriga.

Ou se toma decisões radicais ou o futuro é negro, em um nível que talvez ninguém consiga imaginar agora.

O problema todo é saber que vender jogadores agora, contratar nomes mais modestos e tudo o mais, pode não querer dizer absolutamente nada além da total falta de condições de fazer loucuras maiores. Pois a gente sabe que o equilíbrio financeiro nunca foi prioridade de Kléber Leite e companhia, e são eles que estão lá. Por que mudariam agora? Ter um time ruim, com eles, não vai querer dizer que estão tomando jeito - e se ter um time caro com salários atrasados e bagunça é ruim, ter um time barato com salários atrasados e bagunça não é muito melhor (e o Flamengo já andou tendo isso também, há poucos anos, e foram seus resultados desastrosos que fizeram com que Kléber Leite fosse chamado de volta à Gávea). Ou seja: tem que mudar o time E a maneira de pensar a administração lá dentro - e não há muitos sinais de que isso vá acontecer com as pessoas que estão lá. Muito pelo contrário.

E, por enquanto, o horizonte que se desenha com as eleições do fim do ano também não é de animar.

5 comentários:

Flavio Souza disse...

Concordo plenamente. O Delair não teve culhão para resolver o problema imediato, que é reduzir drasticamente as despesas. Ficou com medinho de assumir o ônus de ver o Flamengo eliminado cedo. Tb não afastou a fonte dos principais problemas do Flamengo desde 95, a presença do horroroso, nefasto e vampiro Kleber leite, que quer pq quer destruir o que puder do Flamengo com sua irresponsabilidade total com o clube e consequente enriquecimento ilícito.

O elenco é caro, mal-aproveitado, mal-treinado e dirigido por um técnico marionete. Jogadores caríssimos de se manter são bizarros e grotescos, passando mais tempo na reserva ou nem sendo escalados. Obina seria o retrato desta gente. Está lá por causa do KL/URAM. Por isso é escalado todo jogo. O maldito não sabe chutar uma bola, se coloca constantemente em impedimento. É burro de pedra. Mas está sempre lá, para evidenciar o ódio que Kleber Leite tem pelo Flamengo.

Sem o afastamento imediato de toda direção do futebol, a expulsão de Kleber Leite e do Uram em forma de estatuto no clube,e a reformulação do elenco, contratando jogadores bons e baratos e aproveitando a base, poderemos conseguir passar o ano. Uma Diretoria específica para a sede para que os sócios possam retornar seria uma boa. O futebol está matando o Clube Social Flamengo. Tem que separar uma coisa da outra. Ontem. Futebol tem que equilibrar suas receitas com despesas e não dar margem a um LOUCO corrupto como Kleber Leite assumir sua direção.

Gustavo Brasília disse...

Pois é, Monnerat. Meus parabéns pelo brilhante post. Concordo com tudo.

Olha, eu estou chocado com o nível de endividamento do clube. Chocado. Nunca o "Bom, Bonito e Barato" foi tão necessário. Nunca.

Os episódios da comissão/depósito do Kleberson na Suíça, somados ao rompimento unilateral com a Nike (sem decisão judicial), assinatura com a Azaléia com adiantamento de R$ 10 milhões que podem virar outro episódio do shopping mostram que as pessoas, no Flamengo, antes de tudo têm certeza da impunidade.

E o que é mais assustador é que são as pessoas que realmente estão à frente do Flamengo que parecem ter responsabilidade por esses fatos.

Por exemplo, no primeiro caso não há como deixar de questionar o Kleber Leite, que está à frente do Departamento de Futebol, pois ele tem a OBRIGAÇÃO de saber onde o dinheiro decorrente de negociações é depositado.

No segundo caso, é simplesmente o presidente quem toma as decisões, o mesmo que pregou a austeridade fiscal, a Timemania, etc.

Nesse ponto, eu tenho que repetir a pergunta do Roberto Silva Gomes, já feita várias vezes na Flamengo.Net: o Kleber Leite e o Márcio Braga administram suas empresas dessa forma também? Será???

SRN.

vôo do urubu disse...

O Flamengo clube é a casa da mãe Joana. Manda (não, não escrevi Mama)muita gente e ninguém é responsável por nada. Enquanto isso a dívida cresce, cresce. Quanto ao time, quando a coisa vai mal, muito mal, o melhor é olhar pra dentro de casa. Vexame maior, ou igual, a garotada certamente não dá. Mais ou menos o que aconteceu em 1974, quando no desarme do time do ano anterior, Joubert (que pegou o abacaxi das mãos do Zagalo)lançou toda uma geração. E fomos campeões!

Folha disse...

Favor não esquecer que os responsáveis pela direção do futebol e do clube são, tambem, responsáveis pela base.

Podem ter certeza que a base é tão ruim, ou pior, do que se tem nos profissionais.

Não tenho nenhuma esperança de ver a "garotada" representando, com dignidade, o clube, muito menos sendo campeã de alguma coisa. A mentalidade é a mesma em cima e em baixo.

Pra falar apenas da parte técnica.

vôo do urubu disse...

Vê-se que o Sr. (Sra?) Folha não tem cultura de Flamengo. Bom senso é canja de galinha. Cultura é mais embaixo. Aliás folha de quê? Pagamento? De São Paulo? Do outono que mal começou? De toda forma foi um prazer ver o Erik Flores no jogo de ontem. Jogo que só houve enquanto o moleque esteve em campo.

Saudações rubronegras!