Choque de sede

O Rio de Janeiro está vivendo uma nova administração. Com a entrada de Eduardo Paes na Prefeitura, o "choque de ordem" virou bordão e está presente nos mais diversos lugares. Carros estacionados pela galera que vai à praia estão sendo rebocados com frequência no Jardim de Alah; ônibus que paravam em pontos onde a placa dizia que isso só deveria ser feito no fim de semana estão sendo orientados a seguir em frente; ontem, um bloco de pré-carnaval no Leblon - mesmo autorizado anteriormente pela Prefeitura, com os alvarás todos e tudo o mais - teve seu "desfile" interrompido porque uma autoridade chegou à conclusão de que o trânsito estava sendo prejudicado.

É neste contexto que estreou ontem no Maracanã, junto com o Flamengo, a famigerada Lei Seca.

Bares e postos de gasolina realmente deixaram de vender bebidas alcóolicas perto do estádio, como já havia sido divulgado na imprensa. Mas o mais impressionante mesmo é que não foi só a cerva que sumiu. Todos aqueles "varais" de camisas piratas à venda, sempre tão comuns em dias de jogos, desapareceram. Não havia qualquer isopor, mesmo vendendo apenas refrigerante. Não avistei nenhuma barraca de churrasquinho, salsichão ou cachorro-quente.

No lugar de tudo isso, o que havia era policiais. Graças a essa presença do poder público, ao sumiço dos ambulantes e à proibição do estacionamento na Radial Oeste e embaixo do viaduto próximo ao estádio, o Maracanã viu um trânsito tranquilo como eu nunca havia visto na vida, em um dia de mais de 35 mil pessoas assistindo ao jogo.

Longe de mim criticar a idéia de colocar ordem em torno do velho Maraca - "democracia" tem limite. A zona realmente imperava, a confusão favorecia os pequenos delitos, os produtos piratas reinavam, o trânsito era um caos, os moradores da área deviam sofrer. Sinceramente, mesmo não sendo dia de casa cheia, até me impressionou do que esses caras são capazes, quando querem.

Mas todo mundo sabe que os mais graves casos de violência em dias de jogos, dentro e fora do estádio, são causados por integrantes de torcidas organizadas. Fica a pergunta: estes caras causam confusão porque bebem, ou porque já vão pra lá com esta intenção? Eu diria que ouvir os cantos de algumas delas, com pérolas como "conscientemente a gente espanca", "dá porrada em qualquer um" e coisas do gênero, já dá uma dica. Será que proibir cerveja até mesmo nos bares em torno do estádio é realmente necessário, ou a presença ostensiva do poder público colocando ordem na bagunça, como aconteceu ontem, e prestando atenção em quem já se sabe que pode criar problemas, já seria suficiente? Eu já falei aqui algumas vezes que gostaria mesmo de ver um estudo relacionando a proibição de cerveja nos estádios com alguma queda de violência, mas agora tenho certeza que, se o que fizeram ontem se mantiver, as estatísticas vão melhorar - independente de ter ou não álcool à venda por lá.

Mas enfim: eu já fui ao estádio preparado para a falta de cerveja. Não muito conformado, mas beleza. O que eu não esperava era, dentro do estádio, não conseguir beber nem refrigerante. Basicamente, não há mais ambulantes vendendo qualquer tipo de bebida nas arquibancadas. No intervalo, desci para procurar alguém com um isopor pra tomar uma Coca-Cola - o que seria impossível de qualquer forma, porque parece que foi assinado um contrato de exclusividade com outras marcas. Mas o impressionante é que só o que eu conseguia ver à venda era água, cerveja sem álcool e, com muita sorte, Pepsi Twist Light, sendo disputada a tapa; todo o resto se esgotou antes do intervalo. Dei a volta em todo o anel em busca de bebida, mas a situação era essa - acabei ficando só com um copo d´água mesmo. Além dos poucos isopores estacionados junto às rampas de acesso à arquibancada, havia os bares, com longas e lentas filas, das quais saía gente com sua bebida dentro de copos de isopor, ironicamente patrocinados pela Skol. E nem do lado de fora consegui matar minha sede, com o sumiço dos ambulantes.

Comida, é claro, continuou com a falta de opções de sempre. E se os produtos Flamengo piratas quase sumiram (tirando uma ou outra camisa infantil e um varalzinho de camisas incrivelmente convincentes com a marca Nike, por inacreditáveis 30 reais, no alto da rampa para a arquibancada), não apareceu nada de oficial no lugar.

Era um domingo de sol forte, a praia convidativa. 30 reais a entrada. Um jogo que valia quase nada. Um time de freio puxado em campo. E este foi o serviço que teve no Maracanã aquele que resolveu ir ao estádio.

Chegando em casa, contei o drama para minha esposa, que ficou em casa e viu o jogo na TV com amigos. Ela me respondeu: "bom, aqui em casa a gente bebeu uma Patrícia, algumas Stellas, depois ficou na Skol com amendoim, batatinha e torradas com pastinha".

Devo eu ir ao Maracanã em uma próxima oportunidade?

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Ah sim: na entrada, um responsável pela roleta tentou pegar o ingresso de um amigo meu antes dele colocá-lo na catraca, pra ficar com ele intacto na mão e devolver no lugar um já marcado. É óbvio que, se tivesse conseguido, o ingresso iria para a mão de algum cambista do lado de fora. 

É isso: o choque de ordem não chega em todos os lugares.

4 comentários:

Max disse...

Quando o Glauco me falou como foi ontem, pensei: nao irei mais ao Maracanã e ja to providenciando o PPV do estadual.

Pelo jeito não sou o único...

Marcos Monnerat disse...

Eu também, graças a Deus, desisti de ir. Aliás, nem assisti o jogo. Para o jogo da próxima quinta a gente pode combinar de ver tomando cervejas na casa do Max... Não! Não pode, o jogo vai ser as 16h!!!

lucas dantas disse...

teve lugar marcado no estáido como prometeram?

André Monnerat disse...

Na arquibancada, claro que não.

Eu cheguei a ler que teria na cadeira azul. Depois, tenho a impressão que falaram em ser só nas cadeiras especiais.

Hoje no almoço, comentaram comigo de um conhecido que tinha ido de especial. Não me ocorreu perguntar se era lugar marcado. Mas disseram que tinha policial mandando assistir jogo sentado o tempo inteiro. O cara levantou pra fazer um "uhhh!" quando o Obina perdeu um gol e o policial deu esporro nele, inclusive.