"Desce duas cubas livres!". Uma tarde em Conselheiro Galvão

O relato do "enviado especial" do SobreFlamengo a Madureira no primeiro jogo do Flamengo por lá desde os tempos de Marcos Dener.



Não vou ter a cara-de-pau de escrever sobre o empate entre Madureira e Flamengo, a que não assisti direito. Mas meu amigo Emanuel Alencar, jornalista e rubro-negro, esteve por lá e conta como foi seu programa suburbano da tarde de quarta-feira. Como as demais que ilustram o texto, foi tirada por ele a foto ao lado, de um vendedor de bananas ao lado do Aniceto Moscoso - estádio em que, segundo ele, não é mesmo nenhum absurdo o Flamengo jogar (mas eu acho que, se não tem iluminação, o mínimo era evitar partidas com os grandes durante a semana...).

Lê aí!


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"Desce duas cubas livres!". São 14h de quarta-feira e um dos restaurantes mais arrumadinhos do Mercadão de Madureira manda descer. No cantinho do salão, uma bandeira do Flamengo repousa, enrolada, esperando o momento de entrar no Estádio Aniceto Moscoso. Ainda dá tempo de beber as cubas, comer um bacalhau ou um churrasco honesto. Tudo sem pressa. Honesta também é a conta: um prato bem servido sai por R$13. Dali do Mercadão pro campo do Tricolor Suburbano é um pulo. É só sair pela Edgar Romero, nervosa com seu vai-vem de gente, carros e ônibus, e entrar numa ruazinha daquelas típicas de subúrbio, a Capiranga. 




A entrada do estádio, que coincide com o fim da Capiranga, é pra lá de simples. Mas as roletas funcionam direitinho e, faltando mais de uma hora para o início do jogo, estamos debaixo de um sol cruel, impressionante, inclemente. O gramado é ótimo e as arquibancadas do Madura, que ganharam as antigas cadeiras do Maracanã, estão longe de ser desconfortáveis. Mas não dá pra sorrir muito quanto estamos numa sauna. Do lado de lá, nas sociais, reservadas aos torcedores do Madureira, sombra e água fresca. Na torcida do Flamengo, o camelô se esbalda vendendo água a R$ 4. Cerveja não pode. Mas você pode se refrescar com picolé também.

Os lugares vão aos poucos sendo ocupados. A notícia que corre é que surpreendentemente todos os ingressos foram vendidos - "2.500 ou 3 mil, não sei bem", diz um moço com a camisa da Ferj. O time do Flamengo cruza o campo sob aplausos. Os mais novos gritam o nome do goleiro Felipe. Ele está pertinho, certamente vai ouvir. Do lado oposto, perto das piscinas do Madura, estão três jovens. Implicam com a torcida do Flamengo e ouvem desaforo de volta. "Fica aí comendo jamelão, seu morto de fome", berra um flamenguista. "Se não fosse o Mercadão o Madureira já tinha acabado", provoca outro. A gargalhada é geral.

 Começa o jogo. Felipe, aclamado pelos torcedores mirins, parece ter preguiça em repor a bola nos tiros de meta. A partida transcorre sem grandes emoções. O Madureira é mais arrumado. Mas tem sérias limitações. Dá dois sustos no goleiro do Fla - em bolas alçadas da direita. E só. O Flamengo também não mostra muita coisa. Aos 16 minutos, boa jogada pela direita, e Nixon, o camisa 10, chuta com perigo. A bola passa rente à trave direita do goleiro tricolor. As melhores chances do Fla são pela direita, com Leo Moura, Ibson e o esforçado Rafinha. O jovem camisa 11, em seguida, corre pela esquerda e é derrubado. A torcida gosta da vontade dele. Até que, no finalzinho do primeiro tempo, ele, Rafinha, toca para Rodolfo, que tabela com Ibson e dá um passe açucarado e bonito pro camisa 7 fazer um a zero. O zagueiro tenta tirar, mas a bola morre no gol do estacionamento. Ibson não comemora. Rodolfo vibra com a boa jogada e aponta para a torcida.



No segundo tempo, Nixon, mal no jogo, é substituído por Adryan logo aos 3 minutos. A troca não muda o panorama. O Madureira se anima, vê que o adversário não é nada demais. O camisa 9 do Madureira é segurado pelo lateral Felipe Dias, do Fla. O menino é o pior em campo, mas tem o apoio da torcida rubro-negra, que não viu penalidade. Mas o pênalti tá marcado, paciência. O capitão do time da casa manda um torpedo pro gol. Empate e uns 100 torcedores vibram nas sociais.

Renato Abreu entra na lateral esquerda e dá um gás por ali. O Madureira, fechadinho, rebate bem as bolas. Adryan demora a chutar e perde um gol. Luiz Antônio substitui o bom Rodolfo e não consegue melhorar o desértico meio-campo do Flamengo. Se estava ruim no primeiro tempo, a situação não melhora na etapa final. O Madureira, que também podia se chamar Modesto F.C., quase desempata aos 35 minutos. O empate está bom demais pro Tricolor. O Fla tenta atacar na base do abafa. Falta um organizador de jogas, e o centroavante Hernane briga com a bola. Fim de jogo. Os jogadores do Madura pedem a camisa dos colegas de profissão rubro-negros. Ibson e compahia não pedem as camisas amarelas com listras brancas do adversário. O Flamengo sai de campo vaiado em Conselheiro Galvão.

 Logo após o apito final, me lembrei do pedido da moça do restaurante do Mercadão: "Desce duas cubas livres!". Com esse time rubro-negro, só mesmo um pouquinho entorpecido para torcer sem preocupação.

6 comentários:

Paulomarcus Ferreira disse...

Andre , sou obrigado a discordar da opinião do seu amigo . Em um futebol dito profissional jogar em um estadio daquele é piada . O Rubens Lopes conseguiu se superar neste ano , creio que o lema da federação é : nada é tão ruim que não possa piorar .SRN

Luis disse...

Fla e Madureira no meio da tarde de um dia de semana em pleno verão carioca é sacanagem, né? Desse jeito, não há plano de marketing etc que tenha retorno. É fundamental os regionais serem rediscutidos e colocados de cabeça para baixo.

lussiannosousa disse...

Enviado especial, hein! O Sobre Flamengo tá bem rs. Coitado do cara que teve de assistir essa pelada sem vergonha.

Emanuel Alencar disse...

Ainda bem que o blog tá pagando um suco de groselha com sanduíche de mortadela ao enviado especial!

André disse...

Para mim os estaduais estão "falidos".

Não vejo mais sentido econômico em mantê-los nos calendários, salvo uma reformulação na concepção como redução no número de jogos e participantes.

Como um clube ousa pedir 40 ou 50 milhões de patrocínio para a camiseta se os jogos até Maio na sua grande maioria não terão mais de 5.000 pessoas no estádio e uma audiência ridícula na televisão?

Os estaduais deveriam ser jogados na maioria das vezes nos finais de semana e em estádios muito melhores.

Paulomarcus Ferreira disse...

Andre, vc acredita que exista a possibilidade do flamengo conseguir as certidões necessárias para ter como fechar e receber verbas de patrocinadores estatais e os incentivos fiscais para os esportes olímpicos?vc ta sabendo de algo sobre a trairagem do Mateus ?SRN