A vida de gado dos torcedores de futebol que ainda se dispõem a comprar ingressos

Ainda está vivo na memória dos rubro-negros o que foi a corrida por ingressos para o Flamengo x Grêmio do ano passado, que decidiu o hexacampeonato. Hoje é a vez dos tricolores passarem o seu perrengue – que, olhando de fora, está me parecendo ainda pior do que o da torcida do Flamengo no ano passado. O tipo de histórias que estão aparecendo em torno desta venda de ingressos para Fluminense x Guarani é assustador. Tem coisas que a gente só vê mesmo no mundo do futebol.


No ano passado, a diretoria do Flamengo ao menos colocou as entradas à venda com duas semanas de antecedência. Já a diretoria do Fluminense simplesmente não se pronunciou sobre como venderia os ingressos até o final da tarde de ontem; até ali, não se sabia oficialmente quando começaria a venda, em que pontos, por que preço, nada.

Por conta disso, uma grande quantidade de torcedores ficou na fila à toa em pontos onde a venda normalmente acontece – como o Tijuca Tênis Clube -, mas que desta vez ficaram de fora. Um grupo esteve no Tijuca desde a manhã de ontem, até descobrir que não conseguiria nada por ali; de lá, partiu para a Gávea, onde a fila já existia também havia um bom tempo. Por lá, conseguiram senhas por volta do número 460 – número próximo de um amigo meu, que me contou a história -, mais ou menos às 21h.

As senhas, é bom dizer, não eram oficiais; por conta própria, os torcedores tricolores nos diversos pontos de venda tomaram a iniciativa de tentar melhorar a organização do processo, fazendo listas de quem estava na fila, distribuindo senhas e até mesmo amarrando cordas de varal para delimitar o espaço da fila.

A venda iniciou-se às 9h de hoje. Às 11h, foi divulgada na internet a informação de que já haviam se esgotado os ingressos para o setor Leste Superior, que tem 8 mil lugares. Mas as filas de modo geral tinham andado muito pouco e este meu amigo, com a senha 460, ainda não tinha se aproximado da bilheteria. Na verdade, segundo informações, apenas cerca de 50 pessoas haviam sido atendidas até aquele momento em outro importante ponto de venda – a HSBC Arena. Naquele ritmo, com tão pouca gente tendo sido atendida, como diabos teriam sido vendidos tantos ingressos?

Na Gávea, este meu amigo via policiais chegando às bilheterias (sem seus nomes no uniforme, para não serem identificados) e voltando com bolos enormes de ingressos nas mãos, na maior cara de pau. Cambistas já começavam a agir, mas enfrentando um clima de enorme hostilidade dos torcedores na fila, revoltados com o que viam.

(Um parêntese: foi anunciado que os ingressos estariam também à venda na Internet. Mas, como de costume, o site da Ingresso Fácil simplesmente esteve fora do ar durante todo este tempo – como está até agora, enquanto escrevo.)

Pouco depois das 13h, este meu amigo – que precisava trabalhar, afinal – desistiu. A fila simplesmente não havia andado nas últimas duas horas. Ou seja: depois de ter chegado à Gávea ainda na noite anterior, e de ter ficado quase parado na fila por quatro horas, ele ia embora sem ter conseguido comprar seu ingresso. Lembrando: sua senha era a de número 460. Em quatro horas, as três bilheterias abertas ali não haviam atendido, portanto, nem 400 pessoas – e ainda assim se anunciava que setores inteiros, de milhares e milhares de ingressos, já estavam se esgotando, mesmo com as notícias dando conta de que a fila era muito lenta, devagar quase parando, nos outros pontos de venda. Onde foram vendidos todos estes ingressos, afinal?

A esperança dele de conseguir um ingresso ficou por conta de uma menina que ele havia conhecido na fila e havia se comprometido a comprar apenas dois ingressos – ou seja, poderia comprar mais um. Ela tinha chegado à fila mais ou menos na mesma hora da noite anterior e, tendo um horário de trabalho mais flexível, ainda tinha disposição de ficar lá por mais tempo. Às 15h, depois de 6 horas de fila, ela – com sua senha por volta do número 460, lembremos – finalmente conseguiu comprar os ingressos. Custaram R$150 cada um, para o setor mais caro do estádio, o único ainda disponível.

No meio de tudo isso, diversas notícias foram surgindo de gente que virou a noite na fila e não conseguia comprar seu ingresso após tantas horas passando mal, desmaiando, sendo levada às pressas para o hospital. Houve até um triste caso de morte por infarto fulminante.

Depois de toda a farra dos ingressos na final da Libertadores de 2008, a gestão Horcades chega ao seu final no Fluminense com mais um episódio de inacreditável desrespeito ao seu torcedor. Só mesmo no futebol um consumidor é tratado desta maneira e ainda se dispõe a voltar para o mesmo perrengue em outra oportunidade – e em outra, e em outra...

Até quando?


* * * * * * * * * * * * *

Lembremos: o Rio de Janeiro vai ficar sem o Maracanã até, no mínimo, 2013. Até lá, o maior estádio disponível é o Engenhão. Hoje, foram colocados à venda menos da metade dos ingressos que estavam à disposição dos rubro-negros no Flamengo x Grêmio do ano passado.

Imaginem vocês, portanto, o que aconteceria nesta cidade se o Flamengo tivesse um jogo com este tipo de apelo no Engenhão. No final deste ano, surgiu para a torcida do Flamengo a opção de adquirir um cartão que pode ser usado como entrada em todos os jogos, sendo recarregado pela internet, telefone ou em casas lotéricas, além dos habituais pontos de venda de ingressos; vamos ver, quando surgir o primeiro grande teste, se este novo esquema realmente foi montado de modo a atender satisfatoriamente a torcida do Flamengo numa situação dessas.

Lembrando: a empresa responsável é a mesma BWA que faz os rubro-negros sofrerem a cada grande jogo há anos e hoje está administrando este caos tricolor. Empresa à qual, infelizemente, o Flamengo ainda está preso por uma dívida milionária, herança maldita de administrações anteriores do clube.

5 comentários:

David disse...

Cara, cheguei à Arena da Barra 19h do dia anterior, pernoitamos na calçada, com senha de numero 581.
às 13hs fui embora, a organização não havia, os cambistas furavam fila e num certo momento embarreiraram a bilheteria e ninguém conseguia comprar mais, a Polícia do 31ºB dizia que sua função era "matar bandido" e que ele não estava ali para organizar fila, apenas para dar porrada se alguma coisa houvesse.
Fui embora com uma sensação de frustração imensa (fui a todos os jogos do Flu como mandante e não veria o último e mais importante).
Por sorte passei agora às 17h na Arena e ainda estava vendendo.
Felizmente consegui o setor Sul agora 19h.
Infelizmente somos tratados como animais, e nao há ninguém para nos proteger!

Saulo disse...

Embora Flamenguista, estive com um amigo na fila das laranjeiras. Ele esteve comigo naquela vigília do Maracanã ano passado e tive que retribuir o favor. Vale lembrar que aquela peregrinação rubro-negra foi para comprar 5000 excedentes e que a venda oficial aconteceu com muita procura sim, mas de forma organizada.
Lá nas laranjeiras, Pegamos a lista por volta do 960 (por volta das 19:00 h do dia 30) e também não conseguimos ingressos. Por volta das 14:00 h fui até a frente da bilheteria e perguntei o numero da lista do cidadão prestes a comprar: era 326!
O que eu vi nas laranjeiras foi um desrespeito com a torcida inacreditável. Os mesmos problemas (incluindo os policiais sem identificação) relatados por seu amigo se fizeram presentes na sede.

Saulo disse...

Mas a cereja do bolo foi de noite. Uma amiga me liga dizendo que voltou a vender ingressos no engenhão e que os mesmos seriam vendidos "até acabar". mandei minha namorada ao engenhão, fui para laranjeiras e, na fila um rapaz atrás de mim mantinha contato com um amigo na gávea. Qual não foi minha surpresa ao descobrir que nestes 3 postos de venda acabaram-se os ingressos,com pontualidade britânica, as 21:00 H. Pelo menos dessa vez o final foi um pouco diferente. Minha namorada conseguiu os 2 ingressos (O do irmão dela que eu compraria e o do meu amigo) a R$ 75,00 cada.

Murdock disse...

Pois é, como esse cliente volta sempre, por que se preocupar em melhorar o atendimento? Será que com estádios vazios a coisa vai mudar? Será que a torcida consegue não ir ao estádio pra protestar?

Bosco Ferreira disse...

Isso nunca mudará no Rio. Os cambistas estão a serviço dos dirigentes, Se investigarem comprovam.
Torcedor em greve? É mais facil o mar secar.
Torcedor adora um pirulito.